quarta-feira, fevereiro 08, 2006

As Caricaturas Da Discórdia e Outras Matérias Do Deleite Nacional

O universo muçulmano caminha em alvoroço face às caricaturas satíricas de Maomé publicadas num jornal dinamarquês e, entretanto, difundidas pelo mundo ocidental. A este propósito pouco subsistirá por acrescentar ao que já foi dito e redito acoli e acolá. Talvez tão somente que o Ocidente não pode permitir-se a manter relações cordiais com países do mundo árabe enquanto nestes o défice de liberdade alimentado pela promiscuidade entre os poderes político, judicial e religioso não permitir compreender a liberdade de expressão e opinião (a par doutras) que constitui património inalienável dos cidadãos ocidentais. E, neste seguimento, em muito maior grau o Ocidente não poderá manter relações de qualquer natureza com nações onde a religião serve de alicerce a comportamentos e ideologias extremistas que repetidamente, e por inúmeros outros meios que não os da força da voz e da razão, se pretendem vender a toda uma outra metade do planeta que deles bem prescinde.
Por estes dias competiria perguntar aos líderes árabes se, para lá das caricaturas de Maomé, não deveria ofender bem mais quem professa a religião muçulmana a invocação do Islão para se esmagarem aviões contra arranha-céus ou fazerem explodir comboios, autocarros e metropolitanos, ceifando-se milhares de vidas inocentes em rituais terroristas que vangloriam a carnificina e alimentam o gáudio e os festejos que após tais barbáries irrompem da Palestina ao Irão, do Líbano à Síria.
Mas, por falar em religião, regressemos à enternecedora realidade lusitana. Fátima Felgueiras vai em peregrinação no próximo Sábado até... Fátima. Com ela vão milhares de felgueirenses, no intuito de agradecer o divino apoio concedido nas últimas Autárquicas (terá caído bem o facto de a política brejeira ter ocupado a mente de quem habita nos Céus). Não se ousará aqui falar da potencial ofensa que o acto da autarca de Felgueiras pode representar para os Católicos devotos da Nossa Senhora que, seguindo na íntegra os valores da Cristandade, fazem da honestidade lema de vida e, portanto, não revêem na sua religião tão ilustres personalidades trapaceiras e corruptas para as quais Fátima Felgueiras constitui o perfeito arquétipo. Não, não se ousará aqui elaborar semelhante raciocínio (até porque quem aqui escreve, fazendo da honestidade lema de vida, não se revê na íntegra em todos os valores propagados pelo Catolicismo, não raras vezes enfermos de hipocrisia). Na verdade, toda a encenada peregrinação populista que agora ruma à Cova de Santa Iria até mais não deveria suscitar que a risota generalizada caso não estivéssemos a falar de quem vive à custa do bem público com a complacência dessoutros que, na política e fora dela, lhe aquecem as costas. E nada mais que isso, até porque já todos nos vergámos à ideia de que é este o retrato de Portugal.
A propósito, uma nota final em tudo distinta: quando os portugueses vivem atolados em sacrifícios económicos, a banca lucra com a crise instalada a ponto de ter fechado 2005 com um recorde astronómico de receitas. Ainda assim, adivinhe-se sobre quem continua o Governo a fazer recaír o agravamento de impostos...

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Da Crise Só Para Alguns e Do Presidente Que Promete Ser De Todos

Perdoe-se a insistente mesquinhez, mas num país ofertado com incessantes agravamentos de impostos e perdas de regalias incidentes sobre uma população desde logo penalizada por desfrutar de um dos mais degradantes níveis de vida da União Europeia a vinte e cinco, poder-se-á revelar interessante (ou, empregando terminologia adequada, esclarecedor) atentar nas pensões, subvenções, subsídios, ajudas de custo, despesas de representação e outros hábeis mecanismos de subtracção de dinheiros públicos em favor das contas bancárias e rendimentos de deputados, autarcas, gestores públicos e demais detentores de cargos políticos ou de confiança política. Tal despudorada depredação principia no Banco de Portugal, passa pelas empresas de capitais maioritariamente públicos ou com intervenção estatal, estaciona nas autarquias e acelera no Parlamento. Neste último, 2005 levou o Estado (ou, diga-se nestes termos, todos e cada um dos portugueses a quem é vedada a generalizada fuga aos impostos promovida junto de quem detém actividade liberal ou posição social de privilégio) dispendeu cerca de 1,4 milhões de euros com subsídios de reintegração atribuídos a deputados, sabendo-se que bastantes até nem necessitarão de tão piedoso auxílio, dado vigorar a norma da acumulação de funções na Assembleia com cargos em empresas e actividades profissionais paralelas.
Mas fale-se então do Presidente da República eleito há menos de um mês (o qual será empossado daqui a poucos dias) e, por inerência, das Presidenciais, agora que o pó tende a assentar definitivamente. Cavaco venceu sem surpresa. Isto porque as Presidenciais se desenrolaram num país onde trinta anos e uns pós de democracia não chegaram para assegurar a maturidade da mesma. Só assim se compreenderá que o povo premeie quem sempre se ficou pelas entrelinhas com receio de hipotecar votos garantidos pela ambiguidade do discurso proferido e quem ressuscitou a censura política ao tratar a crítica dos adversários como pecado letal numa... democracia. Cavaco fez isto e muito mais. Encenou uma candidatura supra-partidária, na ânsia de se afastar da má imagem dos partidos no contexto político actual; encarnou o papel de salvador da pátria e defensor dos fracos; propagandeou o empenho no combate à corrupção, mal grado o cartão laranja que em tempos instituiu.
O povo tem a memória que tem. E sabe-se como a força das massas nem sempre fomenta a racionalidade ou por ela é movimentada. O povo fez por esquecer o Cavaco do buzinão e dos confrontos na Marinha Grande, o Cavaco que singrou a expensas dos milhões de fundos comunitários, dos quais, à parte os que se transformaram em alcatrão, boa parte forrou as contas dos imensos novos ricos que adquiriram estatuto no auge do cavaquistão (uma pequena amostra deles bem festejou a vitória do seu abono de família no varandim do CCB).
O povo rejubila. Tem o presidente que quer (e merece). Mas igualmente radiante estará Sócrates. Grande derrotado? Não, pois assim ganhou um anuente com as políticas de sacrifício que continuarão a recaír sobre a classe média trabalhadora e, a par disso, um bode espiatório do espectro partidário oposto com quem partilhar o desagrado provocado pelas mesmas.

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