sexta-feira, dezembro 23, 2005

Valha a Emigração Para a Europa, Facilitada Pelas Fronteiras Abertas

Noticiou o Correio da Manhã, um dia destes, que um certo ex-vereador da Câmara Municipal de Tábua terá já sido condenado por ter andado a acumular o ordenado de autarca com subsídios de baixa médica da Segurança social, acto que se prolongou por treze longos anos. Simultaneamente, o mesmo ex-vereador, que era colaborador da Comissão Nacional Especializada de Fogos Florestais, também respondeu pelo crime de peculato, porquanto terá ficado com três telemóveis que seriam destinados a pastores e guarda-florestais, mas que entendeu por bem distribuir por outras pessoas porventura mais necessitadas de tal meio de comunicação dos tempos modernos, ou seja, a sua mulher e a sua filha. Por mais que se pretenda tapar o Sol com a peneira, o exemplo deste ex-vereador está longe de constituir excepção num país cujo espectro político é o retrato ampliado de uma sociedade que se habituou a viver da corrupção, dos compadrios, dos tráficos de influências e negócios paralelos. E quem finja o oposto só pode situar-se num dos seguintes cenários: ou não quer ver, porque beneficia do sistema instituído; ou não o pretende reconhecer, por semelhantes motivos; ou é político, e das razões estamos conversados.
Cavaco Silva não detém o dom da oratória, e isso viu-se no primeiro debate em que foi confrontado com um oponente incapaz de se quedar pelos meros cumprimentos de circunstância. Na verdade, no recente frente-a-frente com Francisco Louçã, Cavaco ter-se-à descaído quando questionado sobre a sua posição caso, se vier a ocupar a cadeira da presidência no Palácio de Belém, for confrontado com uma medida vinda da Assembleia da República ou do Governo tendente a viabilizar a liberalização dos despedimentos. Pois bem, ficou a saber-se que Cavaco não se oporá, antes se limitando a remeter tal medida para o Tribunal Constitucional com o intuito de comprovar se respeita a Constituição da República Portuguesa. Não surpreende...
No campo da saúde, o Governo pretende encerrar urgências em locais onde as mesmas não contem mais de uma dezena de pacientes por noite. Ou seja, quem reside fora dos aglomerados urbanos fica a saber que a diferença entre receber cuidados médicos urgentes ou ganhar uma passagem para o cemitério depende do facto de a seu lado existirem mais nove pacientes em estado igual ou pior ao seu. É notável como esta nação parece apostada em regredir a tempos profundos do século XX, como se a revolução em nada tivesse servido para possibilitar ao povo o usufruto de um país mais desenvolvido. Um outro sinal preocupante e elucidativo da perda de direitos sociais do povo é ainda visível no objectivo do Governo encerrar três hospitais públicos em Lisboa, coincidentemente quando um grandioso hospital particular já esteve mais longe de ser inaugurado lá para os lados de Benfica e do Colombo. Já não bastava o acesso à educação, também o acesso à saúde está cada vez mais elitizado. E, para os mais distraídos, por estranho que pareça é um executivo de maioria de Esquerda que por estes dias mais ordena em São Bento.

Os Confrontos Étnicos De França e a Igreja Desfasada No Tempo

Amenizados em França os confrontos étnicos que assolaram os subúrbios das principais cidades, aborde-se de soslaio esta matéria. Muito se falou de desemprego e falha de integração das comunidades imigrantes provenientes de antigas colónias francesas africanas. Arrume-se, pois, o assunto com dois breves apontamentos: por um lado, às comunidades imigrantes, sendo legítima a manifestação da indignação que acumulou ao longo dos anos mercê da discriminação social, o modo escolhido para a demonstrar não poderia ser mais errado, porquanto somente descredibiliza e marginaliza ainda mais a luta que pretende travar pela igualdade social, de igual modo fazendo vingar a imagem já tão enraizada da associação entre as ditas comunidades e as franjas da sociedade compostas por desordeiros e meliantes; em segundo lugar, e conforme aqui abordado há tempos, os confrontos de Paris, Toulouse, Estrasburgo e outras cidades francesas unicamente vêm reacender a premência de a Europa se comprometer a integrar social e economicamente as comunidades imigrantes que nela adquiriram o direito de residir, mas isto em simultâneo com o eficiente incremento do controlo das fronteiras, não devendo este controlo ser encarado como política xenófoba, mas simplesmente por não ser legítimo (além de socialmente viável) escancarar as portas a uma imigração que, anseando por melhores condições de vida, acaba despejada nos esgotos das urbes.
Mas vire-se a página. Há semanas Bento XVI veio reiterar a proibição a homossexuais do desempenho de sacerdócio. Não se estranha, até por a História da Humanidade estar cheia de momentos em que foi procurado o pretenso aperfeiçoamento do ser humano (Hitler procurou-o por intermédio da gaseificação da comunidade judaica, sem que à época a mesma Santa Sé tivesse erguido a sua voz). Agora, veio a Igreja admitir o acesso ao sacerdócio a quem tenha abandonado comportamentos homossexuais há mais de três anos. Faltará saber quem (e com que bases científicas) efectuará tal fiscalização, sendo certo que, exigindo-se aos padres o voto do celibato, pouco interesse deveria ter o facto de os mesmos serem heterossexuais ou homossexuais.
Outro assunto tem apoquentado a Igreja: a retirada dos crucifixos das escolas. Reconheça-se que, para um país que se não pode destituir de defender a liberdade religiosa (e, identicamente relevante, o direito à não-religião), esta medida tarda, já que a laicidade do Estado jamais será plena enquanto símbolos maiores de uma qualquer religião, independentemente da sua expressão ou relevância, continuarem a ser impostos nas salas de aula. Ora, a preservação da dita laicidade é fundamental, desde logo enquanto condição indissociável das sociedades modernas, dado o progresso sócio-cultural não se compadecer com intolerantes ideais retrógados que continuam a povoar a Igreja enquanto instituição e que esta se augura ao direito de pretender impor a toda a sociedade e não somente a quem se propõe a seguir as suas directrizes. A laicidade do Estado, insiste-se, se por outros motivos não fosse importante, é tanto ou mais desejável porquanto se sabe estar a História da Humanidade pejada de exemplos assaz reveladores dos perigos que derivam da estreita relação entre os poderes político e religioso.

Consta Que Nalguns Lares (Poucos) a Indisposição Ainda Se Faz Sentir

Fale-se novamente de futebóis. O Benfica venceu o Manchester, efeméride de relevo quando se sabe que jamais havia sucedido no velho historial de recontros entre os emblemas. Quem parece não possuir idêntica opinião – no que concerne ao facto de tal feito ser catalogado de histórico – é Pinto da Costa, que veio desvalorizar a proeza baseando-se nessa indesmentível realidade de o clube de Old Trafford estar actualmente a doze pontos do líder da Premier League. Irrefutável...
Acontece que tudo quanto Pinto da Costa não frisou, na explanação da sua visão dos factos, não será de somenos relevância. E o que terá Pinto da Costa omitido voluntariamente? Quiçá o facto de não poder ser considerado desprestigiante, numa liga competitiva como a Premiership, um clube situar-se nos três lugares cimeiros da tabela, mesmo que a doze pontos do líder; ou, já agora, o facto de o Manchester ter terminado o jogo na Luz a jogar com um trio avançado de jogadores tão medíocres quanto Rooney, Nistelrooi e Saha; ou ainda essoutro facto de que o jogo em causa era decisivo para o Benfica tanto quanto o era para o clube inglês que, por esse motivo, a Lisboa não poderá ter vindo passear, ao invés do que o Inter se arrogou ao direito de fazer no Porto. Enfim, todo um rol de pormenores...
Compreender-se-à o propósito de Pinto da Costa minimizar as vitórias de adversários históricos e, no caso, o objectivo de afastar do seu clube os holofotes em tempo de tão confrangedor afastamento europeu. Só que, e seguindo a lógica de raciocínio que o induz a afirmar que o Manchester não é o Chelsea, de igual modo se não poderá esquecer ser a distância que vai do Chelsea ao Manchester actuais anos-luz menor que aquela que vai do Artmédia ao dito clube de George Best. Mais: ao se reconhecer que o Manchester não é o Chelsea, poder-se-à não reconhecer que em nenhum momento o Celtic ou o Mónaco terão chegado a representar uma mera amostra dos mesmos Manchester ou Chelsea?
A quem também não agradou o resultado (e envolvência) do jogo da Luz foi Cristiano Ronaldo. Como consequência, resolveu o nóvel astro dar azo à boa educação que o caracteriza, brindando o público benfiquista com um indecoroso gesto que mais não clarificou que o lugar para onde o seu clube e ele próprio seguiram na sequência da eliminação da Liga dos Campeões. Ainda assim, a atitude de Ronaldo nada demonstra de surpreendente, porquanto em inúmeros momentos anteriores já o mesmo jogador havia revelado os malefícios que tão meteórica ascensão no estrelado do futebol produzem no comportamento de quem não possui maturidade para lidar com as pressões da projecção mediática inerente. Bastará relembrar partidas como um Estónia-Portugal ou um Arsenal-Manchester da época transacta para se verificar como Ronaldo demonstra apetência para mandar calar os adeptos adversários. Na Luz, afirmou o próprio, afectou-o a recepção de que foi alvo. Bom, que gestos teriam de produzir Simão em Alvalade ou Figo quando regressou ao Nou Camp?

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