quarta-feira, maio 03, 2006

O País a Saque (Nada De Novo...) e a Hipocrisia Da Indústria Musical

O director do DIAP de Coimbra veio, há semanas, evidenciar o aumento da corrupção no seio do Estado. Nada que não se adivinhasse. Das meras multas de tráfego perdoadas a pequenas empresas ao tráfico de influências entre grandes empresários e partidos políticos, tudo tende a aumentar. Mas, questiona-se, será que alguém neste país ainda não dispunha de indícios suficientes capazes de testemunhar o facto de há muito Portugal se encontrar a saque nas mãos de corruptores e corruptíveis? Não terão constituído Felgueiras, Oeiras, Gondomar ou Lisboa (com o seu caso da Bragaparques que somente não levanta sérias e fundamentadas suspeições a quem não enxerga um elefante a meio metro de distância) fumo suficiente para alertar para o fogo de corrupção que com elevados graus de complacência se instalou de Norte a Sul? Haverá, por exemplo, autarquia da nação capaz de atirar a primeira pedra no respeitante a declarar-se despida de flagrantes casos de corrupção, desde a forma de favorecimentos a empresas até à contratação de pessoal?
Enfim, abordem-se outros temas. Como, por exemplo, o combate à pirataria digital, agora tão na mó de cima, envolto na hipocrisia de ser alimentado por uma indústria que se arroga ao direito de elevar o produto cultural a bem de luxo ao não prescindir de gigantescas margens de lucro.
A hipocrisia deste combate travado contra quem efectua downloads ou cópias de suportes digitais assume proporções inexplicáveis quando se sabe serem, não poucas vezes, as mesmas entidades que editam música aquelas que vendem os instrumentos que facilitam a pirataria. A título meramente exemplificativo, a Sony edita inúmeros músicos de projecção internacional; contudo, quando a mesma Sony vende ao comum consumidor gravadores de CD ou DVD, o que espera que quem os adquire faça com os mesmos? Mal comparado com a polémica vinda a público concernente ao tráfico de armamento ilegal dentro da própria PSP, poder-se-á afirmar que em inúmeros casos são as mesmas grandes empresas vendedoras do armamento (os gravadores de suportes digitais) quem posteriormente pretende a condenação e punição de quem dele faz uso. Onde reside a coerência?
A própria moda dos discos compactos com controlador anti-cópia, a cada dia mais usuais, não deixa igualmente de se revelar, mais que incoerente, passível de ser interpretada enquanto logro, já que o próprio Director-Geral da Associação Fonográfica Portuguesa, Eduardo Simões, reconheceu em declarações produzidas online no Portugal Diário que a compra de um disco pode não conferir qualquer outro direito, mas no mínimo conferirá sempre o «da escuta e cópia privada do mesmo». Assim, não só deveria o Director-Geral da AFP explicar como pode o consumidor efectuar uma cópia privada de discos compactos com sistema anti-cópia, como seria interessante o consumidor ter maior poder e astúcia ao ponto de boicotar tais produtos, na medida em que não deveria aceitar que quem lhe vende gravadores de registos digitais lhe dificulte a utilização dos mesmos e a exploração de todas as suas potencialidades, desde que tal suceda no estrito âmbito da execução de cópias para uso privado. Não?...



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