quarta-feira, abril 19, 2006

Está Visto Que Quanto Mais Se Mexe Neste Portugal Mais Ele Fede (II)

O Governo pretende aplicar os descontos sobre pensões, ao mesmo tempo que se multiplicaram nos últimos anos as pensões milionárias auferidas por quem durante parcos anos desempenhou funções políticas ou de gestão pública. Nota-se aqui algum odor a contra-senso? Talvez...
Mudando de tema, na semana da Páscoa, sabe-se, sexta-feira é dia santo de folga para inúmeros portugueses. Contudo, há aqueles para quem tal folga se estendeu por bem mais que a dita sexta-feira santa. E esses foram justamente os deputados deste país, pagos pelo erário público a peso de ouro quando comparado o ordenado auferido com a média recebida pelos trabalhadores da lusa nação.
Ora, na referida semana da Páscoa nada menos que cento e dezanove deputados faltaram à normal sessão do hemiciclo na quarta-feira, dois longínquos dias antes do feriado. Pior, deslocaram-se tais deputados ao Parlamento com o exclusivo propósito de assinar o livro de presenças (não prescindindo, pois, de um cêntimo que seja do ordenado) e, posteriormente, colocaram-se em fuga mal foi permitido. No partido da maioria tal sucedeu com metade dos deputados; no maior partido da oposição dois terços seguiu idêntico caminho. Como a folga não foi suficiente, no dia seguinte, quinta-feira, tão pouco o Parlamento abriu portas.
Aquando das viagens-fantasma dos deputados toda a celeuma levantada acabou por redundar em nada, pelo que não é de esperar que agora diferente resultado seja atingido, por mais inquéritos que se ameacem levantar como forma de atirar pó aos olhos do contribuinte comum. Depois disto, haja moralidade para falar na pouca produtividade do país e se pedirem sacrifícios aos portugueses. Ao Primeiro-Ministro e Presidente da República exige-se intervenção pública célere, como forma de salvar a pouca credibilidade que resta ao Parlamento e aos políticos. Claro está que na justificação das faltas dos deputados inúmeras desculpas surgirão. Mas existirão desculpas suficientes para bem mais de uma centena de faltosos? E existirá desculpa para o livro de presenças ter sido assinado por deputados que sabiam não tencionar estar presentes nos trabalhos do Parlamento?
Os políticos, diga-se, são uma das maiores classes de privilegiados existentes em Portugal. Ao invés do que sói dizer-se, são bem pagos quando se atenta no nível de vida da generalidade dos portugueses. Para mais, a política deve ser entendida como uma missão e não uma profissão (sendo que mesmo nesta condição não deixam de proliferar os tachos, facto porventura resultante dos míseros ordenados que abundam na política).
Por coincidência, esta semana a Comissão de Ética da Assembleia da República organizou um colóquio subordinado à temática da política e da ética. Acrescente-se que, já agora, o próprio presidente da tal comissão foi um dos imensos deputados que assinou o livro de presenças no famigerado dia e, posteriormente, se ausentou dos trabalhos no hemiciclo. Continuamos no âmbito dos pormenores, portanto. E pelos mesmos nos deveremos deixar ficar, já que todo o assunto aqui dissecado parece rodar em torno do mesmo de sempre: de quatro em quatro anos mudam algumas moscas em São Bento, mas, quando isso, só mesmo isso.

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