sexta-feira, fevereiro 11, 2005

Quantos, Com Idêntica Coragem, Se Juntariam a Freitas Do Amaral?

Porventura para evitar que as comadres se zanguem em demasia, Cavaco Silva veio prontamente desmentir recaír numa maioria absoluta do PS a sua aposta nas próximas Legislativas. Antes, entre a publicação de tal notícia no Público e o dito desmentido urgente de Cavaco, já o Batatinha e Companhia do PSD actual (leia-se, Santana e João Jardim) tinham reagido a mais uma das facadas nas costas que tantas cicatrizes têm deixado no bébé ainda na incubadora. O líder laranja afirmou não acreditar na veracidade da notícia, ao passo que essoutro líder do laranjal insular saíu à praça pública exigindo a expulsão de Cavaco da família social-democrata.
Certo é que, desmentidos à parte, consta mesmo que o ex-Primeiro-Ministro português natural de terras de Boliqueime tem percorrido reuniões de carácter social onde, amiúde, se não coíbe de apostar na hipótese de os socialistas atingirem maioria folgada nas próximas eleições. Aliás, permita-se aqui acrescentar que tal cenário, a verificar-se (e não se caminhará muito distante disso), até estaria longe de desagradar a Cavaco, tendo-se por princípio o facto de este há muito ambicionar mudar-se de malas e bagagens para o Palácio de Belém (desejo em que, curiosamente, é acompanhado por Santana Lopes). Ora, sabendo-se da tendência de o povo português não colocar na governação do país e na presidência do mesmo personalidades afectas a semelhantes cores político-partidárias, Cavaco terá tudo a ganhar no caso de o PS vencer as Legislativas com uma maioria estável que permita aos do Largo do Rato governar, pelo menos, até à data das Presidenciais.
Seja como for, parece estar mais de meio Portugal e, ao mesmo tempo, um PSD e meio à espera do dia 20 de Fevereiro para acenar o lenço branco a Santana. A liderança deste nos sociais-democratas jamais agradou a inúmeras individualidades de topo dos mesmos e, para cúmulo, o modo degradante como tem sido dirigida a campanha eleitoral – pejada de insinuações pessoais de fazer corar a democracia, tivesse ela forma e feições humanas – somente tem agravado as divergências ao nível da estrutura central do partido da Lapa.
Adivinha-se, assim, um congresso extraordinário, no qual Santana deverá ressurgir enquanto candidato a líder do PSD (como já fez saber). A batalha será, no mínimo, mais interessante que a travada na última representação teatral em moldes de congresso realizada em Barcelos. Marques Mendes – para lá do eterno Marcelo Rebelo de Sousa, que soube como ninguém promover a sua imagem nos últimos anos – será um dos candidatáveis ao trono (visto mostrar-se como um dos mais inconformados com a actual situação de crise do seu partido), e o facto de integrar a campanha eleitoral dos sociais-democratas, sendo cabeça-de-lista por Aveiro, longe de representar a sua anuência com a liderança de Santana Lopes, não terá outra intenção que não a de a posteriori se poder apresentar como alguém que não fugiu à luta num dos tempos mais difíceis da História dos laranjas. Assim sendo, tudo dito e resumido, já pouco interessarão as Legislativas; está aberta a caça ao poder no PSD.

Ainda As Fugas De Uns e De Outros e As Palavras Sábias De Santana

Os sociais-democratas, na própria voz de Santana Lopes, não se cansam de repetir à exaustão que votar no PS será colocar no poder aqueles que fugiram em 2001. Pela mesma bitola alinham Morais Sarmento e Eurico de Melo, que fizeram questão de acompanhar o líder do PSD ao seu comício em Castelo Branco (onde, aliás, Morais Sarmento surge enquanto cabeça-de-lista). Afirmou a primeira das referidas personalidades ter Sócrates convidado para aparecer na sua campanha alguém que há cerca de quatro anos fugiu, tendo deixado o país afogado num pântano. Por seu turno, o antigo Vice-Presidente de Cavaco Silva, Eurico de Melo, preferiu enfatizar o facto de nos laranjas ninguém ter desertado. Posto tudo isto, se por enésimas vezes aqui tal já foi realçado, não custará relembrar o Presidente do PSD e os seus seguidores de que também na História do Portugal contemporâneo existiu um José Barroso que fugiu para Bruxelas no momento oportuno em que ficou claro como água que o país, navegando à deriva, se encaminhava para o naufrágio em que hoje se encontra (sendo que, desta feita, tão pouco sobraram posses para adquirir uma tanga que o cubra).
Eurico de Melo ousou ir mais longe no seu discurso ao exortar os órgãos de comunicação e os adversários dos sociais-democratas a não brincarem aos arrufos. Não será, em específico, a comunicação social que Eurico de Melo pretenderá atingir com as suas palavras, uma vez que esta se limita a – com maior ou menor mediatismo – repercutir o que vai decorrendo na sociedade e a, mormente, traçar o relato da actualidade política nacional. Não serão também os membros ou líderes dos partidos de Esquerda, porquanto nestes não terá tido origem o levantamento de insinuações pessoais ou de assuntos colaterais às verdadeiras matérias que interessa discutir no momento presente de Portugal. Será (isso sim) a ânsia de, com o seu discurso, Eurico de Melo fazer calar as inúmeras vozes que, de forma incómoda, dentro dos próprios sociais-democratas se levantam contra o líder do partido, nem que para isso se vejam, ele e outros, na contingência de categorizar enquanto arrufos uma contestação interna que tem como remetentes personalidades tão marcantes do PSD como o são Cavaco, Pacheco Pereira, Manuela Ferreira Leite ou Marques Mendes.
Mas volte-se a Santana Lopes e às maravilhosas pérolas que, sempre que discursa, vai soltando aqui e ali. Segundo o raciocínio por si expresso, o Governo que ainda lidera terá feito o trabalho mais difícil, querendo agora os socialistas entrar num comboio que já vai em andamento. Por vezes, e esta será uma delas, vê-se o cidadão forçado a concordar com Santana, dado que, na verdade, a tarefa árdua foi concretizada pelo seu executivo (não sendo de excluir uma justa divisão dos louros com o Governo de Barroso), pois seria humanamente impossível conseguir-se a proeza de colocar Portugal num patamar social e económico mais deplorável que o actual.
Santana Lopes solicitou o emprego do sentido de justiça no voto dos portugueses. Cumpra-se a sua vontade votando-se nos seus oponentes.

Iniciaram Os Pastores a Lavagem Do Cérebro Dos Seus Rebanhos

A Igreja, enquanto instituição, sempre se distinguiu das demais por lhe não serem exigidas obrigações fiscais, privilégio que, a não ser que os democratas-cristãos subam ao poder (já tudo se esperará depois de Santana Lopes o ter feito), somente a recente revisão da Concordata parece querer rectificar. Ainda assim, muito embora as referências a este propósito tragam sempre à berlinda o mundo do futebol, nunca a Igreja prescindiu de se imiscuir na política nacional sem que – num Estado cuja laicidade se encontra defendida na própria Constituição – seja repreendida por o fazer.
Na actual campanha eleitoral não poderia a Igreja, pelo que se disse, deixar de pretender influenciar o voto da população que assiste às suas homilias, tirando proveito do catolicismo que é comum à maioria da mesma. Assim sendo, em São João de Brito, Lisboa (exemplo tomado entre tantos outros que se repetirão pelo país fora, com previsível maior incidência nas comunidades rurais), um sacerdote não se coibiu de apelar aos fiéis presentes – e àqueles que assistiram à missa transmitida pela Antena 1 – para não votarem em forças políticas que admitam a prática da interrupção voluntária da gravidez, o divórcio ou o casamento homossexual. Somente mais uma demonstração da intolerância religiosa que sempre foi apanágio, no caso, da Igreja Católica, ou a prova provada de que, para esta, existem os filhos de Deus e os filhos de Belzebú.
É inadmissível a ingerência da Igreja Católica na vida política do país. Poder-se-á aceitar a realidade indesmentível de a mesma, na sua essência, assentar em princípios retrógados, mas não que se apresente enquanto instituição defensora da moral e bons princípios, apelando a uma rejeição do voto em programas eleitorais indignos da ética cristã, sobretudo quando se sabe ter a referida ética cristã, na História da Igreja, estado ausente em momentos cruciais da Humanidade, tal como sucedeu nos tempos da Inquisição ou, bem mais perto no tempo, aquando do apogeu do Nazismo, quando a Santa Sé se manteve confortavelmente silenciosa face aos genocídios que se sucediam em plena velha Europa.
O planeta está povoado de tragédias, conflitos e barbáries impulsionados pela religião, nas suas mais distintas facetas ou dimensões, e as tolerâncias que a mesma prega sem nunca praticar. Quem é católico (e existirão bastantes nos partidos de Esquerda portugueses) poder-se-á arrogar ao direito de pretender fazer prevalecer sobre terceiros a sua noção de ética, mas não a possuirá em grau superior à de quem – por opção da sua consciência – é agnóstico ou, mesmo, ateu. O desenvolvimento das sociedades prova, inclusive, verificarem-se os maiores atentados à liberdade da condição humana nas civilizações onde a presença da religião no poder político é mais vincada.
Por certo a intervenção da Igreja na campanha para as Legislativas terá vindo no melhor momento para democratas-cristãos e, mesmo, sociais-democratas. Mas virá sempre no pior momento para a democracia e vida política de um Estado que, sabendo-se dos princípios ortodoxos e ultrapassados por que se rege a Igreja Católica, não só é como se quer cada vez mais laico.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Os Zézés Camarinhas Da Política e Quem Pode Opinar Sobre o Aborto

Em entrevista publicada n’ A Capital, edições impressa e online de 7 de Fevereiro, Isaltino Morais defende não ter sabido Sócrates lidar com os boatos alimentados em torno da sua pessoa ao se abster de vir a público confirmar, em tempo útil e de forma inequívoca, a sua heterossexualidade. No fundo, e face a insinuações despoletadas no seio das mais proeminentes figuras da actual liderança do PSD (facto que, por si só, é bem revelador da amplitude da crise e desorientação que assola o partido laranja), deveria ter o secretário-geral socialista produzido um obrigatório comunicado à nação com o propósito de ser defendida e atestada a sua masculinidade. Colocando de parte o ridículo de toda a questão, admita-se que, e no seguimento da inqualificável campanha eleitoral que se tem testemunhado, só faltaria mesmo alguém afirmar ter todo o político que se apresente a eleições democráticas a obrigatoriedade de revelar publicamente tendências sexuais que se inserem na esfera da sua vida privada e nunca mais que isso.
Face a esta posição agora transmitida por Isaltino Morais (própria de uma mente tacanha e regida por falsos moralismos) mais não sobrará por dizer, até porque não abundarão no léxico português palavras capazes de retratar a dimensão da consternação que grassará em cada um de nós ao constatar serem políticos como estes aqueles que mais existem em Portugal. Ainda assim, as afirmações de Isaltino, despidas de outro mérito, caracterizam a o PSD de hoje, porquanto um partido – tal como uma instituição ou qualquer outra entidade – é aquilo que as pessoas que em dado momento o preenchem pretendem que seja. Por isto (e muito mais) não deixa de ser adequada a forma como também n’ A Capital se faz anunciar um caderno versando a História dos PPD/PSD, rezando assim: “[...] A História de um verdadeiro partido de poder: [...] da fundação de Sá Carneiro à vitória de Cavaco Silva. [...] dos dez anos de cavaquismo à deriva populista de Santana Lopes [...]”. Sem mais.
Num registo, ainda assim, bem diferente e mais elevado (sem prejuízo de se mostrar discordância, ou não, em relação ao mesmo), Agustina Bessa-Luís, entrevistada n’ O Independente de 4 de Fevereiro, afirmou somente às mulheres ser devida a legitimidade de se pronunciarem num referendo sobre o aborto. Cara senhora, curvando-me em claro sinal de respeito, permita que outros tenham a liberdade de se distanciar do seu pensamento e de cometer a ousadia de julgar que, se ao homem deverá ser exigido o cumprimento com obrigações resultantes do sustento e educação dos filhos, não será de todo insensato conceder-lhe o direito de ser escutado no âmbito da discussão sobre a despenalização da lei da interrupção voluntária da gravidez ou, mesmo, na hora da tomada de uma decisão concreta sobre o nascimento, ou não, de uma criança que – porque a ordem natural das coisas assim o exige – também não deixa de ser sua. Não pretendendo este texto afirmar-se enquanto prosa pregadora da verdade absoluta e inquestionável, será tão descabido pensar-se assim? Talvez seja.

O Êxodo Migratório Para as Beiras Regenerou o Ar Da Grande Urbe

Santana Lopes afirma querer obrigar a banca a pagar mais impostos. Tendo no pensamento este louvável propósito, de que somente alienígenas e outras formas de vida extra-terráquia não duvidarão, convidou Alberto João Jardim (quiçá o seu único apoiante mediático no PSD) para abrilhantar o comício em Castelo Branco. Ora, por estar João Jardim longe de encarnar o papel de símbolo maior do combate pró-crescimento da tributação fiscal junto da banca (ou não fosse a Madeira uma zona franca por excelência), bem como por não poder o líder madeirense apresentar-se enquanto exemplo máximo da democracia em Portugal, a escolha para assinalar o arranque da campanha oficial dos laranjas para as Legislativas não poderia recaír em melhor personalidade. No mínimo, elucidativo.
Persistindo no assunto acima aberto, teve a cidade albicastrense oportunidade de servir de palco aos comícios debutantes das campanhas oficiais dos dois maiores partidos portugueses. Comícios concorridos e aos quais não faltou, como em semelhantes ocasiões, a contagem de espingardas (velha expressão que descreve fielmente a realidade dos factos). Só que, como se sabe, a angariação de público capaz de desempenhar funções de figuração em comícios eleitorais obedece a pisados e repisados estratagemas partidários que hoje já ninguém se preocupa em esconder. Foi assim que, a pouco tempo de se iniciar o comício dos socialistas, ainda autocarros alugados descarregavam pessoas; e foi assim que, para lá do transporte, o PSD encomendou litros de vinho e porcos a rodos para, gratuitamente (como é bom de ver), saciar o ávido apetite de quem se propusesse a assistir ao comício social-democrata.
Abrindo hostilidades há muito inauguradas, os da Lapa e os do Largo do Rato pediram aos portugueses a maioria absoluta. Será extraordinária a destreza demonstrada pelo PSD ao formalizar junto do povo tal pedido, quando muitos cacos permanecem por limpar da agonizante legislatura que ora termina. Do mesmo modo, a ser intenção dos socialistas governar sem políticas de Direita, também se não entenderá a premência de tal maioria, dado (com maior ou menor dificuldade) a estabilidade governativa não saír ameaçada ou comprometida ao serem promovidas, junto dos comunistas e do Bloco de Esquerda, consonâncias que não deixarão de surgir com naturalidade em resultado da prática de políticas de Esquerda que, enquanto tal, interessarão à mesma em toda a sua extensão.
Por terras da Beira Baixa também passaram, convidados por Santana, Eurico de Melo e Morais Sarmento. Dois homens, dois discursos eloquentes. O primeiro solicitou a confiança no líder laranja, dizendo que será um bom Primeiro-Ministro, muito embora os meses de estágio já contabilizados tivessem confirmado o oposto; o segundo lembrou a fuga de Guterres, omitindo a de Barroso. A rematar, e colocando a cereja no bolo, não terá entrado mosca, mas (uma vez mais) saíu asneira da boca de Santana ao afirmar, ipsis verbis: «A proposta do engenheiro Sócrates é o governo de António Guterres sem o Engenheiro Guterres (...). Em contrapartida, nós somos o governo de Durão Barroso e do meu Governo”. Depois disto, alguém encontre melhor incentivo ao voto na Esquerda.

Referendar Ou Não Referendar, Eis a Questão (Com Resposta Por Dar)

Santana Lopes afirmou não se opôr à realização de novos referendos em Portugal, mormente versando a despenalização do quadro legal por que se rege a interrupção voluntária da gravidez. Contudo, do mesmo modo o líder do PSD afirmou não serem os sociais-democratas quem os irá propôr. Posto isto, uma pergunta exigirá resposta: e opor-se-ão, porventura, os sociais-democratas a uma qualquer proposta vinda de um partido da Esquerda com assento na Assembleia da República no sentido de ser referendada a IVG? É que, bem vistas as coisas, somente a possibilidade aqui questionada se levantará, dado não ser crível tal iniciativa partir da bancada parlamentar do... CDS-PP.
Em matéria de referendos sobre a IVG, diga-se, também já há algum tempo os socialistas revelaram a sua posição favorável à despenalização de tal lei, embora defendendo dever caber ao povo a decisão final, dado já antes este ter sido consultado sobre a mesma temática e, por acréscimo, ter sido expressa a vontade popular de ser mantida a legislação actual. Até certo ponto, será coerente a posição do PS, não sendo legítimo enfatizar-se o facto de não ter tido carácter vinculativo o referendo já realizado, pois não deve a manifestação democrática do pensamento de uns ter menor valor que o pensamento desses outros que, em maior grau defendendo a liberalização da prática do aborto, nem assim se incomodaram em acorrer às urnas.
Ainda e sempre no que concerne a referendos, os socialistas revelaram uma posição distinta da anteriormente citada no que respeita à regionalização. Tendo a mesma sido igualmente já referendada (com reprovação da alteração dos actuais moldes de administração do território), os socialistas entendem, contudo, não ser a próxima legislatura o momento adequado a que os portugueses novamente se pronunciem sobre a matéria. Aparentemente incorre na contradição o PS quando se mostra favorável a novo referendo sobre a IVG e, simultaneamente, defende o adiamento de um referendo sobre a regionalização por (pelo menos) mais quatro anos. Nela não pretendendo incorrer, somente uma justificação poderá dar: a de um país em crise sócio-económica dever dirigir para a resolução de necessidades de primeira linha investimentos que, a ser aprovada a regionalização, seriam absorvidos pela descentralização ou deslocalização de poderes e serviços estatais. Todavia, ainda que seja esta a justificação, acrescente-se dever ser sempre concedida aos portugueses uma explicação plausível e consistente.
A bem da verdade, diga-se, toda a eterna discussão sobre a realização, ou não, de referendos seria evitável caso (nas questões que o justifiquem) fosse estipulado deverem os mesmos realizar-se ciclicamente, sendo revelada em diferentes momentos da História do país a posição do povo sobre determinadas matérias. Assim não acontecendo, competirá sempre aos partidos representados no Parlamento a liberdade de decisão sobre a sua ocorrência, o que não seria grave na eventualidade de na AR, mais do que as conveniências e interesses políticos, ser privilegiada a vontade perceptível da população portuguesa (o que não seria pedir muito, já que com o dever de representar tal vontade foram eleitos os deputados que no hemiciclo se sentam).

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

Dois Antigripine Após Cada Refeição e, Sobretudo, Repouso Absoluto

Não sendo pretensão deste blogue patrocinar uma qualquer campanha de perseguição pessoal ou política a quem quer que seja, porquanto tal comportamento poderia colidir com potenciais direitos autorais já registados em nome de Bagão Félix no âmbito da sua perseguição encetada a Freitas do Amaral, será impossível deixar passar em claro o discurso batanesco proferido por Pires de Lima em pleno Pavilhão Rosa Mota, no Porto (onde se apresenta enquanto cabeça-de-lista do CDS-PP), há uns dias atrás. Certamente impulsionado por uma casa bem composta que o fez julgar ter o país diante dos seus olhos (sabe-se lá quanto dinheiro o partido ou a concelhia do mesmo teve de investir na disponibilização de autocarros), Pires de Lima deu largas à arte do stand-up comedy ao afirmar ter Portugal três, e não dois, candidatos a Primeiro-Ministro, incluíndo no rol dos elegíveis – estará claro de ver – nada menos que Paulo Portas. Ora, não perfazendo os apoiantes dos democratas-cristãos uns magros dez por cento do eleitorado nacional, nem a maior das ambições explicará o devaneio trazido agora a público por Pires de Lima.
Bem se sabe terem as temperaturas frias sentidas nas últimas semanas contribuído de sobremaneira para a propagação de surtos gripais, os quais – quando desprovidos de medidas preventivas ou atempada medicação – acarretam sempre com eles a aparição de febres altas. Todavia, independentemente de existir ou deixar de existir uma óbvia relação de causa-efeito com as referidas febres, quando o paciente tende a revelar inequívocos sintomas de alucinações e perda de noção da realidade (mormente perceptíveis pelo défice de sentido das suas palavras e maior incapacidade para articular um discurso pautado por uma aceitável linha de coerência e rasonabilidade), então passa-se da mera maleita curável mediante o descanso caseiro e a administração da medicação receitada pelo médico de família, para um caso bem mais sério de doença unicamente tratável mediante internamento hospitalar. Dito isto, desejam-se por antecipação as esperadas melhoras a Pires de Lima, uma vez parecer o enquadramento patológico descrito nas linhas anteriores encaixar que nem uma luva na sua situação.
Não sobram, assim, dúvidas de que a febre do poder tomou de assalto, a toda a largura, as hostes centristas. Assalto em tudo semelhante àquele que nas últimas legislaturas o CDS-PP intentou à governação do país, pois só dessa forma se compreende que uma força partidária de tão baixa expressão nacional se arrogue ao direito de sentir ser-lhe legítimo a gerência dos destinos da nação. Felizmente que, como sucederá com o surto da gripe, também o estado febril que ora aflige os democratas-cristãos será debelado, estando prevista a cura das suas gentes (e doutras de tez alaranjada) lá para a noite de 20 de Fevereiro. Seja como for, será oportuno acrescentar que, concordando-se com Francisco Louçã, se nos últimos meses o país carregou sobre os seus ombros o fardo da liderança de um Primeiro-Ministro não democraticamente eleito, em maior grau suportaria a liderança de um futuro Primeiro-Ministro eleito por um liliputiano grupo de cinco, oito ou dez por cento dos portugueses.

Mesmo Com Ordem De Despejo, Ainda Se Discutem Lugares Na Casa

A legislatura de Santana Lopes assumiu, em todo o seu fastidioso percurso, a imagem de uma manta de retalhos composta por políticas avulsas de duvidoso objectivo e outros enésimos episódios destruidores da estabilidade governativa que, face ao diferente cenário diariamente encontrado, tão pouco conseguiu ser salvaguardada pelo suporte da maioria de Direita construída a cuspo e fita-cola numa Assembleia da República que há muito deixou de ser representativa da vontade do povo. Serve o presente intróito para exemplicar essa nova tirada de Santana, o qual ainda agora, em fim de longo e extenuante mandato de quatro meses e uns tantos pós, deu a conhecer mais um desses episódios que, mais que o sangue, lhe brotam das veias.
Escassas vinte e quatro horas após se ter encontrado com Sócrates, no contexto de um pretenso debate eleitoral transformado em tempo de antena (com os candidatos socialista e social-democrata a desenrolarem os seus ultrapassados discursos do faço isto e prometo aquilo), Santana Lopes afirmou, na RTP, não contar com Bagão Félix para o seu Governo, caso seja eleito. Este facto, por si só, obriga aqui à abertura um parêntesis com o intuito de serem inseridas duas importantes notas: em primeiro lugar, não poderá falar-se em possível reeleição do actual Governo (e Santana não o terá feito), porquanto o mesmo nunca antes se sujeitou ao voto popular em Legislativas, inclusive se se quiser considerar a era barrosista (a Coligação de Direita que assumiu os destinos do país resultou de um acordo pós-eleitoral); em segundo lugar, será extraordinária a possibilidade levantada por Santana (e na qual nem o próprio acreditará) de o Governo ainda em funções ser ofertado com novo mandato, após a experiência vivida nas duas últimas legislaturas.
Seja como for, e retomando-se o raciocínio inicial, Santana afirmou claramente prescindir da contribuição de Bagão Félix num futuro Governo por si encabeçado. Ora, ainda que encontrando-se temporariamente suspenso o matrimónio que une PSD e CDS-PP, sabe-se estar o reatamento do mesmo unicamente dependente da vitória dos sociais-democratas nas Legislativas, desde que a esta não seja averbada uma maioria confortável dos laranjas. Tudo bem, face à condição atrás descrita, e como uma vitória do PSD a 20 de Fevereiro será inimaginável, estará decretado por antecipação o divórcio entre Portas e Santana (ou quem lhe suceder). Contudo, alimente-se a fantasia e admita-se a possibilidade de o PSD vencer as eleições sem maioria absoluta. Tal cenário, a efectivar-se, trará com ele o reatamento da união de Direita, tendo o CDS-PP direito a percentagem negociável das cadeiras ministeriais. Sendo Bagão Félix uma das personalidades de proa do partido de Portas, mesmo contra a vontade de Santana não estarão os democratas-cristãos dispostos a prescindir da mais-valia que constitui ter nas suas fileiras o mentor do (para os empresários) inolvidável código do trabalho. Face a tudo isto, onde se sentará Bagão e como será resolvido o imbróglio agora criado? Fácil, não tendo Santana de engolir nenhum sapo ou tão pouco descalçar alguma bota. Pura e simplesmente perderá as eleições. Problema solucionado.

Porque Ao Povo Ainda é Devido o Direito De Ser Quem Mais Ordena

Parece a cada dia mais difícil a tarefa de esconder a ansiedade alimentada pela aproximação da hora que ditará a libertação do país das garras da Direita que tudo fez para prender nas suas mãos os destinos da nação, ora celebrando coligações pós-eleitorais para dar vazão a estritos interesses partidários privilegiadores da tomada do poder pelo poder, ora impondo chefes de Governo por uma qualquer espécie de sucessão dinástica igualmente privilegiadora da tomada do poder pelo poder e nada mais do que o poder. Valha a Portugal essa vantagem que a República sempre terá sobre toda e qualquer Monarquia (mesmo que parlamentar ou coisa que o valha) e que poderá ser resumida ao facto tão simples quanto relevante de o cidadão – na plena posse de todos os seus direitos democráticos, e nunca destes desprovido – poder enviar para o depósito inter-municipal de resíduos sólidos quem não cumpre o dever de corresponder ao cumprimento das necessidades e anseios do povo e, óbvio será, da sociedade em que o mesmo se insere, como é obrigação de quem ocupa cargos públicos criados para ser servido o país e não os políticos ou classes que lhes são mais próximas.
Ainda que neste derradeiro aspecto acima frisado muitas arestas subsistam por limar na República que temos, é por tudo quanto atrás se disse que na noite de 20 para 21 de Fevereiro voltará a ecoar, por muitos lares de Portugal, a velha “Grândola, Vila Morena”. O mote, por demais conhecido, faz com que não seja caso para menos, sendo que a revolução, desta feita, será feita nas urnas (como é próprio da democracia).
O Governo, desenhado nos gabinetes do eixo PSD/CDS-PP, à margem da vontade expressa pelo povo, cairá por desejo deste (como também é próprio da democracia).Já alguém um dia afirmou ser o povo sereno. Face à degradação política e ao calamitoso cenário sócio-económico que envolve o país, só por o ser (bem como por não se situar noutro continente) Portugal conseguiu evitar, nestes últimos anos, a ocorrência de um golpe de Estado. Do mesmo modo, também só por o povo ser sereno ninguém mais do que ele ou em seu nome mostrou saber esperar pela hora certa de agir, a qual se aproxima a passos largos. Saiba-se agora aproveitar a singular oportunidade que se abre para ser levada a bom termo a limpeza geral de que carece o poder governativo português, varrendo-se para longe quem nele hoje se senta, e não somente para debaixo do tapete, já que o lixo (tal como o azeite) tornará a vir ao cimo. A não acontecer essa necessária limpeza de que o país precisa como de pão para a boca, morrerá na praia quem neste pedaço de terra desenvolve a sua vida, infortúnio que se não desejará a quem revelou força e coragem para ultrapassar meses infindos de naufrágio social e económico. Ninguém lúcido, ainda assim, acreditará nesta última possibilidade, pois sendo o povo quem ainda mais ordena, avizinha-se a hora de a Direita saír de cena.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Da Febre Do Poder De Uns e Dos Erros De Ortografia De Outros

Num artigo publicado no blogue O Acidental a 2 de Fevereiro último, e intitulado “Pergunta ao Manel” (o da Nova Democracia que, tal como Freitas do Amaral, já foi do CDS ou do PP ou de algo semelhante), quem assina a autoria do seu conteúdo – respondendo pelo nome Bernardo Pires de Lima – atreve-se a dividir o espectro partidário português em três divisões e, mais, arroga-se a incluir na primeira destas aqueles a que entendeu apelidar de partidos do arco democrático: o PS, o PSD e o CDS-PP. Bem se sabe que, sendo o blogue em causa assinado por individualidades afectas ao partido da democracia-cristã, noutra divisão que não na primeira seria impensável encontrarem-se os centristas. Contudo, reconheçam-se ser legítimas as reservas que aqui se possam levantar por se pensar ser um tanto ou quanto presunçoso da parte de Pires de Lima querer colocar o partido de Portas e C.ª lado a lado com socialistas e sociais-democratas, quando se sabe não perfazer o eleitorado do CDS-PP um décimo da população votante portuguesa.
Como se não bastasse o que atrás se disse, considerar o CDS-PP enquanto um dos três pilares da democracia em Portugal não poderá deixar de suscitar certa estupefacção, porquanto a forma como o mesmo nos últimos anos se imiscuiu no poder governativo do país foi tudo menos democrática, seja do ponto de vista ético ou doutro qualquer, visto não terem sido os portugueses tidos ou achados num conluio de Direita em tempo algum sufragado nas urnas. E nem agora, nas Legislativas que se aproximam, o vai ser, pois os nubentes Santana e Portas encarregaram-se de suspender o seu matrimónio, a bem de uma maximização de votos que só mesmo quem é democrata-cristão (e, portanto, deposita fé nos milagres da Cristandade) pode acreditar vir a acontecer, face ao terramoto social, político e económico que assolou o país nas duas últimas legislaturas.
Avance-se na matéria e, como por inúmeras vezes sucedeu em textos anteriores, saia-se de novo às ruas tomadas de assalto por cartazes eleitorais de pobre gosto e pior imaginação. Pois é, vira o disco e toca o mesmo. Não há, todavia, como fugir ao assunto. Lembrar-se-á o leitor de já ter sido comentado neste endereço o outdoor de Santana Lopes que afirma saber o povo quem ele é. Tudo quanto há a dizer em relação a tão brilhante cartaz já foi dito e, por isso, serão excusadas novas considerações. Todavia, por detrás do retrato de Santana, onde são descritas algumas das obras atribuídas ao ainda Primeiro-Ministro da nação, deu quem redige estas linhas com a maravilhosa referência (e transcreve-se na íntegra) a um tal «Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz». Assim mesmo, com um espectacular «Espetáculos» sem C antes do T. Não fosse saber-se do estado da educação em Portugal e seria indesculpável o erro primário cometido. Ou será que já foi assinado algum acordo ortográfico luso-brasileiro sem que tal tenha sido publicitado? Lá pelos Jerónimos, são tantas as voltas que Camões deve dar no túmulo...

Sócrates e Santana Ao Vivo e a Cores Num País De Cinzento Vestido

Enquanto pelo estrangeiro George W. Bush veio apontar os próximos alvos da sua política de invasões destinadas a libertar o mundo dos longos braços do terrorismo (encontrando-se o Irão e a Síria em linha de fogo), cá pelo universo lusitano prepara-se o povo para mais umas semanas de suplício até que a campanha eleitoral termine e – ainda que por pouco tempo – se dissipe um tanto mais a frente nebulosa político-dégradé que vai sobrevoando o país.
Na passada Quinta-feira tiveram os portugueses a oportunidade de ver Sócrates e Santana num tão ansiado frente-a-frente televisivo onde mais não desfilaram que os discursos pré-formatados e as habituais e estafadas promessas eleitorais. Mesmo que em maior ou menor grau abordadas, ficaram uma vez mais por dissecar e esclarecer de modo sério e profundo as temáticas da justiça e da educação (sequer afloradas), da saúde (igualmente esquecida no debate), do desemprego e da perda real de poder de compra dos portugueses, matérias claramente deficitárias de urgente discussão num contexto nacional de profunda crise sócio-económica que tem levado as classes média/baixa portuguesas a gastar os últimos anos nesse eterno confronto com as alternativas diárias da corda no pescoço ou da cabeça no cepo. Porventura inúmeros dos telespectadores terão aproveitado o tempo que durou tal debate eleitoral para reforçar a prática do zapping, visitando os comparativamente mais apelativos Canal 2 ou Mezzo, em dias normais com registos de audiência média inferior à das temperaturas polares que têm afligido o país. Seja como for, ao menos um mérito se conceda a tal debate (ainda que o mesmo mais não tenha confirmado que o sentimento há muito nutrido): evidenciou a premência de se proceder a uma renovação da classe política portuguesa, por muito que, com tantos interesses instalados, se apresente árdua a tarefa de encontrar vivalma nas novas gerações detentora de coragem ou capacidade para a levar por diante.
A contrastar com os temas de profunda actualidade e preocupação nacional a carecerem de ser debatidos na real acepção do termo, e não (como foram) incluídos em oratórias eleitoralistas ensaiadas à exaustão nas horas que precederam a da entrada em estúdio, no debate de Quinta-feira houve ainda tempo para serem chamados à discussão os famigerados temas que, não perfazendo a agenda das prioridades e preocupações primárias dos portugueses no contexto sócio-económico actual, têm preenchido grande parte da campanha para as Legislativas: os insultos pessoais e os boatos colocados a circular, os casamentos homossexuais e (louve-se a oportunidade da questão) a clonagem. Pergunta-se: a quem se procura deitar areia para os olhos, desviando as atenções para assuntos colaterais àqueles que verdadeiramente se encontram no cerne do drama do dia a dia dos portugueses? Pelo bem de todos, conceda-se aos políticos deste país um voucher de ida, e somente de ida, para Bali ou para os antípodas. Pensando melhor, conceda-se-lhes uma visita às luas de Marte ou aos anéis de Saturno, já que assim terão os portugueses a garantia de os mesmos ficarem ocupados numa viagem que, valha isso, durará largos anos.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?