terça-feira, junho 14, 2005

Da Degradação Política Aos Mais Recentes Incentivos à Emigração (III)

Nos derradeiros artigos aqui publicados tem sido por demais aflorada a questão dos vencimentos, privilégios e reformas dos políticos principescamente pagos num país onde o povo vai social e economicamente agonizando. A este propósito será elucidativo o estudo do Eurostat que confirma a estagnação de Portugal na última década. Ou seja, todo um decénio jogado ao lixo, no qual o país não só não progrediu ao nível económico, como regrediu em matéria social, situando-se os portugueses nos últimos postos da União Europeia no respeitante ao nível de vida ostentado, tendo mesmo dois dos países recém-entrados melhor saúde económica. Face a este dado, que políticos assumem a responsabilidade pelo declínio do país nos últimos dez anos? Porventura nenhum, já que os mesmos se encontram ocupados em investir as chorudas reformas vitalícias com que, no final da sua inolvidável performance, foram premiados.
De facto, por estes dias os políticos da nação (começando desde logo por quem se senta na bancada parlamentar que suporta o partido do poder que exigiu sacrifícios adicionais a um povo mendigante) estão mais preocupados em assegurar os seus redondos proventos decorrentes dos cargos públicos que ocupam ou deixaram de ocupar,. Aliás, lance-se aqui uma outra questão: não será sobejamente curioso o facto de, quando os políticos falam nas suas milionárias reformas obtidas após parcos anos de duvidosa dedicação a cargos públicos, se referirem às mesmas enquanto direito adquirido, não aplicando esse mesmo direito quando a matéria versa a alteração da idade de aposentação do comum trabalhador que dedica toda uma vida à sua profissão e à prossecução de expectativas que agora saiem goradas? De facto, os interesses financeiros de quem faz carreira política neste país sempre se hão-de sobrepôr à sua sensatez ou congruência intelectual. Como se há-de, então, combater este flagelo de que enfermam os nossos políticos? Bom, não sendo fácil, as ruas estão aí para quem as saiba ocupar e, à parte isso, vêem aí as Autárquicas (já anda meio mundo em busca de poleiro). Por uma vez, faça-se bom uso da arma do voto, candidatando-se as cicciolinas. Por outras palavras, se o circo há muito está montado, então que se renovem os palhaços e que o povo participe do espectáculo. Para mais, nem o Presidente da República (que, como António Vitorino e Cavaco, também acumula subsídio ou reforma com o ordenado das funções políticas que exerce) se há-de indignar com mais um entre tantos sinais da degradação da democracia lusitana, pois se até João Jardim apelida a imprensa de filha da puta e Sampaio se remete ao silêncio...
Por falar em degradação da democracia e da política, pandemia que alastra por todos os cantos de Portugal, já alguém visionou o vídeo de candidatura de Carrilho à Câmara alfacinha? Há meses Santana encenou um passeio com os filhos em São Bento; agora, o teatro de quinta categoria ressurge com Carrilho, sua esposa e rebento. Pretenderiam os lisboetas conhecer o projecto do candidato socialista para a capital? Não, interessará mais ouvir o seu filho soletrar papá, papá.

Da Degradação Política Aos Mais Recentes Incentivos à Emigração (II)

Iniciando-se a leitura deste artigo tendo o mesmo enquanto sequência lógica do post anteriormente publicado, insista-se em falar do défice de ética que atinge a classe política nacional, já que o assunto dá azo a inúmera literatura e esta, a ética, é animal em vias de extinção por tais paragens.
O nóvel Governo socialista que começou por apertar ainda mais o cinto aos portugueses (ou, melhor dizendo, aos cidadãos que do dito aperto não podem fugir) é o mesmo Governo que do modo mais vilipendioso insiste em assaltar os bolsos do contribuinte. Provas do crime não escasseiam, começando pelo facto de em parcos três meses de governação – e porventura na ânsia de ultrapassar a fasquia estabelecida por Santana nos seus derradeiros tempos de Governo demissionário – o executivo socialista já conseguiu proceder a cerca de novecentas nomeações de seus boys para cargos públicos de relevo, encontrando-se entre os presenteados um tal ex-autarca que agora assumiu a directoria da Galp, auferindo um ordenado superior a 15 mil euros, sem serem contabilizadas despesas de representação e demais ajudas de custo (termo que não deixa de suscitar espanto quando aplicado a quem aufere tamanhas quantias).
Mas há mais. Porque o dinheiro abunda como água no rio Tejo, entendeu por bem o Tribunal Constitucional aproveitar o ano transacto para renovar toda a sua frota automóvel, passando esta a ser constituída, não por uns modestíssimos Peugeot 405, mas sim por topos de gama BMW com séries para todos os gostos. Viva, pois, o aperto económico...
Lá pela pérola do Atlântico, também João Jardim se movimenta numa realidade de desafogo económico nada coadunante com o mísero cenário continental, engordando a sua conta bancária a expensas de quem por aquém-mar labora. Mais um político, mais uma personalidade que não revela pejo em acumular ao seu reconfortante ordenado de Presidente do Governo Regional da Madeira uma reforma vitalícia. Para quando uma lei que force quem ocupa cargos públicos (e, mesmo, privados) a optar por uma das duas situações? O executivo socialista, mesmo contra vozes da sua bancada, já foi obrigado a dar sinais de pretender moralizar o sector. Enquanto tal não sucede, vale a pena ir escutando João Jardim, tomado pelo seu fervor de liberdade democrática e de imprensa que tanto pratica e deixa praticar no seu pomar, apelidar os jornalistas do continente de bastardos e filhos da puta, ipsis verbis.
Porventura extasiado com a forma e conteúdo do discurso jardinesco, optou o Parlamento Regional madeirense por subscrevê-lo, ou não fosse tal assembleia composta por uma maioria absoluta social-democrata formada por deputados que garantem o tacho ao lamber o recto do dono. Cá pelo continente, da Lapa ao Largo do Caldas e do Rato a Belém, fez-se silêncio. É caso para perguntar, permitindo-se o emprego de linguagem condizente com a que grassa lá pelo Atlântico, porque tanto temem os políticos a figura do filho da puta lá da Madeira que esbanja o orçamento de quem por cá vive de cinto apertado? Anda por aí muito notável de rabo preso
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Da Degradação Política Aos Mais Recentes Incentivos à Emigração (I)

O executivo socialista anunciou o aumento de impostos enquanto medida para travar o défice. Uma vez mais é a classe média que se encontra na mira das mais penalizantes decisões de quem governa o país, a mesma classe que mais afectada é pela carga fiscal e a mesma classe que desde sempre pagou os impostos, ao invés das elites da nação que deles fogem com a complacência de quem deveria política e judicialmente combater uma fraude e evasão fiscais cujos valores em muito saldariam o défice público.
Ora, tendo o Governo solicitado ainda mais sacrifícios aos portugueses, o que maior estupefacção causará será o facto de tais sacrifícios não serem, uma vez mais, aplicados a quem melhores condições sociais ostenta. Na verdade, o executivo socialista tão pouco possui a veleidade de praticar intramuros as inúmeras exigências do foro económico com que bombardeia o comum cidadão. A comprová-lo, eis que o Ministro das Finanças Campos e Cunha – precisamente a personalidade do espectro governamental que tem solicitado os maiores sacrifícios aos portugueses – acumula, ao ordenado milionário que aufere enquanto membro do executivo, uma pensão de reforma estimada em oito mil euros mensais (cerca de mil e seiscentos contos) decorrente dos longuíssimos e extenuantes seis anos em que exerceu as funções de Vice-governador do Banco de Portugal.
Tudo isto sucede quando, para agonizar o contracenso, o Governo demonstra profunda preocupação em decretar o fim das reformas antecipadas. Será, sem dúvida, a vitória da velha lógica do fazer como se diz e não como se faz, já que Sócrates se limita a afirmar estar o seu Ministro das Finanças a ser alvo de uma vergonhosa campanha de assassinato de carácter. Não pretenderia o digníssimo Primeiro-Ministro referir-se, antes, a algo parecido com um assassinato do mais elementar sentido de ética diferido por quem compõe o seu Governo?
De facto, não contente com o défice de 6,83% de que o país padece, parece que a maioria recém-eleita pretende, e em muito o vai conseguindo, atingir índices não menos recordistas no que concerne ao défice de moral e ética de que é detentor. Para mais, exemplos como o anterior não se assumem enquanto água no deserto, já que em plena era de crise, com o português comum a apertar o cinto até lhe faltar o fôlego, também um outro ministro – desta feita tutelador da pasta das obras públicas – optou por adicionar à sua aprazível reforma um luxuoso ordenado decorrente do cargo ministerial que ocupa.
Quando se julgava que a deterioração da classe política havia atingido o auge, eis que os governantes da nação teimam em surpreender o eleitorado. Somente uma classe média sem força e voz pode justificar o despudor que assola o meio político português, sendo hora de se alterarem os dados do jogo viciado que há muito tomou posse do país. Ou seja, retire-se à classe política nacional, de todos os quadrantes, o capital de confiança que esta há muito fez por desmerecer. O que é que mantém o povo amorfo e afastado das ruas?

Lancem-se Os Dados Para Que Suceda a Revolução No Sector Político

Há muito que deixou de ser novidade o facto de Portugal navegar num mar de corrupção onde anda meio mundo a pretender enganar outro meio que com isso lucra ou pouco se importa. Nos sectores políticos mais proeminentes da sociedade portuguesa, o referido mar de corrupção sente-se a rodos. Que o digam o ex-Ministro do Ambiente e o ex-Ministro do Turismo, que nestas andanças não caminharão isolados.
Quando se desce à política local, ao invés de esmorecer, o escândalo atinge proporções inimagináveis, com presidentes de câmaras da era tiranossáurica a regerem concelhos como quem rege o quintal da sua casa e a utilizarem fundos e meios públicos em benefício próprio, com complacências e conivências dadas por adquiridas. Tal como na melhor da lojas de conveniência, há de tudo para todos os gostos e necessidades, desde líderes autárquicos que constroem vivendas em zonas de paisagem protegida ou construção interdita, a avelinos que oferecem viagens de helicóptero como forma de angariar votos (os frigoríficos e televisões parecem fazer parte do passado) e – viva a democracia! – presidentes camarários que enviam dinheiro para a conta que os filhos taxistas têm na Suíça ou que, eles próprios, se refugiam no estrangeiro sem que, mesmo fugindo à justiça, cessem de ter como garantido o seu vencimento.
Subindo novamente da política local à central, o executivo socialista pretende fazer passar na Assembleia uma lei que limite os mandatos políticos. Já antes por aqui se beliscou este tema. Sem dúvida uma medida de salutar que terá como único senão o facto de a mesma não se aplicar a, precisamente, quem se senta no Parlamento. Ainda assim, a sua aprovação não deixará de constituir tarefa árdua, ou não esbarrasse a mesma nos inúmeros interesses instalados que à mesma se opõem e que, enquanto tal, começam a vir a público manifestar o seu desagrado. Foi justamente neste derradeiro aspecto que João Jardim, lá desde o seu pomar plantado em pleno Atlântico, se sentiu visado pela proposta de lei socialista, afirmando que não cumprirá tal lei de limitação de mandatos, declaração que – vinda de quem desenvolve funções políticas de semelhante relevância – não deixará de causar estupefacção. Ora, se um detentor de um cargo político da responsabilidade do da presidência da Região Autónoma da Madeira se arroga ao direito de caír no incumprimento das leis do Estado, porque há-de o comum cidadão sujeitar-se ao dever de as cumprir? Lance-se uma sugestão a Jardim (já aqui deixada faz alguns meses): declare, de modo unilateral, a independência da Madeira, na certeza de que os bolsos dos contribuintes portugueses atempadamente lhe agradecerão e, assim, poderá continuar o seu reinado sem se recontrar com leis emanadas cá do continente.
Portugal há muito deixou de ser um Estado de direito, somando-se a uma classe política em degradação contínua um sistema de educação, saúde e judicial inexistentes. Perante este panorama ameaçador da própria credibilidade do poder político e do sistema de democracia participativa em vigor, a renovação da classe política ganha profundo carácter de urgência. Que ela aconteça.

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