sexta-feira, fevereiro 04, 2005

A Tradição Já Não é o Que Era, Mas a Direita Anda Igual a Si Mesma

A ninguém neste país terá passado despercebido o relevante facto de a campanha eleitoral que se testemunha não ser caracterizada pelo outrora tradicional calcurrear de feiras e mercados levado à prática por Paulo Portas. A sua postura dos últimos anos enquanto membro do Governo de Coligação fez caír a máscara do político defensor dos oprimidos, necessitados e mais idosos da sociedade, ditando a inevitável mudança de estratégia na corrida para as presentes Legislativas. E tão pouco Portas ou a Direita, em toda a sua extensão, se atrevem a fazer campanha de rua, indo ao encontro das populações. Nada que se estranhe, porquanto a obra realizada nas duas últimas legislaturas faria do confronto directo dos líderes do PSD e CDS-PP com o povo uma experiência árdua de digerir, tanto na perspectiva dos primeiros quanto dos últimos.
Se a História raramente se repete, quando o faz é enganado quem quer. Santana Lopes ainda vai remando contra a maré ao afirmar serem os sociais-democratas quem se encontra ao lado dos portugueses ditos comuns, ao invés do PS que se associou à alta finança e aos empresários. Se se quiser pegar neste derradeiro aspecto, talvez até tenham sido os socialistas a formatar o novo código do trabalho que, permita-se a adenda, clama por revogação. Possa a Esquerda a subir ao poder (porque só à Esquerda, no cenário actual, será admissível fazê-lo) partilhar desta opinião, sendo certo que mais depressa será sepultado o código de Bagão e da Direita caso o PS vencedor nas Legislativas necessite de se aliar a Louçã para obter maioria inequívoca na Assembleia. Esta convicção, acrescente-se, não surgirá do nada, antes advindo do facto de somente o Bloco de Esquerda (e aqui regista-se o manto de silêncio do PCP) ter ousado exigir a revogação de tal diploma castrador de direitos dos trabalhadores adquiridos em três decénios de liberdade democrática e, portanto, política, social e tudo o mais que se queira evocar.
Avance-se na matéria e reedite-se aqui um tema por demais aflorado neste blogue: o dos cartazes eleitorais. Mais um saíu à rua e, confirmando a regra, mais um dos sociais-democratas prende a atenção. Quem não recordará o primeiro dos outdoors do PSD onde figuravam figuras de destaque dos laranjas e que pereceu ainda na incubadora (expressão tão cara a Santana) por ter parado a digestão a Cavaco após se ver retratado ao lado do ainda Primeiro-Ministro? Pois bem, entenderam os operadores de marketing da campanha eleitoral do partido em epígrafe ressuscitar a ideia subjacente a tal cartaz e, caçando com gato, não querendo nele serem retratadas as individualidades do PSD, passam a sê-lo as individualidades dos socialistas, tais como Edite, Cravinho e o próprio Sócrates. Atinge o apogeu a campanha pela negativa que monopoliza os cartazes dos sociais-democratas, com o apontar do dedo aos defeitos do adversário quando se pretendem esconder os podres e défices de qualidades próprios. Consequência: recai a discussão no plano da escolha, não de quem será melhor para o país, mas de quem será menos pior.

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Quando Santana Lopes Abre a Boca, Ou Entra Mosca Ou Sai Asneira

Noutros tempos da política nacional ousou Cavaco descer o nível de discussão da sua campanha eleitoral quando, por ser maioritariamente católica a população de Portugal, não demonstrou pejo em recorrer ao tema da religião e da fé para cativar votos. Passados estes anos repetem-se as estratégias. Na actual pré-campanha para as Legislativas, Santana Lopes pretendeu seguir estratagema em tudo idêntico ao adoptado noutra era por esse D. Sebastião do PSD que – como enésimas outras figuras de proa – faz questão de se demarcar da sua actual liderança. Mas Santana, ainda assim, cometeu a maior ousadia de condimentar a sua campanha com uma pequena, mas significativa, distinção: desceu ainda mais o nível do debate quando, na pretensão de agradar à população católico-conservadora, rebuscou no baú das alarvidades o tema da homossexualidade enquanto flagelo da sociedade moderna a combater e repudiar.
Portas, como se esperaria de um partido ainda mais ortodoxo nos seus ideais e valores, assinou por baixo a posição dos sociais-democratas. Santana, esse, foi mais longe, valendo a pena – a este pretexto – lerem-se as edições online do DN e TSF de 2 de Fevereiro. Embora negando tê-lo feito, o líder do PSD (tomado pelo desespero que se apodera da sua campanha) não se imiscuiu de invadir a vida privada do candidato a Primeiro-Ministro pelo PS ao, num almoço de campanha realizado em Braga perante um milhar de simpatizantes do sexo feminino, insinuar ter Sócrates outros colos num inequívoco contexto de resposta à intervenção de uma apoiante que afirmou ser Santana ainda do tempo em que os homens escolhiam as mulheres para companheiras (haverá discussão mais profícua para o país?).
Certamente por não existirem temas de maior actualidade e preocupação nacional, todo o almoço-comício em causa foi povoado por referências sexuais vindas das mais altas esferas do PSD nestas eleições apresentado ao país, facto que, por si só, torna inadmissível o mero desejo de Santana e seus pares continuarem a gerir os destinos de Portugal quando os mesmos possuem mentalidade imprópria da pós-modernidade. O país, felizmente, saberá dar a resposta certa no momento oportuno.
O caricato assume proporções tsunamianas em Santana Lopes. E por muito que tente atribuir diferente roupagem a tudo quanto já teve ocasião de dizer nas últimas semanas, mais não consegue fazer que apagar labaredas com álcool etílico ou, caminhando velozmente para o abismo, prender uma bigorna aos calcanhares. Cai no ridículo o PSD quando pretende passar-se por vítima de lobbies das empresas de sondagens ou da poderosa banca e dos empresários (espantosa afirmação vinda de um partido de Direita); cai no ridículo Santana quando, em Portalegre, acusou os socialistas de imporem temas na campanha eleitoral, tendo ele próprio (quando o fez) levantado o da homossexualidade, de hilariante pertinência no momento de crise sócio-económica que o país atravessa; e cai no ridículo Pedro Pinto, Vice-Presidente social-democrata, quando acusa Sócrates de nada ter feito pelo país, pois não tem sido este a (des)governar Portugal e, para mais, tudo quanto Santana fez pelo país o país desejaria que não tivesse feito.

O Docente Da Hipocrisia e o Despejo Anunciado Do Inquilino Santana

Paulo Portas deslocou-se à Sinagoga de Lisboa com o intuito de vender a ideia de não poder o CDS-PP, pelo facto de defender a construção de uma sociedade portuguesa balizada por valores bem vincados, ser catalogado de partido da intransigência e intolerância atentatórias ao livre pensamento e condição de todo o ser humano. Quase que em simultâneo, numa acção em tudo concertada e alinhavada com o líder do PSD (seja honrada até ao último minuto a lealdade por que se pauta o definhante matrimónio que une centristas e sociais-democratas), Paulo Portas não hesitou em – quiçá por actualmente não existirem demais assuntos susceptíveis de despoletar preocupação junto dos portugueses – utilizar tempo de pré-campanha eleitoral para revelar a sua oposição à celebração de casamentos homossexuais em Portugal. Ora, segundo se depreende pelas mesmíssimas palavras proferidas pelo líder democrata-cristão à entrada da Sinagoga de Lisboa (ou seria saída?), somente por não prevaricarem em matéria de tolerância para com o próximo e respeito pelas convicções e liberdades de terceiros se poderá compreender esta posição por estes dias revelada. Ou não?...
Mudando de assunto, embora não em demasia, o outro cônjuge da Coligação de Direita não discursou à porta da Sinagoga de Lisboa, mas arrisca-se a ser o primeiro chefe de Governo da nação a, por democrática deliberação do povo, debutar na arte de ser destituído do cargo de Primeiro-Ministro sem, por semelhante democrática deliberação do povo, algum dia ter sido eleito para tal. Ou seja, os portugueses jamais lhe abriram a porta da residência oficial de S. Bento (Sampaio prestou as indispensáveis mordomias e honras da casa), mas aprestam-se para lha fechar, soliticitando a devolução das chaves e, se necessário, envidando esforços no sentido de procurar nova morada para o Dr. Santana algures no hemisfério Sul, em latitude e longitude nunca inferior à da Patagónia ou Ilhas Falkland.
No fundo, se se quiser acrescentar, quando num dos numerosos outdoors eleitorais que poluem a grande urbe é apontada a nova lei do arrendamento como uma das maiores obras do executivo de Santana Lopes, deverá o líder social-democrata encarar o seu despejo da anteriormente referida residência oficial de S. Bento (aprazado para o longínquo dia 20 de Fevereiro) como a mera vivência pessoal da realidade que inúmeros inquilinos deste país irão experimentar quando (e se) for implementada a frisada reforma das rendas. Seja como for, independentemente do rumo a atribuir à mesma, o qual deverá ser a Esquerda a ditar (a tempo se verá se a viragem do poder significará o fim das políticas de Direita), Santana já não se livrará de mudar de endereço e abandonar as imediações da Calçada da Estrela, podendo a sua viagem terminar logo ali nessa outra vivenda oficial situada em Monsanto e cujas chaves se encontram depositadas na Câmara Municipal de Lisboa, já que a cega e desregrada ambição política que lhe não permitiu recusar uma sui-generis ascensão a Primeiro-Ministro em maior grau lhe possibilitará regressar à edilidade alfacinha como se de lá somente tivesse saído com licença sem vencimento.

quarta-feira, fevereiro 02, 2005

Medidas Para Eleitor Ver e o Incremento Da Emigração Na Classe Alta

O Governo da Direita, penosamente ainda em funções, jamais se apresentou capaz de tomar decisões que sabia poderem desagradar a maiores ou menores segmentos da população portuguesa. Foi assim que delegou nos estabelecimentos de ensino a fixação dos valores das propinas, tal como do mesmo modo delegou nos estabelecimentos de restauração e diversão nocturna a proibição do livre acesso a fumadores.
Seguindo raciocínio em nada díspar daquele acima referido, Santana e seus apaniguados decidiram, numa das suas últimas (in)acções, adiar para data posterior às Legislativas a actualização do imposto sobre o tabaco e, por inerência, o aumento dos preços da sua venda ao público. Antes já haviam adoptado semelhante procedimento no que concerne à actualização dos impostos sobre os combustíveis e, incorre-se na repetição, consequente aumento dos preços finais. Não se pretendendo promover neste texto a conspiração infundada, é por demais evidente a relação patente entre as atitudes do Governo atrás frisadas e a tentativa de não serem hipotecados votos nas eleições que se avizinham, chegando o populismo básico e ultrapassado de que se revestem a ser ofensivo para a inteligência que os portugueses possuem e que a classe política teima em desvalorizar.
Mas fale-se, uma vez mais, de impostos e crise, já que esta última está condenada a ser paga por quem não pode fugir ao fisco: as classes trabalhadoras por conta de outrém. Às outras, as mais abastadas (em muito maior grau identificadas com a Direita e vice-versa), ser-lhes-à permitido continuarem a passear as suas viaturas topo de gama e os seus fatos Armani, Gucci ou Chanel pelas avenidas nobres de Lisboa, ainda que sejam forçadas a suportar o peso financeiro das suas excentricidades e nível de vida com os míseros rendimentos que declaram obter.
Situemo-nos. Vem tudo quanto se diz a propósito da notícia veículada pelo JN de 31 de Janeiro, nas suas edições tradicional e online, onde números redondos revelam o crescimento abrupto (será este o termo mais suave que se pode empregar) da evasão fiscal em Portugal, comprovando-se a incompetência (ou será antes anuência?) revelada pelos derradeiros governos de Direita no modo como lidaram com a prática instalada da fuga aos impostos. Nos últimos três anos, coincidentemente aqueles que assistiram ao crescimento da Direita e seu acesso ao poder, diminuiram em esclarecedores 92% a quantidade de agregados com rendimento superior a 250 mil Euros/ano, passando os mesmos, por obra de magia que os próprios Copperfield e Luís de Matos desconhecerão, de 26,802 para 2,144. Cifras que a crise económica sentida não justifica, ainda mais quando a redução em 70% do número de declarações incluídas no escalão de maiores posses não é compensada pelo aumento noutros escalões.
Dito e resumido, desaparecem num hiato de três anos cerca de 25 mil ricos em Portugal, não tendo os mesmos empobrecido, já que grande parte tão pouco surge em escalões de menores rendimentos. Bem se sabe que as eras de crise fomentam a emigração, mas não terá ficado sequer uma moradia habitada na Quinta da Marinha ou em Vilamoura?

O Cine-eleitoral De Santana e Os Malefícios De Certos Matrimónios

Por muito que ainda não tenha sido ultrapassada a fase da pré-campanha relativa às Legislativas de Fevereiro, Santana e o seu rebaptizado PPD deram já a conhecer as linhas metras do argumento em que se baseará todo o filme da sua odisseia eleitoral. Assim, após ter sido acusada a banca de promover a dissolução da Assembleia da República, após ter sido levantada a polémica em redor dos debates televisivos de que foge Sócrates e que o próprio Santana também faz por adiar, após terem sido acusadas as empresas de sondagens da autoria de forte cabala e maquinação contra a Direita no seu todo, e após o líder social-democrata ter vindo a público revelar a sua posição ideológica (e do partido) contra o casamento homossexual, desafiando as restantes forças partidárias a se pronunciarem sobre a matéria em apreço, não restam dúvidas de que o objectivo primordial do PSD passa por – para além de apresentar a dissolução do Parlamento e agendamento de eleições antecipadas enquanto consequência de uma tramóia da Esquerda com a qual anuiu Sampaio – tentar concentrar as atenções da comunicação social e da opinião pública no acessório, desviando-as do essencial, isto é, da importante discussão dos problemas que actualmente afligem os portugueses e pertinente avaliação da desastrosa legislatura de Santana e respectiva trupe de Direita e Centro-Direita.
Ainda a propósito do tema da celebração de matrimónios de pendor homossexual, assunto de clarividente actualidade agora suscitado por Santana Lopes (porque tudo o mais em Portugal caminha sobre rodas, não existindo problemas de índole social, económica ou outra que possam exigir preocupação ou debate), não deixa de ter base de sustentação a posição liminarmente desfavorável a tais casamentos adoptada por Santana (a qual muito terá agradado aos democratas-cristãos, ou talvez não, dado a intenção poder ser a de piscar o olho ao seu eleitorado), isto tendo como exemplo as nefastas consequências produzidas por essoutro casamento entre seres humanos de idêntico sexo e que tão más recordações ainda vai gravando na memória do povo. Fala-se, obvio será, do matrimónio político celebrado entre Santana (em substituição do anterior nubente Barroso) e Portas, enquanto líderes do PSD e CDS-PP, no estrito objectivo de ser assegurada uma governação liberta de avaliação no Parlamento.
Os resultados de tão nocivo noivado – a que, como é hábito, não faltam os arrufos, as desavenças e, num episódio recentemente colocado em exibição, as separações com retorno temporário (ou não) à casa dos pais – estão hoje bem patentes em todos os aspectos da vida diária, sendo que tão pouco a maioria de Direita por tal via construída conseguiu garantir uma estabilidade de poder que vivalma jamais foi senhora de sequer vislumbrar. Nem algo de diferente poderia suceder, já que à mesma faltou sempre, neste caso, a legitimidade para assumir as funções de Primeiro-Ministro que nunca se reconheceu a Santana Lopes, para além de outras tantas qualidades de que também jamais foi detentor, começando (desde logo) pela dúvida depositada nas suas capacidades de liderança, dentro ou fora das paredes da casa do PSD.

terça-feira, fevereiro 01, 2005

Os Impostos, o Poder Pelo Poder e o Governo Em Fim De Festa

Até mesmo o mais distraído dos cidadãos, ou o indivíduo mais avesso ao hábito da leitura que ocasionalmente se passeie pelas ruas da cidade lisbonina, teve a possibilidade de ler na manchete d’ A Capital, na Sexta-feira da semana transacta, uma notícia referente às dívidas ao fisco apresentadas pelo ainda Primeiro-Ministro deste rectângulo à beira-mar plantado, na sequência de atrasos (já corrigidos, diz-se) respeitantes a alguns dos pagamentos devidos ao Estado. Ora, será em tudo inadmissível existir imprensa da nossa praça que se arrogue ao direito de encher cabeçalhos e primeiras páginas com notícias corriqueiras como aquela a que se alude, uma vez que, tendo por princípio o contexto do país em que todos nos situamos, se quem pode pratica a fuga ao pagamento de impostos, será em muito maior grau compreensível que quem mais pode mais assim proceda, nem que seja enquanto sinal de respeito por toda uma tradição há muito enraizada. Por acréscimo, faz tempo que a velha máxima de que o exemplo vem de cima pereceu, tendo o seu ritual fúnebre sido escrupulosa e respeitosamente cumprido pelas classes política, empresarial e liberal deste país que vão construíndo e apresentando fortuna somente comparável, na sua dimensão, ao despudor intrínseco a quem foge ao fisco sabendo poder fintar obrigações de cidadania e vivência em sociedade face à passividade e complacência de quem, na rede da fiscalização, se limita a capturar o mexilhão.
Impostos à parte, em Coimbra teve Luís Nobre Guedes a oportunidade de afirmar estarem a Esquerda e o PS apostados em conquistar o poder pelo poder. Fê-lo, curiosamente, na Quinta das Lágrimas, onde teve lugar a famosa tragédia de Pedro e Inês e onde, passado tanto tempo, nova tragédia foi vivida com a mera circunstância de marcar presença Paulo Portas. Mas, sobretudo, em toda a sua plenitude surgiram a despropósito as afirmações do ainda ministro responsável pela pasta do ambiente, por se saber (como se sabe) que não foram os socialistas quem estabeleceu alianças de Direita com o objectivo de obter maioria absoluta no Parlamento e garantir cadeiras ministeriais. Nisto de política e partidarismos, está visto que os telhados de vidro constituem um conceito arquitectónico muito em voga.
Coberturas envidraçadas à parte, com a anunciada despedida (agendada para 20 de Fevereiro) do actual Governo de Coligação, já nem será necessário dispenderem-se energias complementares no intuito de justificar a premência da substituição dos actuais rostos no poder, de modo a ser encerrado um negro capítulo do ciclo político nacional e concedido novo fôlego à esperança de melhoria da qualidade de vida dos portugueses. Ao invés, não fosse bem real a contagem dos últimos cartuchos antes do adeus a Santana e Portas e faria todo o sentido a inclusão nestas linhas de uma moderna e reformulada versão do conhecido Manifesto Anti-Dantas de Fernão Mendes Pinto, passando o mesmo a rezar assim: O GOVERNO DE DIREITA É HORROROSO! AS POLÍTICAS DO GOVERNO DE DIREITA CHEIRAM MAL! O GOVERNO DE DIREITA É NEFASTO A PORTUGAL! MORRA O GOVERNO DE DIREITA! PIM!

Chame-se a GNR e a Judite, Que Andam a Tramar a Direita Injustiçada

Freitas do Amaral, já noutro texto disso aqui se falou, veio a público anunciar a sua intenção de votar PS nas próximas Legislativa, facto que terá provocado séria indisposição a uma Direita actual que não merece a sua confiança. Estará Freitas a procurar alargar o seu leque de simpatizantes, piscando o olho a uma fatia da Esquerda com o propósito de reservar lugar na corrida às futuras Presidenciais? Não importará, por agora, descobri-lo.
Interessará, ao invés, fazer notar a reacção difundida pelo Governo ainda em funções, na voz de Bagão Félix, ripostando a posição manifestada por Freitas do Amaral com o facto de este, sem aviso prévio, ter emitido – no âmbito das funções por si desenvolvidas – parecer desfavorável à actuação do mesmo Governo de Coligação aquando do célebre caso da transferência dos fundos de pensões dos trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos com o intuito de ser tapado o buraco do défice. Só que o enredo não finda aqui, sucedendo-se à reacção governamental a contra-reacção de Freitas, que veio já responder à altura da situação, desafiando o Ministro das Finanças a demiti-lo e arcar com a responsabilidade da decisão. E Freitas do Amaral disse mais, ainda que mais não dissesse que o que já se sabe: o Governo da Direita que hoje existe não perdeu tempo em persegui-lo enquanto confesso opositor, a exemplo do que sucedeu no caso Marcelo. Perante esta realidade, nunca no pós-25 de Abril outro executivo conseguira espalhar em seu redor um odor tão salazarento como aquele que a Direita de hoje exala.
Noutra novela, Santana e Portas jogaram mais achas na fogueira da conspiração e cabala políticas ao se declararem alvos de manipulação praticada nas sondagens vindas a lume. Somente mais um episódio da tese da vitimização, ou de como após os media PSD e CDS-PP procuram agora condicionar as empresas de sondagens, impedindo que o desespero que tende a assolar as hostes destes partidos assuma dimensões incontroláveis à medida que a data das eleições se aproxima e começa a ditar leis o vale-tudo populista.
Provavelmente Santana e Portas terão razão nesta sua nova frente de batalha, já que a actuação desenvolvida pela Direita no Governo levará a crer ser perfeitamente exequível e expectável a ultrapassagem, nas próximas eleições, da fasquia dos 99,9 pontos percentuais para o conjunto dos dois partidos (consideremo-los assim, honrando o casa-descasa que os une). Na verdade, face ao desafogo económico e bem-estar social vividos, a que se deverá adicionar a estabilidade governativa que sempre se assumiu enquanto regra, somente por acção de um enorme complot político de contornos maquiavélicos poderá ser admitida a não recondução do Governo de Coligação nas Legislativas, porquanto Santana e Portas tudo fizeram nos últimos tempos para, qual deuses do Olimpo, guiar Portugal ao mais etéreo dos paraísos, e tudo continuarão a fazer na senda desse objectivo, assim os deixem trabalhar (onde teremos já ouvido isto?). Já agora, terá acreditado na veracidade do que neste parágrafo se disse quem se dignou a lê-lo? Quem o escreveu, não...

segunda-feira, janeiro 31, 2005

Novos Cartazes Da Direita, Novos Rogos Ao Voto Na Esquerda

Parece sina comentarem-se neste blogue outdoors eleitorais, a isso obrigando o elevado sentido criativo dos mesmos. Comprovando-o, e tendo já aqui sido mencionada pelo mesmo propósito, veio a Juventude Social-Democrata (apostada em auxiliar o contestado líder dos laranjas) lançar dois novos cartazes que, não mais que isso, revelam o seu inequívoco padecimento de sintomatologia crónica em tudo semelhante à ostentada por Santana (o que pressupõe a confirmação de doença do foro hereditário), facto que a faz incorrer no disparate por cada vez que abre a boca ou a algo de parecido se predispõe. Desta feita, no primeiro outdoor surge José Sócrates como alvo explícito, questionando-se as obras e vitórias que se lhe conhecem. Não poderia saír de modo mais inoportuno o tiro pela culatra aos sociais-democratas, porquanto a Santana Lopes também se não reconhecerão obras de assinalável grandeza que não a da trincheira do Marquês, ao passo que em matéria de vitórias a maior terá sido a de ser empossado Primeiro-Ministro sem submissão a sufrágio universal.
O cartaz em foco aponta tuta e meia de outras vitórias do líder do PSD. Todavia, entre estas surge a contribuição para a reforma da lei do arrendamento, quando esta ainda não saíu do papel e, a saír (aguarda-se com expectativa a atitude a adoptar pela Esquerda que, certamente, formará governo após as eleições de Fevereiro), terá o condão de unicamente provocar gáudio no privilegiado lobby de proprietários que, vivendo no limiar de uma pobreza franciscana de fazer prantear as pedras da calçada, anseiam por enriquecer à conta da especulação arrendatária.
Adiante. Na sequela do primeiro outdoor referido, outro de idêntica singularidade veio a público. Nova frase, agora respeitante a Santana, mereceu destaque: “Este sim, sabe quem é”. Questão de algibeira a merecer resposta de igual categoria, visto não poder o povo desconhecer quem tomou as rédeas do país sem magna deliberação do mesmo, quem atacou incessantemente a classe média/baixa e concedeu benesses aos sectores privilegiados da sociedade, quem retirou direitos adquiridos a trabalhadores e famílias, quem não soube travar o ritmo crescente da taxa de desemprego, quem fomentou favorecimentos pessoais e interesses partidários na ocupação de altos cargos públicos, quem espalhou incompetência e agravou o deplorável estado de um ensino a cada dia mais elitista, quem fez proliferar a instabilidade governativa e atentou contra a liberdade e pluralidade dos meios de comunicação, quem não inverteu a tendência da degradação do nível de vida e decadência sócio-económica, quem não quis estancar a evasão fiscal por parte das empresas e profissionais liberais, quem pretendeu impôr taxas moderadoras a quem já desconta para aceder ao serviço nacional de saúde, quem assinou por baixo tudo isto e o mais que a indispensável concisão não permite mencionar.
Quando a JSD pretende lembrar quem é Santana, o mais caricato é que, a bem da angariação de uma maior votação nas Legislativas, até conviria ao PSD promover uma fascina cerebral junto da população, apagando-lhe da memória o cadastro de Santana Lopes e sua tríade construído em parcos meses de legislatura.

Corta a Fita, Descerra a Lápide (Mais o Apelo De Freitas do Amaral)

Santana não se cansa de calcurrear o país num incessante rol de inaugurações, transportando para o continente a postura populista que, sendo igualmente muito sua, por tantas mais vezes em semelhantes épocas de campanha eleitoral costumava ser levada à cena por Alberto João Jardim, algures no meio do Atlântico (sim, fala-se desse mesmo Alberto João que não hesita em demonstrar profunda afeição pelo ainda líder do PSD, ou não fossem eles, Santana e Jardim, o espelho um do outro).
Será usual dizer-se que só procede a inaugurações quem se dignou a fazer obra. No entanto, a assim ser, uma dúvida sobeja: terá Santana Lopes, em parcos quatro meses de desastrosa legislatura, lançado, erigido e finalizado obra suficiente para perfazer o considerável número de mais de uma dezena de inaugurações em menos de vinte e quatro horas, como sucedeu há poucos dias? Não caberá aqui esclarecê-lo, sendo que, na verdade, de pouco interessará. Porquê? Tão simplesmente porque, por muitas inaugurações apressadas de obras acabadas e inacabadas que se levem a efeito, não podem Santana e o PSD esquecer-se de que cá pelo país continental (onde a democracia, por muito que contra ela atentem, ainda dá lições à do arquipélago madeirense) mora um povo que contabiliza cerca de trinta anos de liberdade vivida, o que contribui para que o mesmo já pouco ou nada se deixe endrominar por encenações políticas da estirpe da relatada.
Mas, dado o país não parar para assistir aos cortes de fita e descerrar de lápides de Santana Lopes, há poucos dias veio Freitas do Amaral, num artigo publicado na revista Visão, anunciar aos sete ventos a sua intenção de votar PS nas próximas Legislativas, uma vez que – no seu entendimento – Portugal necessita, mais que nunca, de uma maioria absoluta dos socialistas. Não se sabe se o raciocínio expresso por Freitas do Amaral é partilhado pela esmagadora fatia dos portugueses. Sabe-se, isso sim, que o apelo ao voto no partido de Sócrates vem, desta feita, de alguém que não será propriamente de Esquerda, facto que – se evidências continuassem a faltar – não deixa de ser ainda mais significativo do pântano (noutra conjectura associado a Guterres) em que se tem vindo a afundar a Direita, carregando com ela toda a nação. E sabe-se também algo tão ou mais importante e que passa por um sentimento que os cidadãos deste país terão em comum: com ou sem maioria absoluta concedida ao PS, interessará a Portugal não repetir o erro de ceder a governação do país a esta pseudo-unida Direita, como sucedeu quando Barroso foi eleito. Pelo menos não enquanto a mesma se não reciclar e regenerar profundamente, procedendo-se a uma limpeza de balneário que comece no treinador e acabe no apanha-bolas. Ou, melhor dizendo, se se quiser trazer a lume uma matéria tão cara a Sócrates, pelo menos não até que os rostos que hoje a povoam sejam incinerados no Outão, Souselas ou Gronelândia (algo por que tanto ou mais anseia quem sempre foi de Direita). O povo fornecerá os fósforos.

Da Arte Da Fuga e Dos Impostos Que Não Nascem Para Todos

Portas não perdeu tempo e veio já comentar o pedido que Guterres lançou no sentido de ser concedida a maioria absoluta ao PS. Referiu Portas que tal pedido carece de legitimidade por provir de alguém que abandonou o cargo de Primeiro-Ministro que lhe fora confiado pelo povo (confiança popular que Santana jamais experimentou). Esqueceu-se o líder dos democratas-cristãos do singelo facto de, quando Barroso foi nomeado por Sampaio como Primeiro-Ministro de um Governo de Coligação ainda hoje existente na sua segunda encarnação (e no qual o CDS-PP desde o início participou), também o então líder dos sociais-democratas não ter hesitado em desertar mal verificou o abismo para que o país estava a caminhar. A diferenciá-lo da atitude de Guterres esteve a mera mas muito oportuna sorte de ter surgido na melhor altura o alibi da Comissão Europeia.
Ainda assim, acrescente-se, quando alguém manifestamente não possui as qualidades necessárias ao desempenho de determinadas funções de responsabilidade pública, o acto de o reconhecer e ceder o lugar a quem de maiores capacidades, mais que um louvável comportamento de humildade, sê-lo-à de desapego ao poder pelo poder. Guterres, se não outro, teve esse mérito; Santana e Portas, pese a sua indisfarçável incompetência, não o demonstram ter, já que o narcisismo político de que padecem em nada lhes concede margem de manobra para reconhecer serem em si bem maiores os defeitos que as qualidades.
O Governo de Coligação, a exemplo dos anteriores, não conseguiu nem procurou combater a evasão fiscal que grassa por todos os cantos do país. Caso, no âmbito de uma séria e profunda política de combate à fuga aos impostos por parte das empresas ou pessoas colectivas e dos profissionais liberais, fosse atingida uma maior eficiência na obrigação de se fazer cumprir as deduções fiscais, nos anos mais próximos não teriam os cidadãos de ver agravado o seu nível de vida com o, por seu turno, agravamento dos impostos. Contudo, foge quem pode, e quem mais pode é quem mais tem. À classe política são bem mais próximos os estratos médio/alto da sociedade, bem como as elites empresariais e patronais, pelo que serão sempre os mesmos a pagar as crises, isto é, quem não pode fugir a trabalhar por conta de outrém e, portanto, cumprir com todas as suas responsabilidades.
Entretanto, numa obra propagandística de cosmética, veio o Ministro das Finanças Bagão Félix cerrar fileiras diante dos clubes de futebol, pressionando-os no pagamento das dívidas fiscais. Não deverão os mesmos ser absolvidos das suas obrigações. Todavia, sabe-se ter sido esta derradeira frente de batalha do Governo muito habilidosamente despoletada em plena pré-campanha para as Legislativas, prendendo-se o motivo com o facto de o mundo do futebol não navegar em boas considerações junto da opinião pública (em muito devido às gentes de nenhuma honorabilidade que o povoam). Assim, embora as dívidas dos clubes constituam uma gota de água no oceano do incumprimento fiscal em Portugal, não poderá existir matéria mais mediática e populista para levantar no momento actual da superliga político-eleitoral portuguesa.

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