quinta-feira, janeiro 19, 2006

Dos Inocentes Vítimas Da Justiça e Dos Ociosos Que Se Agrupam a Sul

Corrupção passiva, abuso de poder, fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. De todo este honroso rol de crimes foi, finalmente, formalmente acusado Isaltino Morais, presidente da Câmara Municipal de Oeiras que, ainda assim, não encontra motivos para ao mandato. E porque existiriam, se o que mais abunda pela nação são políticos de currículo idêntico ao de Isaltino? A regra será mesmo essa. Descanse, pois, o senhor Isaltino, que considerando o funcionamento da justiça lusitana e o modo peculiar como o povo tem por hábito premiar (por intermédio dos mecanismos que a democracia lhe confere) a desonestidade e a trapaça, novos mandatos ainda o aguardarão enquanto presidente da edilidade de Oeiras. E, acrescente-se, com tão invejoso currículo, quem sabe se ainda não chegará a Primeiro-Ministro...
Avance-se na matéria. «Tal como as gentes do Norte, nunca voltei a cara ao trabalho». A afirmação que aqui se transcreve foi proferida por Cavaco num comício realizado no Porto. Oportuna, sem dúvida, tendo em consideração a plateia a que se dirigia e, por isso mesmo, do mais aprofundado carácter populista. Mas, a atentar bem nas palavras de Cavaco, poder-se-á concluir que – de forma implícita assim poderá ser interpretado – as gentes sulistas ostentam traços próprios de quem se assusta com toda e qualquer actividade de índole laboral? Gastarão as gentes ribatejanas, estremadurenses, alentejanas e algarvias os seus dias em casa na ânsia de que do Norte a solidariedade de outros cidadãos que não eles mesmos lhes venha colocar o pão na mesa?
Provavelmente será por puro prazer masoquista dos utentes e não por se dirigirem para o local de trabalho que todas as manhãs o IC19 entope de carros e os autocarros e metropolitano de Lisboa circulam apinhados. Seja como for, na remota época em que perdeu outras presidenciais para Sampaio, Cavaco havia dividido o país entre cidadãos católicos e não-católicos; desta vez a divisão faz-se entre os que pretensamente trabalham a rodos e aqueloutros que até nada farão, com a particularidade de, vá-se lá saber porquê, estes últimos se acotovelarem no Sul de Portugal (levando este factor a crer que os números divulgados referentes à produtividade do país e modo como se distribui geograficamente estarão incorrectos em toda a sua plenitude, mormente no respeitante à contribuição da região de Lisboa para o PIB).
Termine-se com outro assunto. Na semana transacta nova machadada foi perpretada na credibilidade do sistema judicial, ao se saber que do rol de escutas anexadas ao processo Casa Pia constavam comunicações telefónicas do próprio Jorge Sampaio, para mencionar o caso mais relevante. Ora, que a justiça portuguesa (como tudo o mais) caminha pelas ruas da amargura, colocando em cheque o Estado de direito que em muito o vai deixando de ser, já há muito se sabia. Contudo, num processo que toca tão relevantes personalidades políticas e mediáticas do país, onde terminará a ineficácia e incompetência da justiça e começarão as tentativas despudoradas e de mais alto nível para descredibilizar um processo de que, adivinha-se, todos sairão inocentados e (pourquoi pas?) louvados?

O Eterno Triúnfo Do Fazer Como Se Diz e Não Fazer Como Se Faz

Consta que meio país andou preocupado com a lesão que Sócrates contraíu na sequência da prática de esqui na Suíça. Ainda assim, teve sorte o Primeiro-Ministro da nação, pois ao comum português a possibilidade de contraír semelhante lesão somente poderá ocorrer algures na Linha de Sintra ao correr para o comboio ou na Estrada de Benfica ao atravessar a rua em desenfreada correria com receio de perder o 29 que vai apinhado para a Pontinha e que, não obstante as indicações constantes nas paragens, há muito só se vê a cada três quartos de hora.
Ter-se-á discutido a inoportunidade de o Primeiro-Ministro passar as suas férias na Suíça, considerando o quadro sócio-económico deplorável que o país atravessa. Defendendo a face de Sócrates, anunciou-se que o chefe de Governo o fez a suas expensas e, vistas as coisas, sem encargos estatais. Sucede que o que pode ser questionado é o sentido de ética adoptado por quem incita os portugueses a apertar o cinto, arrogando-se ele próprio ao direito de o não fazer, visto poder dar-se a semelhante luxo. Ora, os cargos políticos não podem ser encarados como uma profissão que se tem das nove às cinco, mas antes como uma missão que a dado momento se desempenha a favor do país e da qual o político não se pode desligar quando vai para casa, antes devendo ser capaz de demonstrar que a justeza e razonabilidade das decisões e solicitações por si feitas é desde logo comprovada pelo facto de ser ele o primeiro a acatá-las e segui-las, mesmo que a isso o não obriguem a sua saúde económica ou outras condicionantes de índole legal. Será legítimo ao Primeiro-Ministro vestir o papel do capitão que incita os seus marinheiros a remar com mais vigor enquanto ele se banqueteia no camarote? E, ainda e sempre numa vertente ética, será razoável ao patrão de uma unidade industrial pedir aos seus empregados para abdicarem de um qualquer direito salarial que se lhes assista em prol da salubridade da empresa, enquanto ele próprio, mesmo que com despesas inteiramente por si pagas, vai passar férias aos Alpes suíços ou fazer um safari no Quénia?
Em suma, e ainda que uma e outra coisa pareçam nada ter a ver, quando a degradação do nível de vida prossegue num Portugal onde todos os bens e serviços aumentam em valores superiores a cinco por cento (a electricidade para uso doméstico subirá uns notáveis 17%!) e os aumentos salariais pouco ultrapassam a unidade percentual (desconhecendo o Governo que, a este propósito, o relançamento da economia também sucede pelo aumento do poder de compra da classe média trabalhadora), a solidariedade ética e moral da classe política parece desconhecer a luz do dia. Prova disso, procure saber-se que políticos da praça lusa verão este ano os grossos ordenados congelados. Com toda a certeza nenhum, já que os aumentos salariais lhes fazem mais falta que ao funcionário de base ou ao varredor de rua, com um ou outro subsídio encapotado a auxiliar nas despesas.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

O D. Sebastião De Boliqueime (Capítulo 8974) e a Crise Só Para Alguns

«Dirijo-me aos portugueses que ainda não decidiram votar em mim, provavelmente por terem a sua vida organizada e não se preocuparem com o futuro». Parece sina deste blogue, nos derradeiros tempos, fazer citação de uma ou outra declaração produzida por Cavaco. Reincide-se, portanto.
A supra-referida declaração do candidato da Direita que o nega ser (como se os aparelhos partidários do PSD e CDS-PP dissociados da campanha do Dom Sebastião de Boliqueime, não operando na sua sombra) foi proferida no término do já longínquo debate entre Soares e o próprio Cavaco e, dispensando extrapolações abusivas, é assaz elucidativa da linha de pensamento do dito candidato presidencial. Ou seja, ficou a saber-se que para Cavaco (e, potencialmente, seus seguidores) quem no próximo mês de Janeiro não votar em si é porque tem a vida organizada ou, na pior possibilidade, não se preocupa com o futuro. Na verdade, que outros motivos poderiam ser enunciados? A modéstia será, sem dúvida, uma qualidade que a Cavaco se não reconhecerá, mas juntar a esta uns tantos pós de ignorância e outros de arrogância já será um tanto demais.
Cavaco refugia-se no silêncio e por ele será eleito. Encena não caír no desrespeito de criticar os seus adversários, como se numa democracia criticar constituisse ofensa capital. Advoga ser dono de obra feita quando foi Primeiro-Ministro, omitindo que à sua época milhões de fundos europeus sustentaram o seu governo, dos quais – à parte aqueles aplicados no alcatrão que conquista votos fáceis – grossa maquia ainda hoje se não sabe onde foram gastos (adivinhar-se-á...), sendo que em políticas de emprego, educação, saúde e cultura o não terão sido.
Hoje, Cavaco ganhou nova coragem para frisar que combaterá os clientelismos que grassam no país. Isto apesar de ter sido na fase mais cavaquista de Portugal que se propagou o cartão laranja de acesso a cargos públicos. Num país que respira clientelas, favorecimentos pessoais e tráficos de influências, esta nova meta de Cavaco mais não representa que uma nóvel incursão na arte da demagogia fácil que, até ver, o povo tanto aprecia.
Noutro âmbito, soube-se que o Ministro das Finanças entendeu por bem atribuir mais um (insista-se, mais um) subsídio de alojamento a um membro do Governo (ele próprio disfruta de tal subsídio). Desta vez coube o privilégio ao Sub-secretário de Estado da Administração Interna, Rocha de Andrade. Este subsídio, aliás, parece ser comumente atribuído aos membros do executivo que não habitem em Lisboa ou próximo, sendo que no caso em referência o montante atinge os módicos 1304 euros mensais. Perguntar-se-á: auferirá tão mal um membro governamental a ponto de não poder custear o seu alojamento, como o fazem demais cidadãos deslocalizados na sequência do exercimento da sua profissão? E, por outro lado, terão os subsídios em causa de cobrir integralmente despesas de alojamento de tais governantes, indo ao ponto de os mesmos se augurarem ao direito de se instalar em residências cujo provável défice de luxo custa ao Estado (ou seja, aos portugueses) uma mensalidade superior a duzentos contos? Assim parece...

O D. Sebastião De Boliqueime (Batamos No Senhor Uma Vez Mais)

«Bom, mas deixemos isso de lado». Quem assistiu ao debate entre Cavaco e Soares ouviu inúmeras vezes esta frase proferida pelo primeiro dos candidatos evocados. Na verdade, essa mesma afirmação resume toda a actuação de Cavaco na sua caminhada para Belém. A sua pose teatral profundamente estudada assenta que nem luva em alguém que não possui o dom da oratória e, por isso, de nada fala e de menos pretende falar.
Cavaco sabe que só será eleito pelo que não diz, já que pelo que disser será penalizado. Faz lembrar o comportamento dos réus numa audiência de tribunal, quando aconselhados pelos seus advogados (neste caso, Cavaco é-o pelo seu assessor de imprensa). E quando ousa falar, o que de relevante diz Cavaco? De essencial, nada. De acessório e oco, bastante. Entre uma coisa e outra, no pouco que diz ainda tem tempo para... mentir.
No mesmo debate com Soares antes referido, Cavaco afirmou-se orgulhoso dos seus anos de Primeiro-Ministro, porquanto por isso foi oportunamente julgado em eleições pelos portugueses, que lhe ofereceram maioria absoluta. Ora, o autor deste blogue possui boa memória, o que lhe confere legitimidade para contestar tal pensamento e catalogá-lo de mentira em todas as suas vertentes.
Recordemos: aquando da sua última legislatura, Cavaco decidiu não se recandidatar a chefe de Governo, por adivinhar os resultados trágicos que conseguiria. Assim, saíu de cena sem captar muitas atenções, tendo o seu sucessor na liderança do PSD, Fernando Nogueira, arcado com a derrota nas Legislativas que se sucederam, as quais mais não serviram senão enquanto julgamento popular do comportamento do executivo deposto de Cavaco. Mas há mais: posteriormente Cavaco Silva sujeitou-se a eleições presidenciais e, também aí, perdeu, num inequívoco segundo julgamento feito à anterior actuação de Cavaco enquanto Primeiro-Ministro.
Com a verdade reposta, porque a História política do Portugal contemporâneo confirma integralmente o que atrás se expôs, a questão que actualmente se coloca aos portugueses é a de desejarem ter como seu presidente alguém que só acerta por não falar e que, por esse motivo, constitui uma incógnita. Do que se conhece de Cavaco, assombram a memória as crispações sociais que sobressaíram da sua derradeira passagem por São bento, em tempo de (sublinhe-se) bonança euro-económica.
Mas fale-se do futuro, como Cavaco tanto gosta. E reconheça-se que ele próprio em Belém poderá assumir-se enquanto elemento profundamente perigoso para as classes trabalhadoras quando se conjectura a possibilidade de em futuras Legislativas o executivo socialista ser derrotado, mercê da presente actuação que desagrada a largos sectores da sociedade, adivinhando-se desse modo que a um presidente de Direita poderá somar-se um futuro executivo de idêntica Direita (coligado ou não), factor que pressuporá a aprovação na Assembleia da República de leis altamente lesivas para as já frisadas classes trabalhadoras de Portugal, com a então expectável complacência de um Presidente da República que até já afirmou, nesta pré-campanha, não se opôr à liberalização dos despedimentos desde que a mesma não esteja ferida de inconstitucionalidade (e sabe-se a margem de manobra que esta
atitude possibilita).

Direito à Indignação, Reclamação, Opinião, Sugestão e Afins (I)

O autor deste blogue tem-se debatido com sucessivos contratempos que têm condicionado a regular publicação de artigos no mesmo, mas, doravante e de quando em vez, aqui se procurará dar resposta a algumas mensagens que vão caíndo na caixa de correio que este MnE disponibiliza, salvaguardando-se sempre (quando aconselhável ou requisitado) o anonimato de quem remete as missivas e, bem mais relevante, tendo de se partir do princípio de que a sugestão aqui feita de outros endereços electrónicos não pressupõe a forçosa ou inevitável partilha de todas as ideologias ou pensamentos neles expostos, mas tão somente a aceitação de opiniões diferentes, como deve suceder numa sociedade plural e livre.
Assim sendo, é sabido que por distintas vezes (não poucas, mas nunca as suficientes) já neste endereço se abordou a sociedade corrupta e corruptível em que Portugal se tornou. Pois bem, aflorando essa mesma temática chegou uma destas semanas à caixa de correio do MnE um texto que, embora este blogue não pretenda fazer disso regra ou possua renitência no que concerne à publicação de mensagens quando desconheça a sua real origem e propósitos (não pretendendo com isto afirmar ser o caso), abaixo se expõe na íntegra:

«[...] Se podem gozar connosco, também podemos gozar com eles!
Político, política: se achas que Portugal é o sítio paradisíaco; a casa de férias onde recebes os amigos; se gostas de jogos de poder e à nossa conta comer; se és independente ou pertences à engrenagem do partido; se pensas que tudo podes comprar ou és um velhaco vendido; se te pensas candidatar e os nossos votos ganhar... Então TOMA:
CORRUPTÔN! O medicamento de vanguarda das democracias modernas; Testado em muitas repúblicas e países da Europa, algumas monarquias, jumentos e cobras.
CORRUPTÔN vai ajudar-te a entender o que deves com urgência fazer: desiste, põe o teu lugar à disposição. Entrega-te e vai p'rá prisão.
CORRUPTÔN, o paliativo indispensável para o político moderno sem vergonha.
INTEIRAMENTE GRÁTIS NA CONSCIÊNCIA MAIS PRÓXIMA! CONTRA A CORRUPÇÃO EM PORTUGAL! JUNTOS, BLOGAREMOS! A CORRUPÇÃO NÃO PASSARÁ!
Eh, Camarada Patrão!»

A caixa de correio do MnE recebeu, também, uma mensagem cordial onde é sugerida a visita e divulgação de um site que talvez possa interessar a todos quantos por aqui passam. Confessa quem aqui escreve ainda não ter tido tempo para o confirmar, mas de igual modo nada o induz a desconfiar da sugestão, podendo, segundo palavras do autor, encontrar-se muito boa poesia alentejana dedicada à política em
http://www.nossogrupo.com.pt/sons/poesia_alentejana.mp3.
Por fim, de mencionar ainda que o Mail do Murro (a caixa de correio deste MnE, bem entendido) tem recebido numerosas missivas dessoutro blogue Alfinete de Peito (também aqui situado no blogspot). No mínimo, os textos constituem alfinetadas assaz criativas.
Respeitosos cumprimentos e agradecimentos extensíveis a todos os mais (não poucos) que se incomodam em escrever para o Mail do Murro. No que concerne ao ano de 2006 que se inicia, os votos só podem ser de que seja melhor que os anteriores, porquanto, a nível político-social, pior será tarefa impossível.

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