sexta-feira, outubro 21, 2005

A Morte Do Tabú, Os Lenços Falseados e a Elitização Do Estado

Principie-se com o facto político da semana: a esperada candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República. Será caso para agradecer aos deuses o término de mais um dos tabús que o outrora Primeiro-Ministro social-democrata tanto gosta de alimentar. Aliás, permitindo-se o parêntesis, o facto de um dos mais proeminentes alimentadores de tabús em terras lusitanas ser a mesma personalidade que um dia afirmou nunca se enganar e raramente ter dúvidas é, por si só, assaz curioso. Tão curioso quanto, no mínimo, essoutro facto de se catalogar a candidatura de Mário Soares enquanto perniciosa para a rotatividade de rostos políticos ideal num regime democrático, não se aplicando o mesmo raciocínio à candidatura de Cavaco que, julgava-se, já teria andado por aí em tempos não tão remotos...
Mudando de tema, aflore-se o desporto-rei e o dérbi da passada semana entre Porto e Benfica ou, em específico, as afirmações de duas personalidades que terão hipotecado muito do seu capital de seriedade. Primeiramente, e não contabilizando a recentíssima vitória, Manuel Serrão realçou ao Correio da Manhã nunca ter o Benfica vencido no Porto desde a sua juventude, esquecendo-se que a derradeira vez que tal sucedeu foi há catorze anos e não na era jurássica. Já no respeitante a Co Adriaanse, confrontado com os lenços brancos que se lhe dirigiram, optou inicialmente por contradizer a declaração de que partiria quando os observasse, para posteriormente enveredar por um argumento mais notável: tais lenços terão sido, na verdade, empunhados por adeptos benfiquistas. Ora, as afirmações de Co Adriaanse levam a duas conclusões lógicas, para lá do défice de carácter inerente a quem as profere: não só nunca antes um Porto-Benfica havia sido disputado na cidade invicta com a larga maioria dos espectadores a apoiarem os de vermelho, como (atente-se na mordacidade da atitude) os adeptos da Luz ter-se-ão disfarçado de adeptos portistas com o intuito de passarem por contestatários do treinador do seu próprio clube. E todos nós, não fosse o aviso de Adriaanse, cairíamos no logro...
Mas abordem-se outros futebóis. Ficou a saber (quem não sabia) que Portugal é o país europeu que mais alimenta o fosso entre estratos sociais. Há muito neste blogue se aborda a Sul-americanização do país, pelo que a novidade será nula. A diferença reside no facto de alguém na União Europeia ter oficializado uma notícia por cá abafada, ainda que o povo diariamente se confronte com um acesso à justiça, saúde e educação que faz tempo deixou de constituir um direito fundamental do cidadão para se assumir enquanto privilégio restrito a classes favorecidas. Tomando-se a educação enquanto exemplo (sector de forçoso investimento para um país que procura desenvolver-se), a elitização sobre esta incidente desde a era barrosista (elitização jamais travada pelo regresso socialista ao poder) tem fomentado o abandono universitário por motivos financeiros, já que a farsante disponibilização de bolsas é das mais baixas a nível europeu, continente onde somente Grécia e Eslovénia (extraordinariamente países que mantêm um ensino livre de propinas!) investem na educação menos que Portugal. A sério?!

Não Há Quem Não Assobie Para o Lado No País Do Faz-de-Conta

Para começar, uma nota de tristeza pelo facto de inúmeros blogues de leitura assídua por parte de quem aqui escreve se estarem a entregar ao encerramento de estaminé. Na verdade, o término de algumas das mais proeminentes moradas bloguísticas tem sido tão frequente que a lista de linques exposta neste próprio blogue (Bloganário de Platina e Bloganário Genérico) arrisca-se a ficar mais desactualizada que uma antevisão de resultados eleitorais publicada na Segunda-feira subsequente ao dia do dito escrutínio.
Por falar em eleições, não se fale mais de eleições. Ou seja, esqueçam-se as Autárquicas, que das mesmas já muito se falou e numerosas outras matérias existem na vida política deste Portugal que fedem em idêntico proporção. Matérias como, à laia do acaso, a respeitante ao facto de Guilherme de Oliveira Martins, recentemente indicado pelo Governo para gerir os destinos do Tribunal de Contas (a Galp e a Caixa Geral já estavam, à data, preenchidas), ter visto o seu filho ser nomeado em Julho pelo Secretário de Estado dos Assuntos Fiscais para uma tal comissão onde passou a auferir um vencimento superior a três mil euros e cujas funções não serão menos dúbias daquelas que respeitam a outras tantas comissões que os governos têm por norma fundar com o intuito de responder ao clientelismo que grassa em torno dos partidos.
Este exemplo de topo aqui evocado – um dos poucos que rompem a parede de silêncio e chegam ao conhecimento público – por outros motivos não é citado que não para referir terem tido os jovens desta nação de ouvir há dias o Presidente da República realçar deverem os mesmos participar em maior grau na vida pública do país. Ora, idêntica afirmação leva a concluir encontrar-se Jorge Sampaio em muito desfasado da realidade portuguesa, ou não tivesse tal discurso sido proferido por quem preside a um país onde o tráfico de influências varre toda a administração pública desde os organismos centrais às Juntas de Freguesia, pelo que somente na eventualidade de se dispor de conhecimentos pessoais e familiares no interior dos órgãos centrais e locais da administração pública (ou, em alternativa, na eventualidade de se estar filiado nalgum partido com assento governamental ou autárquico) poderão os ditos jovens desta garbosa nação aspirar a responder ao repto lançado desde o Palácio de Belém. As provas do que aqui se sublinha abundam por aí, tanto que até quem redige estas linhas dispõe de um armário cheio de exemplos passíveis de o confirmar, exemplos esses que teve o prazer de conhecer na primeira pessoa e não por intermédio de contos contados por quem acrescenta pontos.
Não pretendendo violar os direitos autorais, apetece parafrasear Jorge Palma na hora de dizer «ai Portugal, Portugal, do que é que estás à espera?». A questão é a de se saber para quando a revolução de rostos políticos por que o país clama, com o inerente saneamento de toda a máquina de Estado; o problema é o de o povo parecer, eleição após eleição, assim não o pretender. Resta, pois, a emigração...

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