sexta-feira, fevereiro 25, 2005

Tão Débil Esta Demonstração De Dignidade Na Hora Da Despedida

Poderá este blogue ser acusado de procurar protagonismos fúteis ao se satisfazer por ver o seu endereço incluído nas listas de linques de terceiros. Aceitando tal crítica, nem por isso prescinde o autor desta página virtual de, perdoando-se esta última infracção, deixar aqui novo agradecimento a quem faz incluir a morada do MnE nas suas listas, sendo que desta vez o blogue destinatário responde pelo nome de Azia do Dia. Cumpridas as formalidades, feche-se este último parêntesis e, porque de Paulo Portas seguidamente se falará, siga a marinha.
Porventura devido a problemas do foro gastro-intestinal, com toda a certeza proporcionados por uma deficiente digestão dos resultados eleitorais servidos em moldes de gaspacho (isto é, a frio), caminhava alta a noite e era já conhecida a mais que desastrosa votação obtida pelo CDS-PP nas Legislativas (onde mesmo pelo círculo de Aveiro, tendo Paulo Portas como cabeça-de-lista, houve perda real de representatividade no Parlamento) quando o líder dos centristas tornou pública a sua intenção de abandonar a chefia do partido. Consequência imediata, prantearam milhões de almas neste país ao saber de semelhante decisão: na sala onde Portas discursou, derramaram-se infindáveis lágrimas de tristeza; no restante Portugal, de incontida e alegre comoção. Findo o episódio de novela venezuelana que teve como cenário central de toda a trama a sede dos democratas-cristãos, meio mundo não perdeu tempo em enaltecer e considerar transbordantes de dignidade a declaração proferida e a opção tomada, por certo reveladoras de um notável desapego à política pelo estrito interesse do poder e exposição mediática. Entre esse meio mundo que não regateou aplausos, Constança Cunha e Sá, editora da TVI para os assuntos políticos.
Tudo isto estaria bem caso, após observação mais atenta, não adquirisse realce no digno discurso de Portas uma singela frase despida da mais sincera das humildades e, simultaneamente, deficitária de capacidade de encaixe da derrota redonda que acabara de sofrer. Afirmou o líder do CDS-PP (em vias de o deixar de ser, caso não esteja desde já programado um qualquer golpe de teatro cuja possibilidade não será de descurar) não ter conhecimento de outro país onde a democracia-cristã e o trotskismo tenham distado um do outro, em eleições, cerca de um ponto percentual. E com esta simples e maravilhosa declaração Portas fez o favor de se conceder ao direito de julgar, criticar e, bem mais, recriminar o sentido de voto que os portugueses poucas horas antes haviam expressado nas urnas. Moral da história: vestir a fardamenta de qualidades tão nobres quanto a dignidade e humildade no momento da derrota até pode ajudar a tornar mais agradável e aprazível a indumentária, mas de muito pouco servirá quando por debaixo da gola da camisa ou do nó da gravata se deixa vislumbrar a Termo Tebe do autoritarismo e da presunção de posse do dom da ética e da moral, Termo Tebe esta que sempre lá esteve durante os restantes dias do ano e que raras vezes foi despida para ir à máquina de lavar e tornar a ser envergada.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

Eis Que No PSD Começou a Anunciada Corrida Mais Louca Do Mundo

Foi, enfim, revelada anteontem a aparente intenção de Santana não se recandidatar à liderança do PSD no próximo congresso. Dada a hesitação do próprio, ninguém conseguirá convencer os portugueses de que foi maior o desejo de Santana se afastar do que as pressões exercidas para desse modo proceder. Seja como for, essa até será a estratégia mais inteligente que poderia adoptar, já que o mesmo estaria condenado a perder a corrida intra-partidária e, para mais, deste modo poder-se-á libertar para cometer o desplante de voltar à Câmara de Lisboa, regresso que há muito se prevê (e só por obra do destino se não acertará na previsão). Irá ser o povo novamente chamado a, no momento adequado, julgar Santana Lopes por reincidência na ocupação abusiva de cargos políticos, desta vez do foro autárquico? E, por outro lado, continuará a edilidade lisbonina a ser tida pela classe política nacional, ora como degrau na ascensão ou relançamento de carreiras político-partidárias, ora enquanto depósito ideal para desempregados e derrotados de outras lutas políticas?
Quem terá respirado de alívio com o anúncio da não recandidatura de Santana foi a grossa parte do crème de la crème social-democrata, começando em Manuela Ferreira Leite e fazendo escala em Pacheco Pereira antes de atingir a estação terminal de seu nome Cavaco Silva, com outros tantos apeadeiros pelo meio. Isto já para não frisar a alegria que terá invadido o âmago das individualidades que se apresentam na grelha de partida para o assalto à liderança laranja e cuja identidade há muito se conhece. A este propósito, acrescente-se, revelou-se tudo menos inocente a inclusão como cabeça-de-lista por Aveiro nas Legislativas que passaram do ilustre social-democrata Marques Mendes. Senão, atente-se: em primeiro lugar, tem o próprio a oportunidade de surgir enquanto alguém que não virou a cara à luta num dos momentos mais difíceis da História do partido, o que lhe trará maior legitimidade para agora exigir que contem consigo; em segundo lugar, a sua eleição pelo círculo dos moliceiros e ovos moles concedeu-lhe o cargo de deputado no hemiciclo, o que será relevante na hora de o PSD pretender dispor de um líder que possa travar importantes e acesos despiques no Parlamento com o nóvel Primeiro-Ministro socialista.
Também a própria Manuela Ferreira Leite se poderá inscrever na corrida ao trono social-democrata, assim caia na tentação de corresponder às vozes que a incitam a entrar na disputa. Quem não perdeu tempo e já entrou foi mesmo essa outra personagem maior da caderneta dos cromos da política, Luís Filipe Menezes, o qual desceu ao território dos “sulistas, elitistas e liberais” com o objectivo de anunciar a sua candidatura e vincar a pretensão de ver concorrer pelo PSD às próximas Autárquicas e Presidenciais personalidades que cumpram um único e singelo requisito, o de vencer e (por essa via) restituir aos laranjas a dimensão política desejada. Depois de revelada esta louvável intenção, levante-se quem for detentor da arrogância de achar que não é nobre o uso que os políticos desta nação fazem dos cargos públicos.

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

O Embuste Das Sondagens e Demais Incidências Das Legislativas

Referia este blogue, dois artigos atrás, não poder Santana Lopes processar as empresas de sondagens na sequência da sua estrondosa derrota eleitoral, visto terem as mesmas acertado nos seus estudos e previsões. Ora, enganou-se de forma evidente e embaraçosa quem aqui escreve, porquanto essoutro blogue de maior fama e reputação denominado de Barnabé traz a lume a verdade dos factos ao afirmar (pela mão de Pedro Sales) terem, na realidade, falhado as empresas de sondagens ao não cometerem a ousadia de atribuir ao PSD um resultado aquém dos trinta pontos percentuais, o que veio a verificar-se. Assim sendo, enquanto estes linhas estão a ser lidas será muito natural que Santana e seus fiéis de lides já tenham mandado instaurar os merecidos processos às frisadas empresas de sondagens. Imensamente justo.
Noutra perspectiva, quem também saíu derrotada destas Legislativas foi a Igreja (o que será assinalável num país de população e tradição maioritariamente católicas). Tendo apelado ao voto em partidos que defendam os valores por si difundidos, entre os quais se não encontra a interrupção voluntária da gravidez ou o casamento homossexual, a verdade é que os portugueses revelaram maturidade democrática ao não responderem ao apelo da Igreja, antes tendo utilizado as urnas para fazer vingar a mensagem de que em sociedades modernas – não coincidentemente assentes em modelos de Estado eminentemente laicos – a religião (seja ela o catolicismo ou outra) não se deve permitir à veleidade de actuar enquanto condicionadora de políticas, leis, vontades, mentalidades e liberdades. Tivessem os democratas-cristãos maior implantação em Portugal e o cenário seria cada vez mais esse, isto é, o de a Igreja impôr à sociedade, de forma inflexível e indiscriminada, os seus princípios marcadamente rígidos e ortodoxos. Só que essa não é (felizmente) a realidade, e as últimas Legislativas serviram, também nesse ponto, para provar o quão adulta é a população portuguesa na hora de optar pelo que melhor se afigura para si e, por inerência, para o desenvolvimento social e humano do seu país. A ética também passa pelo respeito das opções e liberdades de todos e de cada um, algo que a Igreja, nunca o tendo feito, tão pouco agora iria fazer.
Regressando à política nacional no sentido literal do termo, deslocaram-se ontem diversos partidos ao Palácio de Belém com o intuito de cumprir o protocolo das reuniões preliminares à indigitação do novo Primeiro-Ministro. Na sua visita, optou o CDS-PP por não se fazer representar pelo líder demissionário (nunca este adjectivo foi tão utilizado para classificar a Direita portuguesa e seus actores), numa tentativa de – ainda que outra justificação seja dada – menosprezar tal encontro e, numa última instância, a figura de Sampaio. Não causando mossa a birra de quem não perfaz um décimo do eleitorado, serão escusados comentários mais demorados. Ainda menos comentários merecerá o facto de a Juventude Queque (perdão, Centrista) andar pelas universidades a recolher assinaturas visando a recandidatura de Portas à liderança dos democratas-cristãos. Uma sugestão: à porta dos estabelecimentos de ensino básico e pré-primário a recolha poderá revelar-se mais frutífera.

terça-feira, fevereiro 22, 2005

A Direita Bateu No Fundo, Mas Santana Quer Continuar a Escavar

Depois da hecatombe de Domingo, no PSD adivinha-se o derramamento de sangue, não demorando para que comecem a rolar cabeças. Logo na noite de 20 de Fevereiro, o discurso de derrota de Marques Mendes (frisando a premência de os laranjas mudarem de rumo) evidenciou a sua predisposição para disputar a liderança dos sociais-democratas, ao passo que a adivinhada destituição de Santana deverá levá-lo a pretender servir-se do regresso à Câmara de Lisboa para relançar a carreira política.
Por coincidência pouco ou nada coincidente, e talvez prevendo tal regresso aos Paços do Concelho alfacinha, o Governo demissionário agora de abalada – queira a sorte que o bilhete seja somente de ida – a tempo ordenou (por ordem do Secretário de Estado Eduardo Moreira da Silva) a extinção do procedimento de avaliação do impacte ambiental das obras do túnel do Marquês. Muito apropriado, dado que o mesmo Santana Lopes que perdeu (como se ansiava) as Legislativas foi quem, enquanto autarca, mandou abrir a trincheira do Marquês. Assim sendo, existirá relação entre todos estes factores, isto é, o seu potencial regresso a Lisboa e a extinção do estudo de impacte ambiental respeitante à obra em ênfase? A tempo, não muito, encontrar-se-á resposta, sendo que, a suceder o cenário previsível, no momento próprio encarregar-se-ão os lisboetas de ditar o afastamento de Santana Lopes dos destinos da capital, do mesmo modo que agora (da forma mais concludente) o despediram de Primeiro-Ministro.
Entretanto, também na noite das eleições, e uma vez conhecidos os desastrosos resultados de toda a Direita, Portas (ao invés de Santana) apresentou a demissão da liderança do CDS-PP. É o verdadeiro fim de um ciclo e nada mais que isso, ou tão somente a melhor prova de que pela boca que soltou metas irrealistas morreu o peixe. Portas deixou-se embalar no descabido sonho (sonho seu, entenda-se) de pretender atingir nas Legislativas os dois dígitos de votação e, por acréscimo, a obtenção de um resultado no seu todo idêntico aos conseguidos pela CDU e Bloco de Esquerda. Só que, azar dos azares (para o próprio e uma mão de outras almas), Portas nem perto ficou da fasquia delineada, o que não constituirá estupefacção quando se sabe terem os democratas-cristãos marcado presença no desastroso Governo de Coligação. Na verdade, nem patrocinada pelos autoclismos Dilúvio a ambição do ainda líder dos centristas teria deslizado pela pia de forma mais eficaz, já que, por muito que Portas tenha procurado separar as águas (distiguindo os ministros do quintal do CDS-PP dos do jardim do PSD), a verdade é que uma habitação gere-se no seu todo, e não por assoalhadas, sendo que a Direita em tempo algum soube gerir os destinos dessa maior casa chamada Portugal.
Dito e redito, depois do terramoto sentido no Domingo, do auto-suspenso casamento de interesses que unia os do Caldas aos da Lapa parece ninguém mais se lembrar. Acabou a Quinta das Celebridades da Direita no poder e, assim, seguem Frota e Ana Afonso (perdão, Santana Lopes e Paulo Portas) os seus diferentes caminhos. Boa viagem.

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

20 de Fevereiro de 2005 – Dia Da Restauração Da Democracia

“Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena...”

Porque o povo é sereno, o país acordou aparentemente calmo. Não se observam chaimites, muito menos obuses, nas ruas. Já antes aqui se disse que, como é próprio de uma democracia, a revolução não poderia ter sido feita senão não nas urnas. E assim sucedeu. Não terá sido colocado nenhum cravo nas G3, mas muitos cravos em forma de voto foram depositados nas urnas. Portugal voltou a ser um país democrático na sua essência, o que equivale por dizer que o povo foi, uma vez mais, quem mais ordenou. E todos os direitos começam por aí, pela inalienável liberdade da escolha, seja ela qual for.
No respeitante aos resultados das Legislativas propriamente ditos, estes não poderiam ser mais conclusivos. A Direita perdeu como nunca antes, estando mais que justificada a dissolução do Parlamento. Os sociais-democratas registaram o seu pior resultado de sempre (terá Santana Lopes o desplante de se refugiar na Câmara de Lisboa?) e, por seu turno, o CDS-PP passou de terceira para quarta força política (o que, para quem afirmou ter os dez pontos percentuais como meta, constitui a mais rotunda das derrotas). Em contraposição, a Esquerda alcançou o melhor resultado da História democrática: o PS conseguiu a ambicionada maioria absoluta (jogando a seu favor o voto punitivo com que os portugueses quiseram brindar a Direita), a CDU não desceu (tendo, talvez, como único senão a perda de protagonismo dada a obtenção de larga maioria por parte do PS) e, por fim, o Bloco de Esquerda foi – a par dos socialistas – um dos maiores vencedores da noite de 20 de Fevereiro (não tivesse em causa, nestas eleições, a concentração de votos no partido da rosa, visando a derrota clara do PSD, e poderia revelar-se ainda mais estrondosa a subida de Louçã e companhia).
Independentemente das considerações que possam ser produzidas tendo em conta os resultados das Legislativas, os mesmos terão contribuído de sobremaneira para que o stock de alka-seltzers tenha esgotado lá para a Lapa e Largo do Caldas. Os portugueses fizeram questão de gritar alto que não aceitam assaltos ao poder como o que a actual Direita levou a cabo, do mesmo modo que recusam pagar crises enquanto as classes favorecidas pavoneiam o seu estilo de vida sem o mais ténue dos pudores. O desemprego regista valores recordes, a educação encontra-se num estado pouco menos que degradante, a justiça funciona em regime vegetativo, o sistema fiscal não é aplicável ao peixe graúdo. Foi a tudo isto (e ao mais que a memória não esquece) que o povo quis dizer não. E disse-o com uma das maiores forças de sempre, sendo que o decréscimo dos índices de abstencionismo é bem elucidativo da necessidade que os portugueses sentiram de mudar o rumo das coisas.
Adeus Dr. Portas (vá fazer política para junto de Deus) e adeus Dr. Santana (processe os portugueses, já que não o poderá fazer com as empresas de sondagens). Seja bem retornada, Sr.ª Democracia.

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