sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Nem Em Plena Lavagem Dos Cestos a Direita Perde a Sua Postura

Aproveitando o fim de festa da campanha para as Legislativas (a qual tanto fez recordar os saudosos bonecos de Santo Aleixo e similares personagens de cabeça oca ou lá próximo), pensava quem escreve neste endereço prescindir de o fazer por estes dias. Sucede que, num país tão fértil em novidades políticas, urgiu actualizar a escrita, evitando-se a incorrência em atrasos maiores. Abra-se, pois, espaço para o último artigo a morar neste blogue antes do esperado Domingo de 20 de Fevereiro, momento que – independentemente do resultado a saír do escrutínio eleitoral – marcará a História do país ao assinalar a Restauração da Democracia em Portugal.
Feito o intróito, avance-se na ordem do dia. A campanha em fase de despedida nunca conseguiu ser, mercê dos seus actores, um campo privilegiado de discussão dos reais problemas que afligem a sociedade portuguesa. Com isso lucrou a Direita, para a qual debater a situação económica e social do país daria visibilidade ao saldo negativo da sua governação. Por saber disso, e não de forma esporádica, o PSD apostou na estratégia da vitimização (já aqui escalpelizada em textos precedentes) e, bem assim, na alimentação de polémicos faits-divers que em momentos cirúrgicos abafaram matérias incómodas. Tudo atempadamente planeado.
Na recta de meta da maratona eleitoral, Santana Lopes (igual a si mesmo) sobreviveu dos ruídos e factos comuns que serviram de sustentação à sua campanha. Paulo Portas, ao invés, demarcou-se ao preferir ensaiar uma comedida e teatralizada pose de Estado que lhe assenta tão mal quanto um casaco XXL em corpo de criança. Ainda assim, aproximaram-se o patrão dos democratas-cristãos e o líder laranja numa derradeira cartada, a qual (como seria expectável num país de população maioritariamente católica) consistiu na procura de rendibilização do pendor religioso de quem por cá habita. E assim veio no momento oportuno o falecimento da Irmã Lúcia, impulsionador do estafado golpe de marketing de suspensão das campanhas protagonizado por PSD e CDS-PP. Nada de surpreendente, sendo que dessa suspensão bem mais terá lucrado Santana, cujas intervenções (já uma vez aqui se realçou) sempre constituíram o melhor dos tempos de antena dos partidos de Esquerda.
Uma nota final versando diferente matéria. Sob o argumento de não dever ser concedido ao Bloco de Esquerda protagonismo na vida do país, Portas parece ter anunciado não lhe causar desconforto o potencial cenário de, nos tempos próximos, celebrar coligações à Esquerda (com o PS, depreende-se). Terá ficado a sede do poder pelo poder tão entranhada nos democratas-cristãos que os mesmos se apresentam capazes de, inclusive, enviar às urtigas o noivado das últimas legislaturas com o PSD? Queiram os deuses que não, pois tal encosto do CDS-PP à Esquerda significaria a viragem da Esquerda à Direita, sendo que o povo não perdoaria edições reformuladas de queijos limianos.
Mas isso agora não importará nada. Chegou o momento de serem encerradas as hostilidades. Vem aí o cumprimento do dia de reflexão e posterior celebração. A próxima vez que um texto figurar neste endereço já terá Portugal retomado a normalidade democrática. É hora...

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Acabado o Festim, Reúna-se Agora a Atenção Nos Problemas Do País

Gastam-se os últimos cartuchos de foguetes e começam a apanhar-se as canas, de modo a se limpar o recinto agora que o circo está, pelos tempos mais próximos, de partida. A campanha eleitoral, que sempre dependeu do ventilador para continuar a dar sinais de interesse, vive as melhoras de uma morte ansiada, ou não fossem mais ínfimas as saudades que deixará do que a água existente no deserto.
Se o governo que saír das Legislativas oferecer ao país a instabilidade que o da Coligação de Direita jamais deixou de semear, não demorará muito para que a tenda do circo volte a ser montada. Ainda assim, espera-se que o filme a exibir seja, desta feita, povoado por menos momentos de drama e terror, na certeza de que cenário pior do que o vivido nas últimas legislaturas significará o nascimento de uma nação do terceiro mundo, de seu nome Portugal, em plena União Europeia no século XXI.
A campanha eleitoral fez-se de tiros versando matérias despidas de interesse e ausência de discussão dos verdadeiros problemas sociais e económicos. Há quem encare esta realidade com complacência, argumentando não se dever esperar que uma campanha constitua o lugar e momento ideais para discutir de forma séria assuntos igualmente sérios. Talvez assim seja e, nesse caso, muitos de nós terão sido traídos pela ingenuidade. Certo é que, chamem-lhe parcialidade ou incapacidade de isenção, nestas últimas semanas um partido de tudo experimentou na tentativa (bem sucedida) de o caos sócio-económico em que navega o país não ser trazido à mesa da discussão. E esse partido veste-se de laranja.
A tese da vitimização de Santana Lopes conheceu tantos episódios quantos aqueles que o seu Governo em poucos meses testemunhou. Atacou-se Sampaio, porque a ocasião não exigia a dissolução do Parlamento e consequente antecipação de eleições; atacaram-se a banca e os empresários por pressionarem a queda do Governo de Direita (sim, não se trata de gralha, Santana acusou patrões e alta finança de derrubarem a Direita); atacou-se Sócrates por este ser ou deixar de ser homossexual (factor de extrema relevância e que mudaria em tudo a vida dos portugueses); atacaram-se as empresas de sondagens por apresentarem estudos não fidedignos favoráveis aos partidos de Esquerda; e atacaram-se os órgãos de comunicação por também estes estarem conotados com a Esquerda. Em suma, só terá faltado atacarem-se os portugueses por não se contentarem com o deplorável nível de vida a que os condenaram.
Santana Lopes nunca quis discutir aquilo que mais traria a julgamento o seu desempenho enquanto Primeiro-Ministro. Chegou mesmo a acusar o líder socialista de não querer enfrentá-lo em debates televisivos, ao mesmo tempo que não hesitou em adiar sine dia (tão sine dia que não chegaram a ter lugar) debates que tinha programado com Louçã e com Jerónimo de Sousa. Santana nunca se encontrou, tendo acabado a legislatura como a começou: aos solavancos, sem linha de rumo ou reformas e propostas de real interesse para a sociedade no seu todo. Santana foi sempre o elo mais fraco. Adeus.

Quando Um Dia Se Compreender a Si Próprio, Santana Corrigir-se-á

Em tempo algum terá semeado semelhante incredulidade junto do comum cidadão o facto de não existir, na legislação criminal em vigor, enquadramento legal susceptível de justificar a autuação de Santana Lopes na sequência de todo o discurso com que, na presente campanha eleitoral, insistentemente reincide na premeditada agressão do pavilhão auricular de todos e cada um dos portugueses. Do mal o menos, dirão os mais optimistas (ou será masoquistas?), disso lucrará a actividade da otorrinolaringologia. A assim ser, e para o bem de alguns, então deixe-se continuar a passar impune a infracção.
A última estratégia adoptada pelo líder social-democrata passa pela emoção e sentimento explícitos na mensagem que pretende veicular. Um argumento válido, quando não subsistem outros. Independentemente de tal facto, Santana aproveitou a sua incursão por Trás-os-Montes para referir ser igual ao de há três anos o PS que pretende voltar a governar o país. Até poderá sê-lo, não competindo analisá-lo neste texto, mas – permita-se a questão – em que é que Santana Lopes mudou, nestas poucas semanas, em relação àquele outro Primeiro-Ministro que o país conheceu nos últimos meses? Pela forma como tem decorrido a campanha eleitoral, a ter havido mudança todos terão percebido o rumo que a mesma tomou.
Abundam mais que água no oceano as incongruências contidas nas afirmações proferidas pelo líder social-democrata para lá do Marão, somente não sendo aqui redigida a totalidade das mesmas por tal potenciar o enjoo. Ainda assim, poder-se-ão tomar alguns exemplos, começando pela acusação dirigida a uma comunicação social que se diz estar a fazer campanha ao lado de alguns partidos (de Esquerda, supõe-se). Contenha-se a estupefacção face às palavras de Santana Lopes, ou não tivesse conhecimento toda a vivalma residente em território nacional da forma como o Governo demissionário procurou, na última legislatura, controlar e condicionar órgãos de comunicação. Neste contexto, o PSD (pela voz da sua actual liderança) chega mesmo a falar numa democracia não verdadeira em voga em Portugal, esquecendo-se que nem doutro modo poderia ser, porquanto numa democracia fiel ao real sentido do termo o chefe de governo assumiria tal cargo por única e soberana decisão do povo.
Continuam as atoardas lançadas por Santana ao enfatizar somente poder falar a verdade, e não trocar números ou esconder défices e contas, quem ousa candidatar-se a Primeiro-Ministro da nação. Tudo estaria correcto, não fosse o líder dos laranjas encontrar-se entre os que, em claro proveito próprio, mais têm contribuído para que nesta campanha se esconda a discussão dos problemas sociais e económicos do país, uma vez que tal traria inevitavelmente a lume o confrangedor desempenho do seu executivo. Para mais, quando Santana realça não estar Sócrates preparado para governar, seria oportuno avaliar-se até que ponto o líder dos sociais-democratas mostrou estar preparado para a governação e, inequivocamente não o estando, poder-se-ía considerar interessante aquilatar-se dos motivos pelos quais não revelou tais capacidades e aptidões quando, no momento próprio, teve o ensejo de responder a quem de si duvidava e, em maior grau, isso de si se esperava e exigia.

quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Finda a Carreira Política, Sobrar-lhe-ão Lugares Na Comédia Nacional

Santana Lopes veio criticar os que o acusam de misturar as funções de líder partidário e Primeiro-Ministro. Uma questão oportunamente levantada, já que ninguém, no eixo espacial que dista dos anéis de Saturno às imediações de Plutão, havia reparado em tal facto. Paralelamente, são acusados os socialistas de terem abandonado o país em 2001, quando – por muito que se possa catalogar de condenável – tal postura veio mais tarde a ser imitada por Barroso, merecendo esta, pela razão descrita, idêntica reprovação.
De facto, quanto mais o tempo corre mais se torna evidente o facto de os disparos de Santana acabarem sempre por actuar enquanto autêntico boomerang: inflectem a sua direcção a meio percurso e acabam, inevitavelmente, por caír sobre o próprio. A comprová-lo, o líder do PSD tem gritado em bom som, na altivez da sua indignação, ser Portugal o único país do mundo onde poderia ter lugar uma dissolução semelhante àquela de que foi alvo a Assembleia da República. Fica o cidadão sem saber a que mundo estaria Santana a referir-se, sendo certo que, com toda a certeza, seria outro que não aquele que se espraia para cá da estratosfera, neste planeta que, contando-se como o terceiro daqueles que no Sistema Solar efectuam rota de translacção em torno do Sol, responde pelo nome de Terra. Na verdade, o sentido de humor do Primeiro-Ministro demissionário adquire uma dimensão em tudo incalculável quando, para mais, ousa frisar ter tal dissolução potenciado o perigo da instabilidade no país. Perdoe-se a ingenuidade aqui revelada e perceptível nas entrelinhas da pergunta que se segue: estaria mais de meia população portuguesa enganada ao pensar que a dita instabilidade já há muito se fazia sentir? Ter-se-á de admitir que somente em resultado de um qualquer surto hibernatório com incidência nas gentes da Direita poderá a Coligação PSD/CDS-PP não ter dado por isso.
E porque com ela não deu, ou lhe terá passado despercebida, compreende-se que Santana venha a público depositar confiança na vitória dos sociais-democratas nas eleições que se aproximam. Pelo menos parece regozijar-se ao perceber que o seu partido, quando em conjunto com o de Portas, não estará muito longe dos valores percentuais ostentados actualmente pelo PS. Ora, se a Direita junta ultrapassar a totalidade dos votos conseguidos pelos socialistas nas Legislativas, isso significará a viabilização do reatamento do matrimónio que une o PSD aos democratas-cristãos e que, por agora, se encontra em regime de auto-suspensão até melhores dias.
Passe-se adiante. Parece que pelo centro do país, lá para a cidade onde abundam repúblicas e estudantes, foi há dias distribuída uma brochura social-democrata na qual Santana concentra sobre si os holofotes. Nada de extraordinário, até este ponto. Só que a referida brochura é encabeçada pelo inolvidável título de “Manual do Administrador Competente”, descrevendo não somente o desempenho do líder do PSD à frente dos destinos das edilidades da Figueira da Foz e de Lisboa, mas igualmente a sua actuação enquanto chefe de governo. Depois desta contribuição, não pode Portugal continuar a ser um país de sisudos.

A Alimentar-se Da Seriedade Da Política, Morreria De Fome o País

Os socialistas foram a Setúbal, terra onde o carrocel rosa poderia emperrar no embaraço do gasto tema da co-incineração em má hora ressuscitado por Sócrates. Mas não emperrou. Desfilaram pelas ruas da cidade e, do alto do palanque, falaram perante um largo público, tendo marcado presença algumas das mais altas figuras do PS actual, com destaque para António Vitorino (o qual parece não nutrir pela co-incineração na Arrábida a mesma simpatia que o secretário-geral do seu partido revela). Não se viu sombra, ainda assim, daquele que nas eleições anteriores havia sido cabeça-de-lista e nestas Legislativas não passa do décimo elemento proposto pelos socialistas por aquele distrito (curiosamente, o último dos lugares previsivelmente elegíveis). De quem se fala? Precisamente de Paulo Pedroso, cujo aparente eclipse de casual não terá nada, somente vindo confirmar a evidência de existirem momentos políticos em que – menos para os visados que para os partidos – a invisibilidade de certas personalidades se torna manifestamente conveniente.
Entretanto, e porque de coincidências se faz o quotidiano em Portugal, surgiu na melhor altura para a Direita a acusação de existirem fortes indícios de que Sócrates em pessoa esteja implicado num complexo crime de corrupção relativo à construção do Freeport de Alcochete, viabilizada pela alteração da legislação que define a Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo. No processo terão intervido distintas individualidades, contando-se entre as mesmas o então Ministro do Ambiente e hoje líder do PS, tendo tido os socialistas como contrapartida de tal negócio o pretenso financiamento de campanhas eleitorais. Terá assim sucedido? Provavelmente nunca se saberá, pois a justiça em Portugal funciona como tudo o mais. Certo é que a sentença ditada pela opinião pública vai sendo escutada de soslaio, mercê de um segredo de (precisamente) justiça que funciona não se sabe para quê ou para quem. Seja como for, considerações à parte, toda a suspeita agora levantada não vem senão ao encontro de tudo a quanto a classe política portuguesa tem habituado o país, não representando aquilo que chega aos ouvidos da população a ponta do iceberg. A tempo se esquecerá mais este episódio.
Sempre na Esquerda, e ainda mais nela, fale-se do PCP (ou, com maior precisão, da CDU) que, ainda assim, tem produzido a campanha eleitoral mais coerente e consistente. Mal grado poder este partido ser acusado de ortodoxo e fechado sobre si mesmo, quando se olha para o Centro-Direita fica-se sem saber quem o será mais. Como seria de esperar da verdadeira Esquerda, tem a CDU abordado problemas da sociedade e classes operárias, mas não leviana ou inconsequentemente, pois – em oposição aos socialistas – é claramente exigida a revogação do novo código do trabalho e, no respeitante a essa outra despesa que agrava de sobremaneira os encargos das famílias, a supressão de uma lei das propinas que não terá lugar num Estado cuja Constituição defende a gratuidade do ensino. Louve-se a iniciativa dos comunistas em afastar de si as meias tintas e défices de seriedade que proliferam nos discursos da generalidade das forças partidárias portuguesas.

terça-feira, fevereiro 15, 2005

De Entre Os Radicalistas, Há Os Que o São e Os Que Fingem Não o Ser

E eis que Portas saíu uma vez mais à rua, desta vez em Varzim. Assistem os crentes da democracia-cristã, bem como os outros, ao milagre da ressurreição do Paulinho das feiras e, numa das últimas aparições, dos mercados. Tudo muito estudado e sem aviso prévio, não vão sentir-se convocadas para a festividade outras gentes que não aquelas com que os centristas, de forma convenientemente pensada, polvilham o percurso do seu líder. Um comprensível estratagema, já que a regra será mesmo essa desde a Esquerda à Direita.
Louçã, num debate promovido pela SIC Notícias que lhe terá deixado más recordações, afirmou não poder Portas falar de vida, dado nunca ter gerado uma. Exaltaram-se as comadres mais os compadres da aldeia do CDS-PP. Passaram-se dias e noites e agora vem Portas replicar que o líder do Bloco não terá permissão para falar de ex-combatentes. Qualquer dia não se falará de nada, o que até nem será novidade no panorama político português, onde o mais de que se fala é do que não interessa falar.
Falando-se na Igreja, encontra-se o Estado português endividado para com a mesma, segundo teve o ensejo de afirmar o chefe máximo do CDS-PP na amada terra de Aveiro que o coloca no hemiciclo. Pelos vistos, muito enganado andava o cidadão ao pensar respeitar às farmacêuticas e aos advogados oficiosos o maior atraso nas contas estatais. Sabe-se agora que, mesmo não pagando impostos, a Igreja ainda é credora de todos nós. Tudo bem, não se discuta mais o assunto para não se caír em pecado. Portas disse-o, não o poderão desmentir os candidatos a hereges deste país. Só que, quando Portugal mantém uma dívida para com as instituições de solidariedade social ligadas à Igreja, então (por semelhante raciocínio) de igual modo manterá a nação uma dívida para com os clubes e associações desportivas ao serem estas quem faculta à juventude a actividade física que, desde logo nas escolas públicas, deveria ser o Estado a providenciar. Isto sem esquecer as associações promotoras de actividades culturais e por aí adiante.
Mas permaneça-se no reino de Portas, onde quem assina este blogue – e a questão vem quase desde os primórdios do mesmo – continua a não ver Cinha (mítica personalidade do jet-set lusitano que um dia afirmou tencionar fazer campanha pelo seu amigo ex-director d’ O Independente). Ora, lá pelo Largo do Caldas subsiste o estranho hábito de apelidar o Bloco de Esquerda de partido radical. Não se tome a sugestão por implicativa, mas seria de todo apropriado alguém na comitiva do CDS-PP alertar o líder para o facto de Portas também estar longe de comandar um partido de consensos e tolerâncias, ou não bebessem as políticas por que se regem os democratas-cristãos do copo do arcaísmo e conservadorismo overdósico subjacente a todos os princípios de comportamento social clara ou subliminarmente impostos pela Igreja. Isto de fazer pontaria aos telhados de vidro do vizinho quando se têm idênticos poderá não constituir a melhor estratégia, diz quem aqui escreve e nunca cursou marketing político.

Lá Foi Tudo Para o Jantar Pensando Que o Menú Era Bem Diferente

Santana Lopes poderá ser acusado de muito do que de mal sucede no país, mas não será legítimo deixar de se elogiar a campanha singular que tem levado a bom porto, ainda que a mesma sempre se tenha revelar enquanto fotocópia de alta qualidade daquilo que foram os seus meses de legislatura, isto é, uma infindável sucessão de episódios de obrigatória controvérsia. Seja como for, reconheça-se o mérito – à campanha, bem se vê – de servir de exemplo do elevado grau de coerência por que se pauta Santana, bem como por atribuir ainda mais sentido à expressão de que mais vale falar-se mal do que pura e simplesmente não se falar.
Numa das suas últimas brilhantes acções, Santana entendeu por bem jantar acompanhado de inúmeras personalidades ligadas à cultura. O motivo para a realização de tal evento social em plena recta final para as Legislativas, pelo que o próprio teve ocasião de afirmar, até nem se prendeu com o contexto da campanha eleitoral que se vive. Ao invés, e louvem-se a delicadeza e ternura subjacentes às palavras do líder do PSD, na base de tal confraternização esteve a vontade de Santana Lopes agracedecer às mais distintas individualidades da cultura nacional o modo como o ensinaram a ver o mundo e os outros com maior sensibilidade. Sem dúvida um discurso a apelar à comoção generalizada, estando longe do pensamento do comum dos mortais partir do princípio de que o mesmo tenha sido agendado para data recente por qualquer mesquinho interesse eleitoralista.
Acrescente-se ser (a todos os níveis) irónico o facto de, quando o líder laranja frisa ter passado a olhar os outros de forma mais sensível, ainda com maior dificuldade se compreender por que razão nas últimas semanas a questão da homossexualidade tem sido levantada nos comícios sociais-democratas. A não ser que, segundo os cânones de sensibilidade por que se regem as gentes do PSD, seja afável e meigo o ataque de alguém (anónimo ou não) pelo simples motivo de possuir referências sexuais distintas. Há conceitos para tudo, e – de acordo com palavras do próprio – pelo menos passou a saber-se que Santana Lopes atribui importância ao sentimento. Seria oportuno, todavia, e face a tão ansiada revelação (pela qual o país esperava), questionar-se porque insiste então Santana em não saber interpretar esse outro profundo sentimento de rejeição que o povo nutre pela forma como tem governado o país. A pergunta aguardará que melhores dias tragam uma resposta.
Mas volte-se ao dito jantar que muita personalidade levou ao engano. Santana discursou e envolveu a plateia nas suas palavras de imensurável sensibilidade. Ou, se é permitida a correcção, quase toda a plateia, porque alguém se terá incomodado por ter sido convidado sem prévia informação sobre ao que ía. Alguém de seu nome Simone. A cantora-actriz e actriz-cantora não gostou da encenação eleitoralista, pois havia sido convidada para um pretenso jantar onde iria ser debatida a cultura. Só que, tratando-se de Santana, dever-se-ía saber que as surpresas e novidades de última hora constituem imagem de marca.

Já Era Tempo De, Para Calar Vozes, a Direita Colocar o Pé Na Rua

Comece-se de modo diferente, pretendendo este modesto blogue agradecer a outros de maior audiência (Arte de Opinar, Alerta Amarelo, Os Estados Da Nação e Analiticamente Incorrecto) a inclusão deste endereço nos seus linques. Por terem créditos firmados na blogosfera, aconselha-se – à imensa minoria que por aqui parqueia – uma visita aos mesmos, pois não representarão viagem em vão. Para lá chegar nem será necessário tomarem-se desvios, bastará – também aqui – seguir-se pela via rápida que é o Bloganário Genérico.
Agradecimentos feitos, retome-se a escrita corrente e realce-se o facto de cada vez mais a política nacional, mercê da actuação dos seus actuais intervenientes, tender a se assumir enquanto monstro em constante mutação, sendo que – a exemplo do que sucede no futebol – a verdade de hoje poderá muito bem constituir a mentira de amanhã e a verdade de amanhã com maior facilidade poderá ter sido reformulada a partir da mentira de ontem. Esta máxima parece ser seguida por Santana Lopes, porquanto – ainda há pouco tempo aqui se comentava – afirmou o Primeiro-Ministro cessante ter desistido de fazer campanha de rua por já não acreditar na eficácia da mesma. Aceitando-se de bom grado a justificação fornecida (porque somente almas maldosas poderão frisar dever-se a sua fuga ao contacto com a população a um notório receio de não ser bem recebido face à avaliação do seu desempenho enquanto chefe de Governo), certo é que o líder social-democrata sentiu necessidade – como em tempos idos diria Iordanov – de recuar e voltar atrás no raciocínio que expôs há poucos dias e no qual patenteava uma profunda aversão a, segundo o próprio, ultrapassadas propagandas de rua.
Assim, contenha-se o espanto, Santana saíu mesmo da toca no reino dos Algarves. Terá sido a primeira e derradeira vez que o fez, na ânsia de calar vozes de Esquerda que o acusam de se esconder. Mas, ainda assim, o líder do PSD não se aventurou em demasia, pois sabe-se como funcionam as oleadas máquinas partidárias aquando das campanhas eleitorais: antes de o líder do partido passar alguém inspeccionará e limpará o terreno, de forma a ser assegurada a impossibilidade de serem causados embaraços, ao passo que quando o líder do partido se aproxima da população, entre esta já se encontram convenientemente infiltrados uns quantos cidadãos ali colocados a preceito para soltar um infindável e emocionado rol de elogios e abraços.
Portas também planeou a sua campanha ao milímetro. Saíu à rua em Aveiro, sem o anunciar. E nem futuramente o fará, pois a estratégia da discrição constitui o melhor dos modos de somente acompanharem o passeio pretensamente espontâneo do líder democrata-cristão os actores convocados para tal e nunca o cidadão comum capaz de vociferar uns quantos apupos e impropérios. Mesmo assim, honre-se a verdade, os carnavalescos desfiles de rua a que se alude sempre foram levados à cena por todas as forças do espectro partidário português, numas mais que noutras, dependendo da dimensão e profissionalismo organizativos. Reconheça-se, no entanto, que os partidos de Esquerda sempre vão mostrando coragem de desfilar; outros, muito pouco.

segunda-feira, fevereiro 14, 2005

O Exemplo Da Boa Campanha Eleitoral Com Recurso a Meios Públicos

Aquando do debate de Sócrates e Santana na SIC, este último afirmou ter o líder do PS de se habituar a ser confrontado com alegações do foro pessoal (a exemplo da insinuação que o próprio Santana patrocinou versando as tendências sexuais do secretário-geral socialista), uma vez que tal método de campanha caluniadora de adversários políticos se assume enquanto prática corrente em terras do Tio Sam, sem que por isso os Estados Unidos deixem de ser uma democracia. Por ser verdadeiro este facto, parece estar o líder do PSD (telespectador assíduo da CNN ou da NBC) apostado em transportar para o pequeno quintal lusitano o modo de actuar na política que se faz a poente do Atlântico, quiçá partindo do princípio de que, se tudo o mais na nossa sociedade já o foi, porque não americanizar-se também o cenário político-partidário português?
Confirmando a intenção aqui adivinhada, há dias veio Santana convidar a comunicação social para se deslocar aos seus aposentos de Primeiro-Ministro em São Bento, por forma a ser observado o modo como, mesmo num feriado, o chefe de Governo não abdica de trabalhar para servir o país. Chegados ao destino, os jornalistas depararam-se com um Santana Lopes que, qual Bush rodeado da sua família (somente faltando, na versão lusa, os pequenos animaizinhos de estimação), se passeava pelos jardins da residência oficial acompanhado pelos seus filhos. Cenário mais idílico não estará ao alcance dos olhos ou mente humana. Curiosamente, o passeio familiar de Santana levou-o a passar perto da piscina mandada construir por Cavaco (obra que se acredita ter sido motivada por razões que se prendem com o desempenho das funções inerentes a um Primeiro-Ministro) e, a História tem destas ironias, junto ao local aproveitado por Salazar para colocar a leitura em dia.
Pouco mais haverá a acrescentar ao que atrás se descreveu, a não ser que tudo sucedeu numa Terça-feira de Carnaval (nem noutra data seria de esperar). Por referir, talvez somente o facto de Santana Lopes ter ainda aproveitado a presença dos media para explicar a sua ida, no dia anterior, à Base Aérea de Monte Real, viagem que – não julgue Sarmento deter a exclusividade de deslocação nos mesmos – efectuou num Falcon da Força Aérea. Compreender-se-á a opção do Primeiro-Ministro demissionário, porquanto Leiria dista bastantes horas de Lisboa (quase uma volta planetária). Por acréscimo, e conforme fez questão de frisar o próprio Santana, pese a crise sócio-económica que o país atravessa, tornou-se indispensável agravar ainda mais as contas do erário público com a utilização de um Falcon, em virtude de ter surgido a necessidade de exibir junto dos órgãos de comunicação social as potencialidades do nóvel aeroporto civil de Monte Real. Uma justificação inteiramente lógica, visto que – depois da legislatura que ora termina – poderiam os jornalistas já não acreditar na mera palavra do Primeiro-Ministro.
Chegado a este ponto do texto, o leitor pensará encontrar-se subjacente ao mesmo a acusação de que Santana Lopes não hesita em recorrer a meios do Estado na sua campanha eleitoral. Estará assim tão explícito?

A Direita Demissionária No Melhor a Que Habituou Os Portugueses

Quase que em simultâneo com o lançamento do seu livro onde se descreve a obra realizada à frente da Câmara da Figueira da Foz, Santana Lopes lançou um outro livro de título “Eu Faço... e Fez” respeitante à obra produzida nos meses em que presidiu à edilidade lisboeta. Se cada autarca de Lisboa (município tão aliciante para quem pretende fazer carreira na política nacional) lançar um livro, será forçosa a inauguração de um novo arquivo bibliotecário na capital, tendo como requisitos indispensáveis um mínimo de cinco ou seis pisos e nunca uma área inferior à da biblioteca do Convento de Mafra. Seja como for, num país necessitado de maiores índices de leitura, até será de louvar a contribuição dada pelo líder do PSD, com um único erro descortinável no livro de Santana, que deveria antes intitular-se “Eu Faço Uma Cratera no Marquês... e Não é Que Fiz”.
Ainda a propósito de Santana Lopes, o Primeiro-Ministro demissionário candidato a Primeiro-Ministro (sendo difícil discernir entre os dois, tal o uso de meios oficiais na campanha eleitoral) diz no seu blogue, em artigo datado de 4 de Fevereiro último, que o povo é soberano. Tudo bem, o riso será a melhor das terapias em eras de crise, mas convirá não caír no exagero, como o faz Santana quando, desempenhando o cargo de Primeiro-Ministro sem democraticamente ter sido eleito para tal, vem utilizar a expressão acima redigida.
Adiante. Os líderes da Direita têm sido acusados de não saír às ruas na sua campanha. Por muito menos do que aquilo que o Governo de Coligação fez, também nenhum de nós se atreveria a colocar os pés em via pública. Mas, reconheça-se-lhe a coragem, Portas quis provar não se abster de se aproximar do povo e saíu da tenda dos democratas-cristãos, recuperando a velha imagem do Paulinho das Feiras, máscara que noutros tempos tão bem lhe assentava. Assim sucedeu em Aveiro, onde se apresenta enquanto cabeça-de-lista do CDS-PP e onde detém grande número de indefectíveis simpatizantes. Não o fará na Margem Sul, em Setúbal ou em Beja, sabendo-se bem por que ordem de razões.
Por sua vez, Santana Lopes optou por estratégia diferente da do seu parceiro de coligação que já não é e talvez volte a ser. O líder dos sociais-democratas entendeu por bem declarar que já não acredita nas acções e propagandas de rua (crença em tudo conveniente para os laranjas nos tempos que correm), visto serem dispensáveis géneros de campanha do passado onde se percorrem artérias das cidades e vilas munidos de tambores e bandeiras. Não se acreditando nos motivos evocados por Santana para fugir ao contacto com o povo que o não elegeu, será diplomático fingir-se, tal como será diplomático aceitar o argumento do ainda Primeiro-Ministro ao justificar proceder a inaugurações em plena campanha para as Legislativas porque, também em campanha eleitoral no ano de 2001, Sócrates terá afirmado ser dever dos governantes inaugurar obra feita. Pois, mas à época as eleições em disputa eram autárquicas, o que fará uma ligeira diferença.

Com Ovos Destes Se Vai Fazendo a Omolete Da Política Em Portugal

Na blogosfera do Sapo têm, por estes dias de campanha, habitado os blogues dos principais candidatos às próximas Legislativas. Como seria de esperar, dos próprios, dos seus partidos ou do modo como tem decorrido a campanha eleitoral tais blogues não contam a História, apenas relatam a versão conveniente dos factos, ou seja (e por inerência) a realidade distorcida dos acontecimentos e da actualidade política. Contudo, e passando-se adiante (porque algo de diferente não se esperaria), o que mais interessará ler nos referidos endereços electrónicos, mais que os textos publicados pelos líderes das diferentes forças partidárias, são as mensagens afixadas pelo cidadão anónimo. Já alguém reparou como nenhuma fala mal dos líderes políticos a quem pertencem os respectivos blogues? Haverá filtragem de mensagens? Serão algumas delas, numa última instância, tão somente pretensas mensagens de pretensos leitores? Concerteza que não, são tudo falsas impressões de quem não tem o direito de duvidar da profunda seriedade e honorabilidade dos políticos da nação e equipas que os secundam.
Noutro âmbito, a CDU acusa o PSD de colar cartazes por cima dos do seu candidato Jerónimo de Sousa. Parece, enfim, que o bébé já saíu da incubadora, tendo-se refeito das facadas e andado por aí de papel e cola em riste. De facto, a campanha já registava níveis deploráveis de espírito e elevação democrática, mas – por muito que o desespero sirva de atenuante para inúmeros dos actos irreflectidos que se têm cometido – era excusado os seguidores de Santana caírem no exagero.
Falando-se na CDU (que é quase como falar no PCP), começa esta a ter a companhia do Bloco de Esquerda quando se trata de tentar evitar a todo o custo a provável maioria absoluta dos socialistas nas Legislativas. Jerónimo de Sousa já há muito vem travando tal batalha, compreendendo-se que assim seja por somente dessa forma, com maioria relativa do PS no Parlamento, o PCP ganhar força mediante acordos inter-partidários a que Sócrates terá de se submeter ao querer ver aprovadas inúmeras das políticas que tem no prelo ou, em maior grau, ao pretender dar estabilidade e seguimento à sua governação. A novidade, contudo, vem a ser a recente incursão de Louçã por idêntica guerra à maioria absoluta do PS, guerra que curiosamente só teve início agora que Sócrates desfez muitas das dúvidas que restavam acerca da formação de uma coligação pós-eleitoral com o Bloco de Esquerda em moldes em tudo semelhantes àquela outra coligação de má memória que desde a era barrosista até aos dias de hoje juntou (com os resultados que se conhecem) centristas e sociais-democratas.
De qualquer modo, diga-se, não foi por ter maioria confortável que o executivo demissionário actual deu melhores garantias de estabilidade e sucesso governativo ao país, sendo que – pese a tendência do voto útil ao oposto conduza – não será pelo facto de o PS não conseguir larga maioria nas próximas eleições que será fomentada a instabilidade. Produza Sócrates boas políticas e toda a Esquerda (secundada pela opinião pública) terá o dever de se unir em torno delas.

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