sexta-feira, março 04, 2005

Assim Vai a Reconstrução Da Direita Pós-Terramoto Das Legislativas

Anda o CDS-PP (ao invés do PSD) sem que ninguém avance para a liderança do partido por, na realidade, poder ser interpretada a demissão de Portas enquanto mera preparação de uma recandidatura em próximo congresso, a qual facilmente suscitaria fervorosa aclamação. Enquanto isso, pretendem os sociais-democratas denunciar o acordo de coligação com os democratas-cristãos, consumando uma separação que vem engrossar as listas dos divórcios em Portugal. Convém, no entanto, recordar que a derrota laranja não se deveu exclusivamente ao encosto do partido à Direita (deixando o Centro aberto aos socialistas), tendo nela também participado alguém de seu nome Barroso e Santana. O quintal do vizinho está longe de deter o monopólio do lixo.
A propósito de li..., perdão, Santana, nos próximos tempos (não poucos) o melhor que terá a fazer para relançar a sua carreira política é aquilo que menos sabe: remeter-se ao silêncio, contribuindo para a promoção da sua imagem. Só porque disso não sabe ou é avisado se compreende que assim não proceda.
Quem também não se cala – os males multiplicam-se como gremlins – é Luís Filipe Menezes, candidato à liderança do PSD e (simultaneamente) à Câmara de Gaia. Não se afigurará provável nesta encarnação a eleição de Menezes enquanto líder dos sociais-democratas (sendo que tal cenário mais não significaria que a reposição no cinema da Lapa de um filme bastante vezes exibido nos últimos meses). Contudo, o seu exemplo vem evidenciar o crescente aproveitamento de cargos públicos para satisfação de egocêntricos e narcisistas interesses políticos e pessoais. Menezes foi eleito deputado nas últimas Legislativas, mas nem se vai sentar no Parlamento, pois é autarca da Câmara de Gaia; candidata-se à chefia do maior partido da (agora) oposição, mas continua a ser autarca da Câmara de Gaia; caso perca (como se antevê) a eleição para líder do PSD, nunca terá saído da Câmara de Gaia; caso vença a eleição para líder do PSD (como se não antevê), poderá sempre seguir a escola santanista, desistindo da Câmara de Gaia para meditar sobre o regresso quando isso se revelar oportuno.
Valha a Menezes não ter limitado a revelar ser candidato à liderança dos laranjas e, bem assim, à Câmara de Gaia. Na verdade, foi mais longe ao desafiar outros a segui-lo, demonstrando encarar a candidatura deste fulano ou daquele beltrano a eleições autárquicas (bem como o resultado obtido) enquanto simples vitória ou derrota de determinada personalidade. Quando tanto se crítica a classe política de Lisboa (que de lisboeta, de grosso modo, tem o facto de na grande cidade ter fixado residência), sobra a infeliz certeza de a não-sulista, elitista ou liberal classe política portuense (com os seus narcisos e seabras, menezes e loureiros) imitar o que a primeira tem de pior. Perdoando-se a insistência em factores de somenos relevância, termine-se com uma questão: alguém em algum instante ouviu ser evocada a premência de à ocupação de cargos públicos (no caso, de âmbito concelhio) dever encontrar-se subjacente o propósito de serem servidas as comunidades ou populações? Talvez seja ilógico pensar-se deste modo...

quinta-feira, março 03, 2005

E Quando Um Poleiro Se Acaba, Logo Ali Ao Lado Outro Se Levanta

Na semana passada, pela derradeira vez na qualidade de Primeiro-Ministro, viajou Santana a Belém. Como seria de esperar de uma figura proeminentemente mediática, falou à comunicação social e, uma vez mais, esteve no seu melhor registo ao entrar em contradição. O mesmo Santana Lopes que gastou a campanha para as Legislativas em sucessivos ataques à posição do Presidente da República, pelo facto de ter decidido interromper a legislatura do Governo da Direita coligada, terá agora referido ter Sampaio feito uma leitura correcta do contexto político nacional no momento em que se decidiu pela dissolução do Parlamento. Face a isto, alguém reserve nos quadros administrativos da EDP lugar para um ainda líder do PSD cujo pensamento muda à velocidade da luz.
Seja como for, por estes dias Santana encontra-se bem mais preocupado em conceder-se ao luxo de decidir se volta à Câmara de Lisboa, cidade onde em parcos meses de mandato conseguiu ordenar a abertura da cratera do Marquês e o encerramento da Feira Popular. Na edilidade, vários foram os vereadores (da própria família social-democrata) que já vieram a público comentar a eventualidade de tal regresso. José Moreira Marques mostrou-se desfavorável, muito embora o considere legítimo; Helena Lopes da Costa manifestou opinião inversa, estando desejosa por preparar a festa de recepção ao bom filho que à casa retornará. Assim sendo, compre-se o bolo, encomende-se o champagne...
Com intenção ou sem o pretender, tanto Moreira Marques quanto Helena Costa revelaram quão dúbias são as justificações que servem de argumento à diferente posição que defendem. O primeiro, ao mostrar-se contra o regresso de Santana sem lhe retirar legitimidade para tal, admitiu não ser reprovável o acto de se abandonar a meio um cargo para o qual se foi eleito, ocupando-se de forma abusiva outro que proporcionará maior exposição política e regressando-se mais tarde ao primeiro com o maior despudor. No mínimo, contestável. Por seu turno, Helena da Costa revelou opinião não menos singular, defendendo ter Santana Lopes legitimidade para regressar a Lisboa em virtude de ter sido ele quem ganhou a Câmara para o PSD nas últimas Autárquicas. Ora, caso a vereadora social-democrata não tenha constatado, de forma implícita as suas declarações somente vieram retirar qualquer laivo de legitimidade que ainda pudesse ser evocada no respeitante ao desempenho das funções de Primeiro-Ministro que até há pouco tempo eram exercidas por Santana Lopes, pois – seguindo o raciocínio exposto – também não foi Santana quem em eleições ganhou o direito de ocupar esse lugar.
Esquecendo a dança das opiniões de vereadores, torna-se impensável a mera conjectura do regresso à Câmara alfacinha de uma personalidade que a abandonou quando isso mais jeito lhe fazia e cuja candidatura nas últimas Legislativas, para lá do principal motivo da incompetência demonstrada enquanto chefe de governo, em determinada dose também foi esmagadoramente rejeitada por Santana ter feito uso de um discurso de moralismo e ofensa à liberdade e vida privada de terceiros, alimentando
rumores e insinuações que representaram um dos momentos mais degradantes da História da política nacional contemporânea. Haja decoro.

Ver Nas Mulheres Que Abortam Os Hitleres Da Contemporaneidade

Acabou a campanha eleitoral que nas últimas semanas tanto pano para mangas deu, ou não constituisse a classe política nacional a melhor das matérias-primas para quem faz profissão ou, quando menos, hobbie da arte do humor ou do exercício da crítica. Considerando a era pós-Legislativas que Portugal atravessa (com o natural tempo de bonança que se lhe segue, cada vez previsivelmente mais curto), entendeu quem aqui escreve dar maior descanso à escrita que tem povoado este blogue, sem – no entanto – lhe conceder férias em absoluto. Assim sendo, a não ser que a actualidade doméstica e internacional preguem novos contratempos, a publicação de artigos nesta morada tenderá a caminhar em velocidade bem mais recomendável.
Introdução feita, ouse-se abandonar (por esta vez) a crítica política e, fintando-se potenciais tabús, abordar matéria de maior sensibilidade. Reforçando a posição da Igreja Católica que desde há muito foi dada a conhecer, o Sumo Pontífice João Paulo II veio há dias estabelecer um termo comparativo entre aborto e holocausto, aproveitando para recriminar os valores democráticos do Ocidente, por induzirem ao esquecimento das leis de Deus. Ora, a comparação entre as duas realidades evocadas começa, desde logo, por se revelar incongruente quando se atenta nessa evidência que as distingue tanto quanto o Sol se diferencia da Lua e que consiste no facto de a Santa Sé, quando o holocausto grassava em pleno continente europeu e milhares de vidas eram ceifadas pelas câmaras de gás do Nazismo, não se ter preocupado em intervir de modo idêntico ao que agora faz a respeito da problemática do aborto. Fora este singelo pormenor, restará acrescentar que testemunhariam este país, Europa e mundo o maior retrocesso da sua História caso, na verdade, as leis que a Igreja entende impôr como sendo de Deus se sobrepusessem às da ou das democracias, algo que o sábio povo português (maioritariamente católico num Estado desejadamente laico) não podia de forma mais veemente ter recusado nas últimas Legislativas, nas quais teve o ensejo de expressar o quanto preza as leis e liberdades democráticas por que batalhou, mostrando-o ao retirar o poder governativo a quem jamais foi eleito para o exercer e, simultaneamente, sublinhando-o ao ignorar os apelos proferidos em plenas celebrações religiosas que incitavam claramente ao voto na Direita conservadora e moralista.
Sem dúvida preferiria a Igreja Católica mover-se em Estados autoritários onde o seu peso fosse tal que instigasse à aplicação e imposição à la carte dos princípios por si redigidos. Por sorte e evolução das mentalidades, cada vez menos assim sucede, sendo caso para evocar a Nossa Senhora da Piedade quando as altas esferas da Igreja se predispõem a difundir os seus ideais e valores de incomensurável intolerância. Não sendo crível a existência, em pleno terceiro milénio, de quem pranteie de saudades da Inquisição e dos tempos do Tribunal do Santo Ofício, por vezes menos descabido será perguntarmo-nos até que ponto o fundamentalismo religioso não ultrapassará em muito as fronteiras do Islamismo, tendo igualmente residência entre as paredes do Vaticano cuidadosamente vigiadas pela guarda suíça.

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