quarta-feira, novembro 30, 2005

De Volta Ao Circo Das Presidenciais Que Começa a Assentar Arraiais

Portugal parece apostado em eleger um candidato actor. Cavaco encena estar nos antípodas dos partidos e políticos actuais, pretendendo afastar-se da imagem de degradadação que estes ostentam e procurando omitir a realidade que prova ter o país da corrupção e tráficos de influências começado na sua era, quando imenso peixe graúdo da praça lusa adquiriu «cartão laranja» e outro tanto enriqueceu à custa dos subsídios milionários da defunta CEE. Para mais, a então aposta no betão, que substituiu o investimento em políticas de fomento de emprego e qualificação profissional, resultou nas consequências que hoje se repercutem, inclusive, no défice público que à época terá dado os primeiros passos escamoteado entre as grossas maquias de dinheiro provenientes da Europa e à sombra das quais o ex-líder do PSD proclamou para si o papel de guardador-mor do bem-estar sócio-económico.
Cavaco também reinvindicou, em tempos, o direito de o deixarem trabalhar (coincidentemente palavras actualmente corroboradas por milhares de portugueses). Ora, por falar em emprego, ou sua escassez, o candidato da Direita (que encena não o ser) recebeu entretanto o apoio de mais de setecentos sindicalistas (isso mesmo, sindicalistas e não capitalistas). Um facto notável, ou não tivesse este «político não-profissional» alimentado a crispação social e amputado inúmeros direitos dos trabalhadores aquando da sua passagem por São Bento, mais não vindo este inesperado apoio dos dirigentes sindicais do que desacreditar um sindicalismo que já viveu melhores épocas, ou não representassem e defendessem as centrais sindicais cada vez menos os direitos de quem trabalha.
Pois bem, o Cavaco candidato que não discute coisa alguma (quiçá com receio de a época natalícia lhe trazer novo amargo de boca em forma de bolo rei) aproveitou uma das suas derradeiras intervenções para exortar os portugueses a fazerem mais pelo país. Enganou-se no alvo, já que a classe média trabalhadora a quem se dirige na ânsia de amealhar votos sempre se sacrificou e continua a sacrificar pelo país, no que é desacompanhada por quem ocupa lugares de destaque e chefia no espectro político e empresarial. A Cavaco, ao invés de incitar o povo a esforços adicionais, aconselhar-se-ía que abandonasse a teatralizada pose de personalidade apaziguadora e salvaguardadora da estabilidade, papel que assume ao fugir a se recontrar com as autoridades políticas que, ontem como hoje, desrespeitam os sacrifícios de quem sente os seus esforços apunhalados por exemplos de gestão negligente e criminosa dos dinheiros públicos que chega a ultrapassar a afronta com administrações exoneradas da Refer que trocam de lugares com administrações igualmente exoneradas da CP (e vice-versa), ou gestores da Galp, Banco de Portugal e Caixa Geral de Depósitos que auferem salários faustosos em época de recessão, ou políticos que salvaguardam para si e seus portentosas pensões vitalícias, ou ainda a banca necrófaga que exibe despudoradamente lucros estrondosos a expensas de um povo que definha face a um agravamento de impostos que insiste em recaír com incidência cada vez maior sobre a população activa por conta de outrém, mas que, curiosamente, jamais se estende à própria banca endinheirada.

Por Falar Em Futebóis e Gestores, Pretensas Justiças e Presidenciáveis

Precisava este blogue de ser actualizado enésimas vezes de molde a nele pontificarem todas as matérias em Portugal dignas de comentário. Na esfera futebolística, Dias da Cunha, mercê do seu eclipse dos palcos do futebol, perdeu a oportunidade de defender nova tese sobre o sistema das arbitragens assente nas derradeiras performances dos senhores do apito e baseando-se nos golos validados em inequívoca posição irregular que vão sendo moda nesta Liga, ou nesse tal golo da União de Leiria que em Alvalade alguém fez por não ver, ou ainda nesse penalty lá para Barcelos que, bem recentemente, também somente o árbitro entendeu não vislumbrar. Vestirá de vermelho quem está a ser levado ao colo? Se assim fosse, já a Judiciária teria sido chamada e andariam exaltadas as comadres (leia-se, os Dias Ferreiras, Pôncios Monteiros e Guilhermes Aguiares).
Mas abordem-se temas mais importantes. Há dias SIC divulgou as elevadíssimas somas que auferem os gestores públicos em Portugal, por inviolável e sistemática regra nomeados pelas forças partidárias que, também elas, vivem à conta do regime. Começando no governador do Banco de Portugal, passando pelo administrador da TAP ou por quem se senta na administração da Caixa Geral e da Galp, a regra passa por os políticos se governarem bem – seja quando em funções ou, em idêntico grau, no período subsequente – num país onde são solicitados infindáveis sacrifícios à classe média trabalhadora.
Portugal não é, há muito, um Estado de direito, porquanto nele se extinguiram os valores essenciais de um Estado democrático: o acesso justo e equitativo a uma educação, emprego, saúde e justiça plenos e não inquinados. Ora, no respeitante ao derradeiro dos valores citados, soube-se ter sido a fuga de Fátima Felgueiras para o Brasil proporcionada pelo acesso privilegiado ao processo facultado por um magistrado da Procuradoria-Geral da República, que terá fornecido ao marido da autarca reeleita (reeleição demonstrativa da imaturidade da democracia portuguesa) documentos supostamente em segredo de justiça. Esse magistrado representará hoje Portugal num organismo internacional cujo objecto passa, justamente, pelo combate à corrupção. Recompensas...
Avance-se. A luta entre Soares e Cavaco vai aquecendo e, como animal político que preza ser, Soares tenderá a eliminar paulatinamente a colossal distância que o separa do candidato da Direita. Alguma da mesma ter-se-à esfumado quando Cavaco (desprovido do dom da oratória) frisou não ser político profissional. Compreendendo-se o desejo de se demarcar da rez de políticos que habitam o espectro nacional, não deixará de ser exagerado pretender encaixar-se no cesto do amadorismo político alguém que aufere faustosa pensão de ex-Primeiro-Ministro e desenvolveu tais funções (descobriu-se, sem profissionalismo) durante um extenuante decénio. E se tais declarações não bastassem, ter publicamente assegurado não instigar a sua eleição à subversão do sistema (passando a vigorar em Portugal um regime presidencialista) também não terá sido a melhor opção para Cavaco. Porque sentiu premência de o fazer, quando dos candidatos à presidência isso não se espera por o respeito pelo regime instituído ser uma obrigação primária e implícita da qual nem ele nem outro alguém se pode demitir?

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