terça-feira, julho 19, 2005

Viagem Pelos Enésimos Recantos e Encantos Deste Ilustre Portugal

Há não mais de quatro semanas, terá vindo a público o ilustre candidato independente à Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, afirmar estar a sua sucessora na presidência da edilidade, Teresa Zambujo, a agir de má fé ao fornecer à Polícia Judiciária documentos passíveis de o incriminar em todo o processo de duvidoso enriquecimento que há muito o vem perseguindo. Ora, tal reacção por parte de Isaltino mais não merecerá que suscitar dois breves e ténues comentários: em primeiro lugar, deveria a actual Presidente da Câmara de Oeiras actuar de modo a obstruir a investigação de que Isaltino é alvo? E, por outro lado, se o próprio afirma de forma tão convicta a sua inocência, não deveria congratular-se por a cedência de eventuais documentos de modo mais célere poder contribuir para comprovar a dita cuja? Por sorte de uns e menos sorte de outros, eis que tudo isto se passa num país onde só por distracção se poderá conjugar o substantivo «justiça» com o predicado «funcionar».
Enquanto isso, o país vai ardendo de lés a lés. Não será novela que já não tenha sido vista em anteriores reposições, estranhando-se – isso sim – o modo complacente como mediante a catástrofe que tem assolado as florestas portuguesas ainda não se conheceu nenhum comentário por parte de quem tutela a pasta do ambiente (a propósito, alguém sabe quem chefia tal ministério?). Ano após ano as medidas escasseiam e o planeamento e vigilância florestais são pouco mais que nenhuns, só assim se explicando como alguns incêndios adquirem tamanha dimensão em áreas de paisagem pretensamente protegida. O terrorismo, para quem julga ser obra exclusiva de gente árabe que recorre a bombas colocadas em mochilas, também passa por incêndios cujos motivos somente a ingenuidade ou a cegueira compulsiva podem continuar a atribuir ao mero calor ou descuido humano. Nesse sentido, e porque é o mediatismo o primeiro resultado que os actos terroristas procuram, talvez não fosse de todo descabido os órgãos de comunicação optarem por conceder menor ênfase à divulgação exaustiva de imagens referentes a semelhantes desastres ambientais, sem que tal implicasse o varrer da realidade para debaixo do tapete e a não procura, de uma vez por todas, da resolução séria de tal problemática que todos os anos envergonha o país e depreda o seu património natural.
A propósito, parece que o arrastão de Carcavelos afinal não foi arrastão. Na verdade, não terão sido quinhentos delinquentes de tez negra a cometer os assaltos, tão pouco cinquenta, já que nem sequer as praias e comboios da Linha costumam ser frequentados por tais meliantes. A conclusão óbvia é a de que terá sido tudo ilusão óptica resultante de imagens captadas com a objectiva no perfeito enfiamento do Sol que se debruçava bem para lá do Bugio. Posto isto, consta que os desacatos terão sido perpretados, afinal, por um inexpressivo grupo de octagenários hemofílicos que a Carcavelos se teriam deslocado em romaria no âmbito de uma viagem inserida nas campanhas de turismo sénior promovidas pelo Inatel. Seria de desconfiar...

Digníssimas Demonstrações De Solidariedade, Ética e Cultura Geral

Não existe sentimento mais prezado por quem aqui escreve que o da solidariedade dos fortes para com os fracos. Como tal, e dada a notabilidade e nobreza do acto, não poderia passar sem menção nesta morada o modo como o governador do Banco de Portugal, no sentido de ser ultrapassada a crise económica nacional, tem solicitado inúmeros e repetidos esforços à maioria da população portuguesa que aufere ordenados de miséria. E mais notável e nobre se revela a solicitação do dito governador quando se sabe rondar o seu próprio ordenado a insignificante soma de cinco mil euros mensais, com outros míseros pós referentes a despesas de custo, mais o BMW referente à frota do Banco de Portugal renovada no último ano e meio de crise. Face a números tão escassos, sobra a Vitor Constâncio a esperança de que – a exemplo do que sucede com Campos e Cunha – a pensão de miséria a que terá direito após parcos anos na chefia do Banco de Portugal lhe permita colmatar necessidades primárias do dia a dia.
Por evocar a ética e a moral, que de coisa diferente atrás se não falou, continua a surpreender a forma como a classe política persiste em aumentar o défice de, justamente, ética que faz questão de ostentar. Não bastando os privilégios económicos com que a mesma se presenteia, soube-se agora que também o cometimento de grosseiras infracções ao código da estrada tem sido sistematicamente perdoado pelas polícias a conhecidos políticos da honrosa democracia lusitana. Moral da história: quando todos se servem ao invés de servir, não causará estupefacção a situação em que o país caíu, particularmente quando se sabe que o ar que a administração pública respira (seja ela de âmbito local, regional ou nacional) está mais que impregnado de modelos de corrupção generalizada, esquemas de compadrios e escandalosos favorecimentos pessoais, crimes de peculato e apropriação ilícita de capitais públicos, exemplos de abusos de confiança e de aproveitamento de cargos de poder para benefício próprio.
Adiante. No rescaldo dos exames do ensino secundário, que já lá vão, e simultânea greve dos professores, que também já lá vai, a Ministra da Educação comentou a providência cautelar interposta por um órgão judicial dos Açores no respeitante à requisição de serviços mínimos pelo dito Ministério em dias de realização de exames. Entendeu a ministra frisar não respeitar à República Portuguesa a decisão de tal órgão judicial açoreano, como se os Açores fossem território espanhol ou gronelandês. O imbróglio adquiriria menor gravidade caso, como a dita ministra tentou rectificar, tudo não tivesse passado de um lapso, ainda assim lamentável. Contudo, a polémica afirmação foi feita convicta e conscientemente, numa inesperada lição de défice de conhecimentos dada por quem detém a pasta da educação. Num discurso que um fervoroso adepto separatista não teria conseguido melhorar, ao menos que se optasse por separar o continente da Madeira, onde – a expensas de quem por cá vai sendo forçado a apertar o cinto – Jardim fez a dívida pública duplicar em dois anos de pretensa contenção.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?