sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A Óbvia Constatação De Que a Imoralidade Na Política Tem Calos

Ainda assombra o pensamento de quem aqui escreve o facto de os políticos deste país abandonarem funções com direito a um denominado subsídio de reintegração que facilmente atinge milhares de euros por parca soma de meses pretensamente gasta ao serviço da nação. Tudo isto sabendo-se que na esmagadora maioria das vezes os mesmos políticos tão pouco atravessam qualquer período de reintegração profissional, dado não se absterem de complementar a actividade política com actividade profissional paralela, ou, mesmo tal não sucedendo, num pestanejar de olhos (e sem a dificuldade atravessada por qualquer comum desempregado) encontrarem cargo ou função fora da política mal os dias nesta cessem, dado constituir Portugal o maior dos antros onde os favorecimentos pessoais ditam leis.
Em tudo quanto se disse e sobre por dizer competirá procurar saber onde entra a ética e a moral na hora de se pretender encetar o combate à fraude na obtenção de subsídios de desemprego. Talvez no mesmo pote onde mora a ética de quem há poucos meses abandonou actividade governativa ou parlamentar (nem valerá a pena aflorar a realidade autárquica, onde a imoralidade adquire dimensões diluvianas) com milhares de contos no bolso a pretexto de um caridoso auxílio no regresso ao espectro profissional privado, mal grado quem trouxe os ditos milhares de contos já andar por aí a exercer docência ou funções de direcção – julgar-se-á que a troco de adequada remuneração e não sob motivos altruístas – nas mais reputadas universidades da nação.
Ora, sabendo quem aqui escreve, tanto quanto quem aqui não escreve, que lá por São Bento (e, mais especificamente, pelos Passos Perdidos da Assembleia) tem sido usual a montagem de exposições versando as mais distintas temáticas de relevante interesse pela abordagem política, histórica ou meramente cultural das mesmas, e sabendo quem aqui escreve que tais eventos expositivos têm como espectadores privilegiados os deputados e frequentadores assíduos do hemiciclo, seria de todo oportuno (ou bem mais conveniente) deixar-se uma sugestão de futuro evento a inaugurar no mesmo espaço e, sendo esse o intuito, tendo por alvo os mesmos espectadores. E qual seria? Bom, por estas semanas tem estado patente num centro comercial da capital que faz do branco angélico dos mármores a sua imagem de marca (situado ali onde termina a Avenida da República e principia a Fontes Pereira de Melo) uma exposição onde o transeunte é convidado a conhecer a primeira das ilustrações da “Zoopolítica”, publicada n’ A Paródia a partir de 1900. Esta primeira ilustração recebeu, à época, o nome de “A Porca da Política”, sendo seu autor Rafael Bordalo Pinheiro.
Porque todos os comentários à política que grassa nos dias de hoje depressa se esgotam em si mesmos e resvalam no esquecimento, é interessante verificar como há cerca de uma centúria atrás Bordalo Pinheiro conseguiu sintetizar em não muitos traços aquilo a que, afinal, também na actualidade se resume a experiência política e, mais que ela, a prestação dos seus intervenientes. A provar que intemporalidade e imoralidade há muito rimam no papel e fora dele.



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