sexta-feira, março 11, 2005

O Eclipse Do Ministério Do Turismo e, Ainda, a Igreja Intolerante

No Algarve critica-se a ausência de um Ministério do Turismo no novo Governo dos socialistas. De facto, a indústria turística, pelo peso estratégico que já detém e (em maior grau) tenderá a possuir no plano sócio-económico nacional, há muito que necessita de mais que uma Secretaria de Estado. Todavia, o que o Turismo menos precisará é de um ministério nos moldes em que Santana e companhia o haviam feito, isto é, somente como forma de serem encontrados mais alguns lugares onde despejar personalidades das cores partidárias do então Governo de Coligação (no caso, tratava-se de Telmo Correia do CDS-PP). A assim ser, bem se dispensará a criação de novos poleiros numa era de crise.
Mudando de assunto, perdoe-se o reavivar do tema (sobretudo por a repetida abordagem lhe conceder uma atenção desmerecida), mas o anúncio do sacerdote franciscano Nuno Serras Pereira – negando a comunhão eucarística a quem faça uso de métodos contraceptivos, recorra à fecundação extra-corpórea ou, por exemplo, defenda a legalização do aborto – não passa indiferente a ninguém. Quem aqui escreve perdeu, outro dia, tempo a relê-lo. Reconheça-se a genialidade inerente ao mesmo, mal grado ser pelos piores motivos. Não admira que alguns sectores da Igreja Católica se já tenham demarcado de tal anúncio, pois por mais que demonstrem ser ortodoxos os princípios por que esta pretende reger a sociedade, não poderia a mesma alinhar pelos desfasados lemas de vida e ética que Serras Pereira adoptou como seus e a outros deseja impôr, recusando-se a abrir as portas da casa de Deus (quem redigiu estas linhas tem a sua casa e, portanto, não se preocupará em demasia) a todo e qualquer cidadão crente que, incorrendo nos tenebrosos pecados-mor atrás citados, se abstenha de mostrar arrependimento e corresponder ao convite de retractação pública (condição primordial) lançado em nome do Nosso Senhor.
Chegados a este ponto de fundamentalismo católico incomportável numa sociedade que se quer moderna e livre, tanto quanto perante matéria de desrespeito pela liberdade alheia, estar-se-á diante de um evidente caso de menosprezo pela inteligência individual do cidadão. Aos seres de memória enfraquecida pelo irracional fervor religioso convirá relembrar que Portugal (valha isso) ainda é uma democracia, o que equivale por dizer que somente em Estados teocráticos poderia ser legítima a subjugação das leis e das liberdades e livre pensamento de cada um a essas outras leis e mandamentos que a Igreja faz passar como sendo de Deus. Porque se mantêm amorfos e reduzidos ao silêncio os órgãos e forças políticas deste país perante tamanha ingerência na vida política do mesmo? Não se pederia que actuassem de forma repressiva ou censória (nem será isso que deles se deve esperar), mas tão só que se manifestassem. Ao invés, nem um suspiro se escuta. O motivo é óbvio: a maioria da população é católica e, deste modo, há que evitar a todo o custo o manuseamento de matérias profundamente fracturantes da sociedade. Afinal, não tardará muito para ser iniciado novo ciclo de eleições, com Autárquicas e Presidenciais à distância de meses.

Futebóis, Favas Que Saiem Sempre Aos Mesmos e... o Ministro Freitas

Quando alguém ou alguma instituição realiza um feito notável será justo dar-se-lhe os parabéns; se o feito nada tiver de excepcional, não se entenderá o sentido dos mesmos. Vem isto a propósito, ainda, do jogo entre dragões e águias disputado há pouco mais de uma semana (e já aflorado no post anterior). A claque portista parabenizou os da Luz por terem completado uma década sem ganhar o ceptro nacional. Ora, os encarnados encontram-se a pouco mais de meio caminho de igualar a abstinência de títulos nacionais já registada pelos de Alvalade e pelos do Dragão. Retirem-se, pois, os parabéns ao Benfica, que ainda não fez por os merecer.
Mudando de tenda de circo, fale-se de algo nunca antes abordado: o admirável universo da política portuguesa. O recém-empossado Governo dos socialistas, não metendo o pé, pela poça já passeou as unhas. Quem o fez foi o indigitado Ministro de Estado e das Finanças, Luís Campos e Cunha, cuja primeira intervenção pública (concretizada aos microfones da TSF) serviu para realçar a imperatividade do aumento dos impostos a médio prazo, por forma a ser controlada a despesa pública. Não se pretendendo questionar a competência do novo Ministro das Finanças – repetidamente enaltecida por personalidades dos mais distintos quadrantes – teria sido bem mais sensato ouvir Campos e Cunha sublinhar a necessidade da aposta no combate à fraude e evasão fiscal, ao invés de ser revelada a intenção de sobrecarregar ainda mais uma classe média que continua com a corda na garganta após as últimas legislaturas de governos de Direita e que, por esse facto, não possui fôlego para suportar novas tentativas de enforcamento. Triste sina esta de os governos se sucederem sem que quem trabalha por conta de outrém seja absolvido de pagar crises que uns agravam e outros mais, com a conivência de um Estado impotente para fazer cumprir leis e deveres de cidadania, se podem conceder ao luxo de recusar pagar.
Ainda no respeitante ao novo Governo, eis que nele consta Freitas do Amaral. Não será crível, pese o que se vai dizendo à boca cheia, que o antigo Secretário-Geral das Nações Unidas (e ainda mais antigo líder democrata-cristão) tenha apoiado os socialistas em momento prévio às Legislativas sob condição de ser ofertado com um lugar de Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros no actual executivo. Ainda assim, e porque nem só de coincidências é feito o mundo (muito menos a política), não se ponham as mãos no fogo. Certo, certo é que pelo Largo do Caldas muitas almas assíduas frequentadoras da sede do CDS-PP andavam de estômago revirado sempre que passavam pela assoalhada onde se expõem os retratos de todos os presidentes do partido e (cúmulo dos azares) lá se exibia, impávido e sereno, o semblante de Diogo Freitas do Amaral. A indisposição causada foi tanta que a grande mal se aplicou grande remédio, tendo o retrato de Freitas do amaral sido retirado e enviado (julga-se que com aviso de recepção) para o Largo do Rato. A pedopolítica no seu auge.

quarta-feira, março 09, 2005

Juliana De Assuntos Corriqueiros Próprios De Um País Singular

Já lá vão uns bons dias desde o derby disputado no Dragão entre os encarnados da capital de Portugal e os azuis da capital do Douro Litoral. Pinto da Costa havia referido não ser preciso os do Norte envidarem grandes esforços de molde a levar de vencida os do Sul. Detentor de singular perspicácia, acertou na mouche. Dito e feito, a equipa da cidade gerida por Rui Rio pouco se esforçou. Ressalve-se, ainda assim, esse outro pormenor de duvidosa significância: também não ganhou.
Lá por fora anda Durão Barroso escoltado por uma frota de cinco agentes da PSP, guarda pessoal a que se soma o motorista particular e a que ganhou direito (ele e sua esposa do cherne) após parcos meses de desgraçante governação de Portugal. Admita-se não poder haver orgulho maior para esta pequena nação que o de arcar com a responsabilidade de custear o pagamento da protecção do Presidente da Comissão Europeia. Alguém ouviu falar em crise ou países vestidos de tanga?
Na hora da despedida, o Governo de Santana quis terminar a legislatura no melhor registo, lançando em Diário da República uma nova lei versando a taxação da circulação automóvel em auto-estradas. E assim decretou deverem pagar os veículos monovolumes a tarifa mais baixa praticada nas mesmas, sendo que, para que as concessionárias sejam ressarcidas dos prejuízos decorrentes de tal medida, os veículos da habitual classe 1 vêem agravado o preço de circulação. Ou seja, tudo baralhado e voltado a distribuir, quem possui um Punto passa a pagar mais para que quem possua uma Ford Galaxy pague menos; ou, se se quiser, quem possua uma Ford Galaxy passa a pagar o mesmo que quem não tem posses para conduzir mais que um Uno 45 S ou um Corsa 1300 de 1989 com sapatos recauchutados. Portugal no seu melhor, não se esperando coisa diferente – neste como noutros exemplos a perder de vista – enquanto não existirem nesta aldeia associações de consumidores suficientemente fortes para emperrar os infindos atentados ao bolso do contribuinte perpretados, ora por iniciativa governativa, ora por iniciativa de privados com a conivência ou passividade de quem ocupa as cadeiras do poder político.
Voltando lá fora (que por cá o ar tem vindo a regenerar-se, mas ainda vai estando viciado), foram dados a conhecer os resultados das Legislativas no respeitante ao voto da emigração. Sem estupefacção, neste caso, venceu o PSD de Santana Lopes. A ausência de surpresa resultará desse facto tão simples quanto compreensível de quem desenvolve a sua vida e exerce profissão no estrangeiro (sobretudo em país de nível e qualidade de vida em tudo superiores) estar em menor grau sujeito ao sufoco social e económico que por cá tresanda, tendo do mesmo uma noção em tudo esbatida e amenizada pela distância. No fundo, serão mais ténues as preocupações com a decadência sócio-económica do país quando o dinheiro que se aufere lá fora ainda dá para construir uma sumptuosa vivenda lá para as Beiras ou Trás-os-Montes, com jardim francês e telhado em tons de carvão.

terça-feira, março 08, 2005

Sociedades Livres e Evoluídas Prescindem Bem De Uma Igreja Assim

Há poucos artigos atrás serviu este espaço de veículo de crítica da posição da Igreja Católica contrária à interrupção voluntária da gravidez. Independentemente do sentido da posição manifestada pela Santa Sé (vazia de novidade e condizente com os princípios ortodoxos por que se rege), o que mais se condenou foi e continuará a ser o estabelecimento de um termo de comparação entre a prática abortiva e o holocausto, o que, esquecendo o evidente mau gosto, mais não serve que para categorizar quem levianamente defende argumentos com recurso a metáforas que versam a chacina de milhares de vidas.
Não se contentando, a Igreja Católica veio igualmente criticar as democracias ocidentais. Neste ponto compreender-se-á o procedimento, porquanto o Vaticano jamais se assumiu enquanto Estado democrático, não detendo conhecimento do respeito pela vida e liberdades que nestes em maior grau assistem ao ser humano. No Vaticano – e sem que ninguém se preocupe, em plena Europa do terceiro milénio – essas liberdades pouco menos que existem, as leis são impostas com intransigência, a opinião diferente é abafada e punida, a pluralidade de imprensa ou o direito de escolha dos órgãos de chefia do Estado (pela força do voto livre) são miragens. Tudo é feito por vontade de Deus, o mesmo Deus que sempre deu e dará azo aos maiores genocídios, guerras e atentados da História da Humanidade.
A Igreja pouca legitimidade possui para se apresentar enquanto defensora-mor da vida humana quando ao longo da História, na primeira pessoa, foi quem contra a mesma mais atentou. Pese este facto, prega a tolerância sem a praticar, difunde a ética e a moral quando, ao pretender amputar liberdades, as perde por inteiro. Não por acaso somente as sociedades laicas e despidas de intervenção da Igreja nos seus órgãos de poder e decisão poderão assumir-se como sociedades desenvolvidas ou, não o sendo, a isso aspirar. A Igreja Católica deixou-se enredar nas malhas do tempo. Não evoluiu e, pior, a isso se recusa.
Entre nós, e com o Patriarcado de Lisboa a pronunciar-se em tom baixinho, o sacerdote franciscano Nuno Serras Pereira (que tem celebrado missa em paróquias da capital) fez publicar na imprensa um extenso anúncio cujo pagamento não se sabe se as esmolas dos fiéis terão ajudado a provir. Pretendeu o pároco expressar a sua recusa em dar comunhão eucarística a quem ouse matar vidas humanas, encontrando-se no rol dos actos censuráveis a prática ou defesa da despenalização do aborto, a procriação medicamente assistida e o uso de métodos contraceptivos. A este último propósito, revelar-se-ía oportuna a existência de um governo com coragem suficiente para recriminar a Igreja Católica por obstrução à desejável promoção de políticas de saúde pública tendentes a controlar a propagação de flagelos tão graves quanto o do vírus do VIH. Seja como for, obstruções e intromissões à parte, todas estas acontecências somente evidenciam o óbvio: para a Igreja, o Senhor selecciona quem deixa entrar em casa. Muitos de nós, com redobrada pena, não entrarão; permitam-nos o direito de também seleccionar quem entra na nossa.

segunda-feira, março 07, 2005

O Eterno Défice De Ética Dos Políticos e As Contas Do Tempo Perdido

Comece-se com um esclarecimento. Em artigos anteriores foi enfatizada, de forma nada subliminar, a crescente utilização de cargos públicos para promoção de partidos e personalidades. O caso mais aflorado (longe de constituir excepção) é, sem dúvida, o do hipotético regresso de Santana Lopes à Câmara Municipal de Lisboa. Despedido de Primeiro-Ministro sem para tal ter sido eleito, Santana pondera regressar à cidade alfacinha, poleiro que lhe sobra na tentativa de relançar a carreira política. Esta abusiva ocupação de lugares públicos (com entrada e saída nos momentos convenientes) constitui um dos escândalos da política actual. Mas – e aqui pretende-se chegar – da crítica a Santana, no respeitante à matéria em foco, não poderá ser subentendível a revelação neste blogue de opinião favorável à permanência de Carmona Rodrigues na Câmara de Lisboa, porquanto o mesmo enferma de défice de legitimidade idêntico ao de Santana no tocante à ocupação do cargo em causa, ou não tivesse assumido a liderança da edilidade lisboeta vindo de um governo de memória tão má quanto o que agora finda e no qual, à época, também pontificou Isaltino Morais, outra personalidade que agora pretende regressar ao poleiro camarário de Oeiras. De uma vez por todas, alguém explique a estes senhores que a conjugação do verbo «servir» referente ao desempenho de cargos públicos deve ter como destinatárias da acção as populações, nunca os políticos.
Assunto esclarecido, embora não enterrado, vire-se a página. Se para outra coisa não tivessem servido, as eleições passadas tiveram o mérito de revelar não se coíbir o povo português de cumprir o dever de cidadania quando os valores da democracia que preza e ajudou a construir se encontram ameaçados ou diminuídos na sua plenitude. Só pelo que se refere já teriam sido oportunas as eleições. Mas elas serviram para muito mais, expressando a vontade popular de tirar do poder quem – dele se apropriando – não correspondeu aos interesses e necessidades do país, e este factor (expresso de modo concludente no escrutínio das Legislativas) por si só justificou a posição de Sampaio em dissolver a Assembleia da República.
Fechou-se o estaminé da campanha eleitoral. Luís Delgado (Diário Digital de 20 de Fevereiro) acerta quando afirma que o circo acabou. Só que, contenha-se o elogio, erra em seguida ao dizer ter-se perdido um trimestre em termos económicos com a realização antecipada das Legislativas, tendo alguém de assumir a responsabilidade. Ora, pretendendo Luís Delgado culpabilizar Sampaio por ter dissolvido o Parlamento (acto fundamentado pelos resultados eleitorais), será de notar que tal culpa deverá, ao invés, recair sobre o Governo de Coligação cessante (pela instabilidade, desgovernação e recessão a que sujeitou o país, não deixando alternativa) ou, quando muito, sobre o Presidente da República, mas por motivos distintos do evocado, já que Portugal não perdeu um trimestre em termos sócio-económicos com a realização de eleições antecipadas, antes desperdiçando, isso sim, cerca de um semestre quando Sampaio entendeu por bem indigitar Santana Lopes enquanto Primeiro-Ministro sem sujeição a sufrágio popular (o que numa democracia, podendo ter sustentação legal, carecerá de base ética).

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