quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O Rendimento Social De Inserção Dos Privilegiados e Despudorados

Ter-se-á de desculpar a reincidência no assunto, mas existem matérias tão indignantes que se tornaria impraticável abordá-las de soslaio e dá-las por arrumadas. E a estafada história que reza necessitar o país de incessantes sacrifícios de molde a tornar exequível a recuperação económica há muito enoja quem está cansado de a ouvir proferida por quem, a exemplo dos governantes e políticos desta nobre pátria, os não reclama para si ou bem menos se obriga a, quanto mais não fosse por questões do foro ético e moral, fazê-los.
Ainda há pouco tempo aqui se falou disso, mas ter-se-á de tornar a bater na mesmíssima tecla. Tem o leitor conhecimento daqueles não poucos milhares de desempregados que grassam por este país e que mal conseguem vislumbrar o seu subsídio de desemprego? Ora, os deputados e governantes desta nação também ao mesmo têm direito quando largam funções, sendo certo que, nestes casos, para lá de o nome adquirir maior pompa (denominando-se tal auxílio económico de «subsídio de reintegração»), também o montante difere daquele ofertado à generalidade dos desempregados deste país. Mas só tenuemente...
Os deputados da nação auferem qualquer coisa como três mil e quinhentos euros mensais (coisa pouca quando comparado com o salário médio nacional!). Ora, no ano transacto nada menos que cerca de oito dezenas das citadas ilustres personalidades que se sentavam no hemiciclo ou desempenhavam funções governativas solicitaram o frisado «subsídio de reintegração». Atentem-se nos exemplos de tirar o chapéu dos seguintes ex-governantes: Ana Benavente poderá receber cerca de 50 mil euros por 16 semestres de serviço ao país; Morais Sarmento cerca de 21 mil euros; Paulo Pedroso mais de 45 mil euros.
Para além do facto de os casos apontados somente representarem a ponta do icebergue, sabe-se que um terço dos deputados que se sentam no Parlamento acumula tal responsabilidade com actividades paralelas, como a advocacia ou funções empresariais e de docência. E mais: ao comum desempregado é-lhe retirado o fundo de desemprego mal encontre novo posto de trabalho, ao passo que com os políticos (naturalmente mais carenciados) outra história vinga, uma vez que (e aqui solicita-se ao leitor que se recorde dos nomes e respectivos valores de subsídio, atribuído ou a atribuir, frisados no término do parágrafo anterior) Ana Benavente exerce actualmente funções na Universidade de Lisboa, David Justino na Universidade Nova de Lisboa, Sarmento retomou actividade num escritório de advogados e Paulo Pedroso regressou ao ISCTE.
À parte tudo quanto já se sublinhou, é de salientar que personalidades como Morais Sarmento ou David Justino (outro ex-governante cujas dificuldades económicas serão amortecidas pelo milagroso e obeso subsídio) defendem ainda dever os políticos auferir mais. É caso para afirmar que neste país só não grassaria a imoralidade na eventualidade de a mesma pagar imposto. Quer dizer, bem vistas as coisas, até continuaria a grassar, já que a evasão e fraude fiscais são o que mais é promovido junto de quem detém posição política ou empresarial de privilégio. Porque quem pode, pode (e em São bento há quem mais possa)...



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