segunda-feira, março 20, 2006

Ainda a Saúde Tendencialmente Paga, as (In)competências e... As Cunhas

O Ministro da Saúde defendeu o aumento das taxas moderadoras no Serviço Nacional de Saúde evocando que em países como Inglaterra e França tais taxas também existem. E nada mais que isso. O que conduz a concluir que, de facto, é recorrente esta arte de tecer comparações entre realidades incomparáveis, ao mesmo tempo que se compara aquilo que interessa comparar e se omite o que se torna desconfortável ou inconveniente. Não fosse assim e o Ministro da Saúde teria igualmente comparado o nível de vida médio em Portugal com o de França ou Inglaterra, os ordenados mínimos ou ordenado médio das distintas populações, as respectivas pensões de reforma (tudo bem, não se inclua aqui a classe política), já para não referir a distância que separa Portugal de britânicos e gauleses no concernente à qualidade de serviços básicos de um Estado de direito, como o são a justiça, a educação e a própria... saúde. Coisa pouca, convenhamos.
O tempo é de crise. Quiçá por isso, ou por razão igualmente relevante, Sócrates decidiu deverem os gestores públicos ser aumentados em 30%. Por outro lado, e ao mesmo tempo que é anunciada a premência de serem extintos inúmeros institutos e organismos públicos, a par da fusão de outros como forma de ser controlada a despesa pública, soube-se da intenção governamental de aumentar os ordenados de quem ocupa cargos de chefias dos (justamente) institutos e organismos públicos, por forma a – atente-se – ser promovida a competência.
Novidade esta de a competência ser comprada com ordenados luxuosos ao invés de resultar dos conhecimentos, responsabilidade e empenho que deveriam constituir qualidades unanimemente reconhecidas a quem é chamado a desenvolver... competências de relevo. Mas talvez assim se compreenda melhor o motivo pelo qual deputados, gestores públicos e outros mais cargos de importância pública e semi-pública são presenteados com ordenados de alimentar inveja junto da generalidade dos portugueses, ainda que há muito – mesmo com ordenados inflaccionados e desfasados da realidade lusa, a que se somam despesas de representação, ajudas de custo e outros tantos subsídios de reintegração que constituem a mais vergonhosa e injustificada arma de depredação de dinheiros públicos – se já devesse ter concluído nem assim a competência ser comprada (óbvia conclusão que não conviria a muita alma)...
Um dia destes uma reportagem da SIC abordou algo que neste blogue sempre se sublinhou: a proliferação dos mais distintos modelos favorecimentos pessoais relacionados com a ocupação de cargos profissionais de importância pública ou nem tanto (a pólvora existe há muito, mas há sempre quem se predisponha a redescobri-la). Os tráficos de influências actuam ao mais alto nível político e adquirem redobrada dimensão quando se chega à administração pública, central ou local. Na esfera autárquica sucedem-se impunemente os concursos públicos como meio de simulação de legalidades mais que inexistentes, sendo tais habilidades formais de uso recorrente e regrado sistematicamente abafadas pelo facto de o mesmo prato alimentar toda uma maioria, e não a excepção, que vive embrenhada nessa infindável teia de interesses e conivências que é o pão de Portugal.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?