sexta-feira, outubro 14, 2005

Não Se Queixe o Povo Dos Políticos, Que é o Povo Quem Lhes Dá Colo

Lá passaram as Autárquicas, com o habitual rol de assalto aos lugares que, tanto nas câmaras quanto nas assembleias de freguesia, servirão de posto seguro para muito boa gente nos próximos anos. Mas se o povo assim quis e tornou a deixar acontecer, com que objectivo se continuará aqui a criticar quem utiliza lugares públicos como forma de enriquecimento próprio e de quem lhe é mais próximo? Razão tem um tal de Sr. Zé que manifestou a sua justa indignação ao escrever num blogue denominado de “Tasca da Estação” que o povo faz por desmerecer o regime democrático que tem, uma vez que – e isto acrescentamos nós – insiste em fazer uso negligente e danoso da valiosa arma do voto que deveria servir para retirar o tapete debaixo dos pés a quem dormita e faz fortuna à conta do erário público. Deveria servir, mas há muito que não serve.
Num acto popular que, para lá de tudo o mais, também traduzirá a noção de ética e moral que mora por tais concelhos, o povo de Felgueiras, Gondomar e Oeiras (município este cuja edilidade, cumprindo a regra ao invés da excepção, tem albergado um honestíssimo vereador de seu nome Emanuel Martins que, coisa pouca, se terá esquecido de entregar a sua declaração de rendimentos referente aos últimos doze anos!) não hesitou em sufragar a vigarice, a corrupção, o tráfico de influências, a evasão e fraude fiscais e a fuga à justiça como forma de se actuar na política e, por inerência, de se estar na sociedade.
Noutro âmbito, ainda assim bem menos gravoso, a capital do país elegeu, não quem melhores propostas apresentou à cidade, mas quem menos mal lhe inflingirá. A alternativa era mesmo esta. Na verdade, Carrilho sempre revelou ao que vinha, isto é, apostado no mero aproveitamento da notoriedade política que a Câmara alfacinha confere, podendo por essa via lançar-se a vôos mais altos num médio prazo (uma estratégia que Sampaio, com maior sucesso, também experimentou e que Santana se preparava para ensaiar). Não o conseguiu, não só porque o povo lisboeta não se deixou enganar pela propaganda política demagógica de quem se passou a preocupar com a cidade do dia para a noite, como também o mesmo povo lisboeta não se deixou iludir por quem tinha mais família para apresentar do que ideias válidas, impondo diariamente nos ecrãs televisivos a actuação de uma Bárbara e, numa primeira instância, de um Dinis Maria que sempre surgiram tão forçados na campanha eleitoral quanto os filhos de Santana haviam surgido em plenos jardins da residência oficial de São Bento em vésperas das últimas Legislativas. Assim sendo, claro está que o fim não podia ser outro que não o mesmo, tanto para Carrilho quanto para Santana, obrigando a que pelo Largo do Rato se procure descobrir como foi possível ao PS, para lá de anuir com uma estratégia de campanha que antes já provara não vingar em Portugal, não conquistar uma Câmara onde nada de positivo se produziu durante a presidência social-democrata.

terça-feira, outubro 11, 2005

Somente Mais Um Capítulo Da Desonrada Democracia Lusitana

Realizaram-se mais umas eleições reveladoras da degradação do sistema democrático português. Se por um lado os partidos se reaproveitaram das Autárquicas e do poder local como forma de esgrimir forças e contar espingardas (porque somente o poder pelo poder interessa a quem se move nas lides partidárias), por outro lado o caciquismo voltou a ditar leis em inúmeros concelhos de um país onde não será o rei quem vai nú, mas sim a democracia, sem que vivalma erga a voz para o denunciar. Compreender-se-á que assim seja, quando a norma é que todos dela se sirvam, com a agravante de – ao invés do que sucede com as prostitutas – a democracia, na pessoa do poder judicial, tão pouco exigir pagamento.
A extrema partidarização de umas eleições que deveriam eleger quem se predispõe a servir populações levou a que na noite eleitoral a comunicação social se perdesse na contabilização das câmaras conquistadas pelos diferentes partidos, misturando águas como se de um sufrágio legislativo se tratasse e esquecendo que em eleições de índole local os rostos influem nas votações tanto ou mais que as forças partidárias que os secundarizam, fazendo com que uma extrapolação dos resultados para o âmbito nacional possa redundar num desvirtuamento amplamente distante da realidade. Pena que, no oceano de incoerências que inundou os canais televisivos, não sobrasse lucidez, inteligência e vontade (esta última mais que as primeiras) para ler de forma correcta a mensagem subjacente à grandeza da abstenção que na generalidade dos concelhos cilindrou a percentagem de votos obtida por quem foi eleito. Na verdade, havíamo-lo adivinhado Sexta-feira passada, os números do abstencionismo nos maiores centros urbanos são demasiado alarmantes para passar sem leitura, em particular por parte de quem habita em Belém, revelando o descrédito em que caíu o sistema democrático ou, o que vai redundar no mesmo, a sua despudorada classe política. Mas, como sempre, as moscas por cá continuam, até porque a merda não mudou de sítio (quando pior tende a espalhar-se).
Por falar em moscas, ou na outra matéria antes aflorada, o auge da desfaçatez da utilização do poder público para benefício próprio deu-se em Oeiras, Gondomar e Felgueiras, onde o caciquismo assume proporções golianas e o povo (nem o enubriamento servirá de atenuante) entendeu premiar quem sobrevive do roubo, corrupção e fuga à justiça. Como consequência, logo um tal Major e uma tal Fátima (que não Nossa Senhora) confundiram a vitória eleitoral com uma conveniente absolvição popular. Para amenizar tão lamentável espectáculo circense em noite eleitoral, dois factos positivos: Amarante recusou a política trapacenta de Avelino e, na TVI, Sousa Tavares (no seu imparcial portismo) realimentou a comédia em horário nobre ao frisar situarem-se na capital os principais apoiantes de Rui Rio, declaração que deveria servir para alguém explicar a tão reputado comentador que as Autárquicas funcionam por círculo eleitoral concelhio, pelo que só por misteriosa migração os lisboetas poderiam ter reeleito no Porto quem matou o mito da influência papista de Pinto da Costa (confesso apoiante de Assis) sobre as gentes tripeiras.

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