quinta-feira, março 17, 2005

Futebol Para Dormir, Nomes Para Santana e Impostos Para Pagar

Dizem e repetem os comentadores e críticos desportivos que o Benfica comanda o campeonato nacional sem realizar exibições dignas de menção e raramente ultrapassando o limiar da mediocridade futebolística. Ciente da veracidade de tais constatações decidiu esta humilde alma começar a assistir a jogos do clube de um tal senhor Pinto da Costa (para os menos informados, o companheiro de uma Catarina que anda por aí a frequentar túneis de acesso a balneários e a elogiar outras orelhas que não as suas). E foi assim que esta pobre alma assistiu ao embate entre o Porto e o Nacional e entre o mesmo Porto e o Inter de Milão. Dados os bocejos e o constante fechar de pálpebras, actos representativos do quão árdua se revelou a tarefa de controlo do entusiasmo suscitado pelas exibições da equipa portista, acabou este espectador por, em nenhuma das ocasiões mencionadas, conseguir visionar os referidos jogos até ao seu término, tendo, por tal motivo, sobrado a certeza de que os comentadores desportivos têm sempre razão, excepto quando a não têm.
Do Porto para Lisboa, após questionado sobre se já poderia ser chamado de presidente da edilidade alfacinha, Santana Lopes (regressado à Câmara Municipal da capital) respondeu anteontem aos jornalistas poderem estes chamar-lhe o que quiserem. Pois bem, seria aconselhável o gabinete de Santana vir a público elucidar o facto de, para além de tal convite se circunscrever somente à classe jornalística, não ser admitida (no rol de denominações com que possa ser presenteado o presidente camarário) a inclusão de todo e qualquer vocábulo de declarado teor ofensivo ou meramente desprestigiante para a sua pessoa. É que, a serem admitidos os impropérios e os termos desconsiderativos em tal lista, a mesma corre o risco de entrar para o grande livro dos recordes do Guinness, pela extensão que não deixará de ostentar. Quando muito, e não poderá ser relegado para segundo plano esse propósito, poderia Santana Lopes – dentro de aproximadamente sete meses, quando também tiver ordem de despejo dos Paços do Concelho lisboeta – arrecadar dividendos extraordinários com o lançamento de uma colectânea de vitupérios, a qual, de título quase idêntico ao de um outro livro assinado pelo prémio Nobel da literatura José Saramago, muito oportunamente se intitularia de “Todos Os Nomes (e Mais Alguns)”.
Num outro plano, veio o representante máximo do Banco de Portugal alertar para a necessidade de controlo da despesa pública, sendo desejável encontrarem-se novas formas de a financiar, mormente por intermédio do aumento dos impostos sobre os veículos automóveis e sua circulação (tanto nas cidades quanto nas auto-estradas). Caro Dr. Constâncio, ainda que tais propostas não careçam de validade ou sentido, que tal colocar o enfoque da questão na premência de ser iniciado um efectivo combate à evasão e fraude fiscais, ultrapassando-se cobardias políticas, interesses instalados, privilégios intocáveis e injustiças sociais? É que o senhor não auferirá salário reduzido, não pagará portagens (estas incluir-se-ão, como outros tantos encargos, nas despesas de representação) e usufruirá de viatura de trabalho de alta cilindrada. Outros nem tanto.

quarta-feira, março 16, 2005

Na Política As Carraças Nunca Morrem à Primeira Desparasitação

Desfez-se o tabú. Ou seja, Santana Lopes reassumiu a presidência da Câmara de Lisboa, como há muito se antevia. Ainda assim, por se considerar personalidade relevante (e porque o tempo decorrido desde que os portugueses lhe retiraram a cadeira do poder governativo não terá sido o bastante), concedeu-se ao direito de fazer esperar o maior concelho do país (demograficamente falando) pela sua decisão. Admirador confesso das lides do mediatismo, estaria a ultimar os preparativos do seu triunfal regresso. Ou talvez não...
Santana, ao invés do que meio mundo constatou, afirma ter regressado à edilidade lisboeta, não na passada Segunda-feira, mas no último Sábado. Pelo menos, reconheça-se, não perdeu tempo em ocupar a residência oficial do município. Independentemente disso, certo é que ninguém na autarquia tomou conhecimento de tão sonante regresso, nem mesmo (pasme-se) a oposição camarária e demais funcionários, o que também não deixará de ser espantoso: o ex-edil da Câmara alfacinha retomou as funções de liderança da mesma sem informar quem nela labora. No fundo, será como ter-se um chefe que não se sabe quem é ou deixou de ser. Somente mais um dos enésimos episódios a que Santana habituou os portugueses que, por esse motivo, fizeram questão de o despachar de S. Bento em correio azul.
Considerações à parte, o novo espectáculo deplorável que por estes dias tem sido dado a presenciar vem evidenciar o óbvio, isto é, o modo como a classe política nacional se tem putrificado a velocidade vertiginosa, fazendo um uso de cargos públicos que mais não jogará que a favor da descredibilização do Estado democrático e perda da réstea de confiança depositada no mesmo. Santana saíu da Câmara alfacinha para ocupar, por decreto barrosista, o lugar de Primeiro-Ministro; despedido de tais funções com margem categórica e indubitável (o que definirá uma e a mesma coisa), pôs e dispôs da faculdade de decidir quando e como regressar à dita Câmara alfacinha.
O regresso de Santana Lopes a Lisboa aconteceu por, cite-se o comunicado difundido pela agência Lusa, «direito próprio». Não será questionada a legalidade do acto, mas a ética subjacente ao mesmo (ou falta dela), algo que Santana Lopes não sabe o que é, porquanto também quando assumiu as funções de Primeiro-Ministro da nação não deixou de o fazer dentro de uma legalidade desprovida da mais elementar (e exigível) das éticas. O seu egocentrismo não permite distinguir as diferenças. Deste modo, lá entrou nos Paços do Concelho, ontem, acompanhado por Carmona Rodrigues, fazendo-o, como tão bem sabe, para o retrato. O povo já o avisou do quanto abomina tais encenações, mas burro velho não aprende línguas. Seja como for, valha isso, por pouco tempo aquecerá Santana o lugar na Câmara: com ele chorará o PSD (já o estará a fazer por esta altura) a perda do município mais importante do país e, mesmo que assim não acontecesse, de igual modo o provável novo líder dos sociais-democratas, Marques Mendes, retirará qualquer apoio a uma recandidatura de Santana a Lisboa. O povo lisboeta reconhecerá a gentileza. Safa!

terça-feira, março 15, 2005

Que Futuro Para as Degradações Da Moda (a Portista e a Social)?

O que é Nacional é bom. Couceiro afirmou, na semana transacta, somente depender de si para vencer o campeonato a equipa portista. Mais depressa o dissesse e com maior velocidade perderia a razão. Quatro estucadas na baliza dos azuis e brancos, vindas directamente da Madeira e com direito a alguns passos de bailinho. Consta que no final da partida a companheira de Pinto da Costa não terá marcado presença no percurso que dista entre os balneários e o autocarro da equipa visitante para se despedir dos jogadores e dirigentes do Nacional. As sessões de despedida, afinal, são só para quem detém importância suficiente para as merecer.
Regressando ao inolvidável espectro político lusitano, eis que foi empossado o novo Governo socialista saído das últimas Legislativas. Esperam os portugueses que os tempos futuros tragam uma esperança de desafogo económico e social, na certeza de que (com a quebra do poder de compra e o desemprego a, ao contrário do Porto, somarem pontos em todas as jornadas da vida diária) situação pior que a actual dificilmente será suportada por uma classe média e média/baixa a quem somente resta hipotecar a tanga que Barroso há três anos lhe deu de presente.
Entretanto lá começou quem conduz um Renault Clio ou um Fiat Punto a pagar para que quem se faz passear numa Galaxy ou numa Sharan pague menos nas auto-estradas portuguesas. Como são justas as obrigações de vida em sociedade em vigência no território português: a classe média/baixa embruída do dever de ajudar a suportar os maiores ou menores luxos da classe média/alta. Nada de estranhar, já que sempre assim foi, começando desde logo pelas obrigações fiscais. Porque haveria agora de ser adoptada diferente política? A coerência é uma qualidade que fica sempre bem, principalmente quando aos ricos e novos ricos convém.
Governo empossado, Governo responsabilizado. A questão que doravante se levantará é a de se pretender saber das reais capacidades e vontade do executivo socialista para colocar um entrave a uma latinamericanização de Portugal que tem encontrado terreno para progredir nos derradeiros anos. A não ser interrompido o rumo da mesma, a breve trecho a degradação do nível de vida condenará o país a tornar-se num Brasil em plena velha Europa, com a criminalidade a aumentar ao ritmo da decadência social. Não sei o que outros pensarão, mas fosse esta humilde personagem que aqui escreve farta em posses e não se importaria de prescindir de parte das mesmas, assim tivesse por garantia circular num país de maior equilíbrio social e, por inerência, segurança. Mas quem tem dinheiro nunca pensa assim, não é verdade? Para as fifis e bibás mais os tétés e as cácás será sempre mais sedutor frequentar discotecas de acesso restrito e entricheirarem-se em sumptuosos condomínios ou vivendas guardadas pela Securitas, mais o circuito interno de câmeras de vigilância e as cercas de dois metros de altura. É esta sociedade de desigualdades de Direitos e de oportunidades que a Direita entendeu semear nas últimas legislaturas. Com a Esquerda, prosseguirá a sementeira?

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