sexta-feira, janeiro 28, 2005

Verdade De Ontem, Mentira De Hoje – A Lei Das Propinas Revisitada

Há não muitos meses houve oportunidade de escutar, por Miguel Sousa Tavares, uma das mais imbecis observações que o Portugal contemporâneo e pós-moderno já pôde testemunhar. Referiu (no Jornal Nacional da TVI, e não nos Batanetes, como tudo faria crer) desenvolverem estudos no Ensino Superior Público os cidadãos com melhor nível de vida do país. Olhando para o seu umbigo e para o daqueles que rodeiam a sua vida de folgadas posses, referiu-o com a desfaçatez de quem não desce ao mundo para conhecer a realidade e com a ignorância própria de quem toma a excepção pelo todo.
Talvez Sousa Tavares possua razão e, por serem abastados, largas franjas dos discentes do Ensino Superior Público, quando desterrados, optam por se alojar em pequenas e velhas arrecadações travestidas de quartos, pertença de quem se não coíbe de limitar banhos semanais, restringir utilizações da cozinha, impor horas de desligação de luzes e decretar a proibição do uso de aparelhos televisivos ou outros passíveis de consumir electricidade. Talvez assim seja. E talvez abundem mais os Jeeps, os Passat e os Vitaras às portas das universidades públicas do que diante das Lusíadas, das Autónomas e das Lusófonas. Talvez. E talvez o Pai Natal e a Branca de Neve existam...
A elitização do Ensino Superior Público está instalada. Aceitaram impavidamente esta realidade Sampaio e os constitucionalistas da nação, mal grado explicitar a carta magna em que assentam os pilares da República Portuguesa dever o ensino público, tal como a saúde (onde se quis estabelecer taxas moderadoras), ser tendentemente gratuito. E assim o mérito da inteligência é substituído pelo dos cartões de crédito. Estuda quem pode, enchem-se as universidades públicas com os filhos dos ricos e dos novos ricos, equiparam-se os estudantes do Ensino Público àqueles outros a quem (em inúmeros casos do sector privado) notas de admissão jamais foram exigidas, promove-se a regressão do ensino em Portugal.
Poder-se-ía julgar serem as elevadas propinas actuais próprias de um Governo de Direita bem mais conotado com as classes favorecidas da sociedade. Engano. Ao que consta, também os socialistas (que, sabe-se, formarão Governo em Fevereiro) parecem apostados em deferir políticas educativas elitizantes do executivo PSD/CDS-PP. É o que se depreende da entrevista exposta no Diário Económico online a 25 de Janeiro último, concedida a Madalena Queirós por Augusto Santos Silva (apontado como futuro Ministro da Educação, do Ensino Superior ou de ambos). Enfatiza-se o facto de não existirem condições para baixar as propinas de licenciatura na próxima legislatura. A actualização do seu actual valor, em função da inflação, será a regra a cumprir, sendo que o valor da propina máxima definido pelo executivo de Santana será mantido pelo PS.
Em 1995 os socialistas pretendiam mudar a lei de financiamento; em 1997 propunham uma propina indexada ao salário mínimo nacional; agora prometem não mexer nas propinas existentes. A verdade de ontem é a mentira de hoje. Das forças políticas, somente o PCP e o Bloco de Esquerda propõem abolir as propinas. Haja alguém de Esquerda com políticas de Esquerda.

Há Dias Em Que o Maior Espectáculo Do Mundo Até o Consegue Ser

Abandonando neste blogue, por uma vez que seja, a temática política, abra-se espaço para abordar, enfim, o ópio do povo. E, não deixando de o ser, não se trata de uma referência à religião em si mesmo, mas sim a um costume bem mais prosaico e profano: o futebol.
A última eliminatória da Taça de Portugal, anteontem disputada, fez um Estádio da Luz lotado viver uma das noites de mais eficaz propaganda ao desporto-rei e ao futebol português tantas vezes (com motivo) menosprezado. Benfica e Sporting disputaram uma autêntica final europeia de clubes, em nada inferior a um qualquer embate entre os maiores emblemas da Premier League, Scudetto, Bundesliga ou Liga Espanhola. Serviu o grandioso espectáculo produzido para, logo no seu término, se atacarem os velhos do Restelo que fazem profissão da crítica ao défice de qualidade do futebol praticado em terras lusas. Contudo, nem tanto ao mar, nem tanto à terra, já que nem o futebol português é (dentro das quatro linhas, e só aí) tão mal como se acusa, nem tão bom como pode fazer crer o duelo a que se assistiu. O derby vivido foi especial por isso mesmo, isto é, por estarem em confronto dois eternos rivais que, assim, contribuíram para a atmosfera sentida em redor da partida, a que também ajudou a estranha ausência de crispação nos dias anteriores ao encontro.
Um só caso de arbitragem merece destaque em toda a partida (evidencie-se o espanto). Hugo Viana foi expulso, após agressão a João Pereira. O Sporting grita, a pulmões cheios, ter havido injustiça. Nem tanto. Mais que criticar-se o jogador benfiquista, dever-se-ão acicatar responsabilidades a Hugo Viana pela atitude imatura e despropositada, dado provir de alguém que ostenta um currículo que já lhe deu oportunidade de tomar conhecimento dos erros de comportamento a evitar num jogo de futebol. O soco existiu, não foi obra de realidade virtual, e a serem medidos ou calculados graus de intensidade, ter-se-ía de escalpelizar cada lance do encontro. Para mais, qualquer jogador de futebol no lugar de João Pereira (com jersey vermelho, às riscas verdes, listas azuis ou bolinhas rosa) reagiria do mesmo modo e com a mesma teatralização, facto que é do pleno conhecimento de quem pratica futebol e que só contribui para considerar ainda mais infantil a atitude de um profissional com experiência nacional e internacional adquirida, como o é Hugo Viana. Talvez, neste ponto estabeleça-se a diferença, com outro futebolista que não João Pereira a situação fosse distinta num singelo ponto: teriam os espectadores assistido a uma encenação francamente melhor, digna de figurar nos palcos do Tivoli ou do D. Maria II, caso o jogador em foco se chamasse Jardel, João Pinto ou... Liedson. Ora, será precisamente este último aspecto aquele que ilegitima a indignação do Sporting no lance enfatizado, porquanto nas suas fileiras pontifica o melhor dos actores em actividade no campeonato português.
Balanço final: venceu o Benfica, mas sobretudo (com a contribuição do Sporting e de todos os envolvidos) o futebol de aquém e além-fronteiras.

Navegar, Navegar, Ir à Blogosfera e Voltar – Do Que Se Fala Por Aí (2)

O blogue do MnE passa assiduamente os olhos por esse outro blogue bem mais reputado da Quadratura do Círculo. Por lá visionou algumas missivas enviadas para a referida morada pelos espectadores de tal programa. Algumas, pela sua perspicácia, merecem leitura e releitura, sendo por isso aqui reproduzidas com a devida menção aos seus autores. A temática, já por distintas vezes neste MnE aflorada, versa as dezenas de nomeações para cargos públicos levadas a cabo pelo actual Governo de (pormenor de não somenos relevância) gestão. Leiam-se:

Milhares de nomeações – Paulo Correia
(publicado no quadraturadocirculo.blogs.sapo.pt, via quadraturadocírculo@sic.pt)

«Está à vista de todos como - mais uma vez em fim de mandato - se perpetua o sistema do caciquismo. Mesmo por parte dos governantes mais reputadamente sérios e honestos não há aparentemente opção possível senão nomear os apaniguados para isto ou para aquilo, afinal tanto faz...
Um jornal avança com um numero incrível de nomeações ultima hora deste governo ! Ironicamente podemos comentar que em escassos meses desta governação o país conseguiu descobrir 2500 abenegados cidadãos que encontram a sua vocação na devoção à causa pública!
Mas a situação ainda vai no adro. Muitos outros devotados cidadãos aguardam, numa enorme fila de milhões, a sua vez de se devotarem a tão nobres funções. Com o panorama eleitoral que se avizinha, legislativas e autárquicas, teremos um ano em grande! Não devia ser nisto que falava o falecido Dr. Sá Carneiro quando enaltecia a Sociedade Civil; algo se perdeu (e alguns ganharam) no entretanto.
Por favor tirem-me deste filme! Ainda se pode votar no partido anarquista? Ou os anarquistas tambem já estão todos à mesa do Poder?»

Gastos na Função Pública – Margarida Lucas
(publicado no quadraturadocirculo.blogs.sapo.pt, via quadraturadocírculo@sic.pt)

«Há muito que tento chamar a atenção para o facto de, na Função Pública, se gastarem rios de dinheiro a pagar acumulações de funções a consultores recrutados entre compadres e amigos, directamente ou através de firmas.Esta opção é má porque tais criaturas não trazem mais valias e não raro, repetem para pior, o que já está consolidado. (isto não exclui a necessidade de a F.P. precisar de uma grande volta, sobretudo a nível de chefias temorosas e politizadas). Também os jovens licenciados ficam de fora e a Administração Pública não forma novos quadros. Finalmente o professor Adriano Moreira declarou no programa Prós e Contras, o montante, enorme, gasto por este governo com tal prática. Será que desta vez tal matéria irá merecer comentário (...)?»

Aos textos expostos, tudo quanto se lhes acrescente não acrescentará nada. Aliás, quem fala assim, mais do que gago, arrisca-se a não ser (com toda a certeza) tomado por ignorante. Ainda que os políticos assim o (nos) considerem.

quinta-feira, janeiro 27, 2005

“Red Nose Attack”, Num Outdoor Próximo De Si (...e o Médio Oriente)

Ninguém, reportando-nos ao mundo dos seres racionais, espera que a Direita vença as próximas Legislativas. Todavia, e colocando-se de parte a intenção da comparação de realidades em tudo díspares, do mesmo modo ninguém esperava que Bush e os Republicanos continuassem enquanto inquilinos da Casa Branca por mais um mandato. Assim, todo o cuidado será pouco.
Nas últimas intervenções, muito neste endereço se tem criticado os cartazes eleitoralistas dos diferentes partidos, com ênfase para os do PSD e CDS-PP, dado as mensagens pelos mesmos veiculadas serem pautadas por um aguçado sentido imaginativo e de oportunidade susceptível de fazer ressuscitar almas penadas. Contudo, durante alguns (poucos) dias alguém percorreu a cidade das sete colinas (não, não se trata de Roma) e, de forma tão concertada quanto genial, entendeu prestar serviço público e cumprir o seu dever de cidadania ao ornamentar os outdoors das principais forças políticas – ou, mais especificamente, os narizes dos retratos dos líderes das mesmas – com colossais círculos vermelhos em tudo semelhantes àquelas outras bolas que servem de adereço aos artistas-palhaços deste e doutros países. Poder-se-ía afirmar, pela originalidade desde sempre empregue pelo Bloco de Esquerda na defesa das suas causas, ser esta mais uma iniciativa da franja jovem e rebelde atraída por este partido. Todavia, nem Louçã escapou à praga do nariz vermelho. Terá, por isso, Jerónimo de Sousa andado pela longa e animada noite alfacinha de escadote, cola e papel na mão, já que foi este o único dos candidatos às Legislativas a salvar a sua extremidade nasal?
Seja como for, num país livre deverá ser concedido o direito à manifestação, pelo uso da força da palavra ou de qualquer outro modo, desde que a mesma não ultrapasse os limites do respeito pela liberdade, dignidade e honra do próximo. Neste caso, tê-lo-à feito? Por certo tais cartazes constituirão, em si mesmos, um atentado em tudo maior à inteligência do comum cidadão e, para mais, o enfeite rubro-nasal de Sócrates, Santana, Portas e Louçã não deixa de ser uma mais do que compreensível, e nada subliminar, alusão ao espectáculo circense em que caíu a classe política portuguesa, sem distinção de cores, embora numas (aquelas que, tendo a oportunidade de governar, desviam o país do trilho certo) mais que noutras.
Deixando a política interna em banho-maria, no plano internacional torna-se pertinente, quando as Nações Unidas celebram o sexagésimo aniversário sobre a libertação do campo de concentração de Auschwitz, verificar até que ponto o conflito israelo-palestiniano fez, em pouco mais de meia centúria, esfumar-se todo o capital de simpatia e solidariedade que a população ocidental nutria por um povo judaico tão brutalmente martirizado (sob o manto de silêncio conivente da Santa Sé) numa Europa que, erroneamente, encara o holocausto como algo que terá sucedido há séculos atrás. A Palestina está condenada a transformar-se num Estado livre, como Timor Lorosae o esteve. E se, ao invés da luta armada e suicida, mais cedo enveredasse pela sensata força das palavras (a outro propósito acima referida), mais cedo e com maior legitimidade o seria.

Como Navega De Vento Em Popa a Barca da Ridicularia Política

Santana e Portas discutem, comício após comício, qual dos dois partidos foi e é o garante da estabilidade governativa em Portugal. No fundo, será como um casal discutir quem arruma melhor a casa, quando tão pouco existe casa. Ou seja, mais que procurar saber qual das duas forças partidárias em causa legitimamente deverá assumir a paternidade da estabilidade, interessará descobrir o paradeiro da mesma, o qual não será Portugal, com toda a certeza.
Não fugindo em muito ao tema, num cartaz eleitoral (mais um) o CDS-PP exibe a seguinte frase: “A estabilidade é útil a Portugal”. Sê-lo-ía, muito logicamente. Ainda assim, e pese o erro na aplicação do tempo verbal, está respondido porque motivo a Direita não pode retomar os comandos da governação. Na verdade, e depois de mais este brilhante exemplo propagandístico, com justiça deverá ser realçado o facto de cada outdoor ou intervenção dos nubentes temporariamente desavindos Santana e Portas acabar por constituir o melhor e mais proveitoso dos tempos de antena de que a Esquerda, a toda a sua amplitude, pode usufruir.
Continuando na temática santanista e, de forma mais abrangente, de Direita, a Coligação veio justificar a legitimidade das suas enésimas nomeações de amigos e amigos de amigos para cargos públicos com o facto de também o PS o ter feito quando se sentou no poder. Perante este valioso e imbatível argumento, que mais resta por dizer? Se o vizinho, à sucapa, vai às filhozes, porque não irei eu?
Falando em PS (folguem agora as costas da Direita, enquanto o chicote vai e vem), acusa-se Sócrates de procurar fugir a excessivos debates e exposição pública. Poderá ser uma estratégia antecipada de pose de Estado, encarnando desde já na figura do Primeiro-Ministro que ninguém duvida irá saír das Legislativas de Fevereiro. Ou, ao invés, poderá ser este o melhor modo de se evitarem os seus tiros no pé que aqui e ali poderão fazer mossa. Ainda há pouco disparou mais um, quando referiu que por cada dois funcionários que abandonem a Administração Pública entrará um. Na verdade, com afirmações destas em plena pré-campanha eleitoral somente aos socialistas e ao seu timoneiro poderá ser imputada a culpa e responsabilidade caso o partido rosa não ganhe ou consiga a maioria absoluta nas eleições vindouras.Retornando aos sociais-democratas (que já folgaram as costas), Marcelo Rebelo de Sousa regressou ao mundo dos vivos (isto é, dos que surgem na televisão) em Celorico de Basto, fazendo campanha por Santana Lopes. Não deveria ser notícia, a não ser por Marcelo – antes de Paes do Amaral lhe desligar o microfone – ter considerado o Governo de Coligação chefiado por Santana como a imagem viva do pior do pior (não é erro, foi mesmo referido assim) de Guterres. Mudam-se os tempos, vira-se o bico ao prego. Ou, a bem dizer, será mais correcto afirmar-se que Marcelo estará a resguardar a pole-position para próximas eleições, externas ao PSD ou (com maior probabilidade) internas – esperando, neste último caso, pelo funeral anunciado de Santana Lopes a 20 de Fevereiro.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Todo o Pau Que Nasce Torto, Tarde Ou Nunca Se Endireita

Santana Lopes veio exortar Sampaio a intervir no caso dos debates televisivos a que, pretensamente, Sócrates tem procurado fugir, como interveio quando chamou Marcelo ao Parlamento na sequência da sua atribulada saída da TVI, impulsionada por pressões dos sociais-democratas face ao interesse desta estação lançar novos projectos na TV Cabo, controlada pela PT. Seja como for, frisa Santana que da referida fuga dos socialistas ao recontro de ideias e programas dos diferentes partidos sai lesada a democracia, essa mesma que também terá sido lesada aquando da nomeação de Santana enquanto Primeiro-Ministro sem aprovação popular por meio de eleições.
O mais curioso é que esta nova polémica tão pouco encerra em si motivos para o ser, dado saber-se não servirem os debates televisivos para uma verdadeira explanação de ideias dos distintos candidatos, mas sim como tentativa de angariação de votos com recurso a poses e encenações mediaticamente ensaiadas à exaustão (servirá de exemplo a peça caricata que Portas levou à cena diante de Louçã na SIC Notícias, recriminando o levantar do dedo do adversário enquanto erigia o seu em riste). Será, pois, justamente a sua maior (e única) qualidade da faceta mediática, populista e demagoga que Santana quer fazer correr nos pequenos ecrãs nas próximas semanas, enquanto último recurso de que dispõe para ganhar votos que doutro modo não conseguirá obter.
Contudo, quando Santana fala dispara um tiro no adversário e cinco no seu pelotão. Recorrendo às estafadas metáforas que compõem o seu acervo, já testemunhadas quando comparou o executivo que lidera a um bébé na incubadora (daqui se explicando o défice de raciocínio do Governo de Coligação, semelhante ao de quem há pouco tempo chegou à vida), Santana veio desta vez – num comício em Coimbra – referir, a propósito ainda da fuga de Sócrates aos debates, que a uma criança que se recusa a participar numa brincadeira quando convidada a tal chamam-se-lhe nomes e com razão. Pois bem, ficou a saber-se que o enquadramento cénico passou, agora, da maternidade para o recreio de uma qualquer escola ou jardim infantil, sendo que os bébés se tornaram crianças. Do mesmo modo, passou a saber-se que Santana continua a querer brincar, desta vez já não aos governos dinásticos, mas às campanhas. Por último, todo este fait-divers ganharia – ainda assim – menores contornos de ridículo caso Santana Lopes, logo após lançar a polémica em questão, não tivesse adiado uma segunda vez (e sem explicação plausível) os seus debates na SIC Notícias com os outros adversários da Esquerda Jerónimo de Sousa e Francisco Louçã.
Compondo a paisagem político-circense que actualmente rodeia Portugal, Santana e Portas pretendem saír vitoriosos das Legislativas fazendo uso da insistente tese da vitimização e, no âmbito desta, da novela da dissolução da Assembleia da República motivada por pressões da poderosa banca. Ora, a estratégia gizada não deixa de ser, mais que espantosa, sublime, ou não fosse auspiciosa – tratando-se de partidos de Direita e Centro-Direita – a intenção de serem amealhados votos com ataques à banca e, porque não, ao patronato. Deixar-se-à ludibriar o povo?

Feche-se a Loja Para Obras, Mude-se a Gerência e Os Funcionários

São momentos como aqueles que Portugal atravessa, com toda a poluição política que flutua por aí, que tornam atractivo o isolamento próprio da vida monástica. Recentemente, Portas afirmou ser o seu partido o alicerce da actual estabilidade democrática, acusando Sócrates de, na vertente oposta, afirmar de manhã o que contradiz à tarde. Será brilhante a capacidade de síntese de Portas, dado que em parcas palavras – ao sublinhar o factor da estabilidade – definiu, não só a antítese do que foi o Governo de Coligação ainda em funções e do qual o CDS-PP não se pode desligar (jamais deixou de ser conivente com as suas actuações), mas também a antítese do que é o próprio Primeiro-Ministro demissionário do Governo de que Portas ainda é Ministro da Defesa.
No fundo, o propósito de Portas ao aludir à necessária estabilidade poderá passar por, mais que atacar a posição de Sócrates, conquistar votos na Direita aproveitando a imagem de, precisamente, instabilidade que Santana cultiva. Só que, como já foi enfatizado, o CDS-PP ainda participa num Governo que nunca fez da estabilidade a sua bandeira e, como agravante, caso a Direita vença as próximas Legislativas (cenário nada credível) os democratas-cristãos há muito declararam a intenção de reconstruir o Governo que deixou o país no estrago actual. Ora, que legitimidade para falar de estabilidade deverá ser concedida a quem, no presente como no passado recente, sempre pactuou com focos de instabilidade em favor de puros interesses político-partidários?
Numa outra dimensão, em Águeda desenrolou-se novo capítulo da saga dos favorecimentos pessoais made in Portugal. A presidente da edilidade, vencedora das últimas Autárquicas pelo PSD, colocou em funções na Câmara o seu próprio filho, sob o argumento de necessitar de alguém da sua confiança. A assim ser, porque não empregar na autarquia a família inteira, já que nesta (por princípio) se inserirão aqueles em quem mais confiança se deposita? Infelizmente, Águeda não constitui excepção em território nacional, antes cumpre a regra. Portugal assume-se, hoje como ontem, enquanto país de corrupção e tráfico de influências alimentados no sector da sociedade que deveria dar o exemplo e onde, por isso, menos deveriam marcar presença: nas instâncias e organismos de responsabilidade política. Sucede que os políticos portugueses não conseguem (tão pouco tentam) disfarçar o facto de a ocupação de cargo públicos ter cada vez mais por objectivo a obtenção de vantagens pessoais e financeiras, não interessando a suspeição que sobre as mesmas recaia. A sensação de que a impunidade continuará a grassar esbate o pejo em serem desviados fundos, concedidos favores e exercidas influências à luz do dia. E nem o facto de a visibilidade e exposição mediáticas serem hoje maiores faz com que o flagelo se extinga, uma vez que jamais passou de extemporânea e momentânea a mossa passível de ser causada pelos media. Os problemas de fundo, em muito também fomentados por um sistema judicial ineficaz e (sobretudo ele) a precisar de ser prescrito, continuarão a persistir por muitos e bons decénios. Tantos quantos aqueles que durar a nossa Portugalidade.

Já Nem Com Papas e Bolos Se Conseguirão Enganar Os Tolos

Estende-se a toda a largura do cartaz eleitoral dos democratas-cristãos a seguinte frase, complexa do ponto de vista gramatical e semântico: “Voto útil”. Não compete aqui questionar qual o ser vivo (de preferência, racional e vertebrado) a quem será útil o voto em Portas e companhia. Talvez, arriscamos, para as cinhas da nossa Portugalidade. Procure-se, ao invés, prestar um valioso contributo a todos aqueles milhares de cidadãos iletrados deste país (a tal maioria a quem jamais foi concedida a oportunidade de obter maiores estudos), descodificando o real sentido da frase escolhida para pontificar no cartaz do CDS-PP. Ora, tendo por base o facto de – a constatar pela amostra em referência, poucas linhas acima, neste mesmo parágrafo – o partido em causa exercer preponderante fascínio junto de algumas das personalidades mais jet-séticas de Portugal, e visto que quem pertence ao jet-set está (com toda a certeza) in, bastará estabelecer-se um ponto de contacto entre a realidade de estar in – como se confirma suceder com uma boa franja dos veneradores de Portas – e o slogan do CDS-PP para se obter a explicação para a verdadeira mensagem que tal frase quer transmitir. Ou seja: “Voto in-útil”.
Conspiração, dirão alguns; dedução lógica, retorquirão muitos mais. Na verdade, só com um profundo défice de raciocínio (maior que aqueloutro défice que Bagão tentou a todo o custo camuflar) e com recurso a uma não menos gigantesca dose de ginástica cerebral (abundante em perversas cambalhotas e masoquistas saltos mortais com dupla pirueta encorpada à rectaguarda) se poderá considerar útil o voto numa força partidária que, no minuto seguinte às eleições, caso a Direita coligada as vença (cenário exequível para quem acredite na veracidade dos contos de fadas e das fábulas de La Fontaine), não hesitará em reatar o seu matrimónio com o PSD, afundando ainda mais o país no poço da decadência sócio-económica.
Adiante. Contribuíndo para a crescente conspurcação paisagística com cartazes de de índole eleitoral, também um outdoor da JSD vem afrontar o quoficiente de inteligência dos portugueses ao indicar o desemprego como um problema sério, algo que só Santana e Portas desconhecem (e não o Bloco de Esquerda, conforme afirmado, dado que este partido nunca governou). Mas há mais: no cartaz da JSD, quando se procura incluir Portugal no top ten das nações europeias com menor taxa de desemprego (sendo que, brilhante estratégia, a atenção é atraída para a mais de meia dezena dos países apontados que regista menor incidência do flagelo em causa), suscitará repulsa a mera pretensão da JSD de afirmar poder o cidadão português considerar-se privilegiado, já que, segundo os sociais-democratas, ainda que um curto-circuito tenha ocasionado a deflagração de um incêndio na sala-de-estar, o rebentamento de uma conduta tenha inundado a garagem onde se estacionou o Punto por pagar, uma descarga eléctrica tenha provocado o rebentamento do Pentium 4, do DVD-Recorder e do micro-ondas, ainda que tudo isto tenha sucedido, deverá regozijar-nos ter acontecido pior a dez ou quinze dos vizinhos do quarteirão de baixo ou do outro lado da cidade.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Falando De Tachos Em Época De Saldos e De Um Outro Facto Comum

Desde a era de Barroso que é divulgada a necessidade de serem minimizadas as despesas com a máquina estatal, tendo Manuela Ferreira Leite, por distintas ocasiões, defendido a forçosa dispensa de funcionários da administração pública. Hoje, não se sabe se Santana Lopes tomou à letra a necessidade traçada pela então Ministra das Finanças; o que se sabe é que o Governo de Santana e Portas (permita-se esta designação, por retratar a realidade) já fez publicar em Diário da República, desde que assumiu funções, mais de mil e trezentas nomeações para cargos públicos. Mas não só. Desde a data em que o Governo de Coligação passou a ser Governo de Gestão e – por sua iniciativa – Governo demissionário, foram efectuadas mais de setenta nomeações para os supracitados cargos públicos, inúmeras delas respeitantes à ocupação de lugares de direcção – faculdade que, por princípio, jamais deveria estar (como, em rigor, não estará) ao alcance de governos de gestão.
Mais que honestidade e bom senso, não se insultem – por uma vez que seja – os portugueses e a democracia. Como afirmou Louçã, aos nossos governantes não deve ter sido permitido, sequer, uns dias de ócio na quadra natalícia. A azáfama na atribuição de tachos adquiriu novo elã e, sobretudo, velocidade supersónica a partir do momento em que a Direita soube que não iria ter muito mais tempo para distribuir favores por quem lhe é mais próximo ou conveniente. A factura da crise, essa, será uma vez mais paga pelos contribuintes, obrigados a suportar novos milhares de cargos principescamente remunerados enquanto vêem o seu nível de vida degradar-se.
Mas mude-se de tema, já que – diz a sabedoria popular – quanto mais remexidos são determinados assuntos, mais fedem. Assim sendo, fale-se de televisão. Tudo bem, o assunto vai continuar a feder, mas por cá já toda a vivalma se habituou à atmosfera nauseabunda que paira sobre o país. Como tal, faça-se aqui menção ao comovente e enternecedor espectáculo televisivo de bajulação dispensado por Herman José, num dos seus últimos programas, à personalidade de Pinto da Costa. Coincidência ou não, também em tempos Herman havia bajulado uma outra idónea e íntegra individualidade do mundo futebolístico, Vale e Azevedo, antes desta ser convidada a, por período ainda não concretamente definido, observar o Sol cortado por linhas paralela e perpendicularmente apostas. Seja como for, desta feita na plateia sentou-se a digníssima companheira de Pinto da Costa, de sua graça Catarina, senhora de alta e imaculada formação que a distingue do comum ser humano que não hesita em erguer o dedo médio ou vociferar impropérios em estádios de futebol; sentados do lado de cá dos ecrãs, milhões de portugueses agarrados aos benurons, entre vómitos, enjoos, náuseas, dores estomacais e outras maleitas gastro-intestinais. Ainda assim, claro está, servirão de excepção à regra da gomitação generalizada todos aqueles a quem tal programa televisivo agiu enquanto o mais eficaz dos procedimentos de auto-medicação de índole laxativa capaz de, na dose ideal (aquela que, afinal, foi ministrada), curar a mais insistente e tenebrosa das prisões de ventre.

Queira Levantar o Braço Quem Ainda Paga Para Ouvir Este Senhor

Menos enquanto Primeiro-Ministro demissionário, que ainda o é, e mais enquanto candidato a idêntico lugar pelos sociais-democratas nas próximas Legislativas (a despeito da azia que, a este propósito, percorre as altas esferas do PSD), Santana Lopes foi a Mira discursar perante uma plateia moldada para ovacionar cada soluço e engasgo do orador. Ora, quando Santana discursa, conceda-se-lhe esse mérito, todas as dúvidas se dissipam. Sendo certo que a proliferação de niltons e fernandos rochas que irrompe pelas urbes e arrabaldes deste país já não deixava grande margem de manobra no respeitante à subsistência das mesmas, servem, ao menos, os discursos santanistas (do próprio e doutros em seu nome, entenda-se) para confirmar o facto de a moda do stand-up comedy nascido em terras do Tio Sam ter aterrado em Portugal para ficar. Acautelem-se os Seinfeld deste e do outro lado do Atlântico, PSL’s in ‘da house!
Santana, dizia-se, foi a Mira discursar perante uma plateia pintada de um laranja à medida da conveniência e da necessidade. E o que proferiu de relevante? Trata-se de uma questão tão sobejamente pertinente quanto de árdua resposta, dada a personalidade em causa ser essa mesma que – permita-se a inclusão de uma breve nota para o frisar – afirmou, em tempos não muito longínquos, respeitar a decisão magna de Jorge Sampaio de dissolver a Assembleia da República. Assim sendo, não esquecendo a pergunta colocada, face à personalidade em causa, pouco ou nada foi proferido de relevante. Não se depositem, contudo, culpas em Santana; quem mais não sabe, a mais não é obrigado.
Mas o que disse, afinal, Santana Lopes? Maravilhosas pérolas, recorrendo à estratégia declaradamente original do PSD (alguém salvaguarde os direitos autorais) para a campanha eleitoral que dá os primeiros sinais de vida, isto é, a teatralização política da vitimização. O país não marcava passo, marchava de semblante alegre e contente; o Governo não se equivocava, não se enganava, não mentia, não dormia; tudo corria sobre rodas. Assim sendo, face ao panorama cor-de-rosa (não confundir com socialista) em que docemente navegava a nação, quem tramou, não Roger Rabbit, mas Santana Lopes? Este, na primeira pessoa, respondeu ter sido o Presidente da República em conjunto com a Esquerda que mais simpatia lhe merece. E não hesitou em recorrer à mais desbragada terminologia populista e eleitoral para defender este seu argumento, afirmando não passar a dissolução do Parlamento de um premeditado embuste político preparado para devolver o poder à Esquerda. Talvez (em parte) assim seja, mas Santana já deveria ter percebido que o verdadeiro embuste partiu de si, qual kamikaze, e do seio do seu próprio partido (tendo-se localizado o epicentro muito acima das bases), não com o intento de devolver o poder à Esquerda, como se depreenderá, mas com o objectivo maior de decapitar o PSD e quem nele tomou de assalto a cadeira da liderança.
Seja como for, guerrilhas intra-partidárias à parte, Santana espera que nas Legislativas se assista a um levantamento nacional contra a decisão de Sampaio. Talvez assim suceda, no eixo Lapa-Cascais-Quinta da Marinha.

Made In China – Ou Como Só o Dinheiro Ainda Faz Girar o Mundo

Raramente a História se repete. Assim, uma vez mortos e sepultados os impérios Troiano, Romano, Otomano e tudo o mais acabado em ano, Fenício, Etrusco, Bárbaro, Gaulês, Russo, Americano (atente-se no profundo rigor e fidelidade histórico-cronológica a que obedecem estas linhas), alguém já vaticinou estar a China na forja enquanto candidata ao posto de próxima potência mundial. Conhecedor desta realidade, o nosso Presidente, inveterado visionário, deslocou-se ao país onde mais bicicletas circulam por metro quadrado e mais arroz é digerido per capita, escoltado por uma boa mão cheia de empresários portugueses, na tentativa de ser promovida a internacionalização das maiores empresas e marcas nacionais.
Claro está que, acompanhando o dito pensamento visionário de Sampaio, alguns dos empresários colegas de viagem trataram, desde logo, de abraçar outros objectivos, como sejam o da deslocalização das suas fábricas. Para onde? Coincidência ou não, poderia ser para a República Popular da China. Só que alguém da Maconde já se apressou na emissão de um desmentido versando tal falsidade que, afirmam, se pretende incutir na opinião pública. Antes assim, já que por cá as taxas de desemprego dispensam incentivos adicionais de crescimento.
Seja como for, com a visita de Sampaio à China um princípio político foi mais que clarificado: desde que interesses económicos mais alto se levantem, de pouco ou nada interessará a aposta numa pressão internacional capaz de fazer observar o cumprimento dos direitos humanos e o respeito pela dignidade e liberdade dos mesmos inalienáveis. Assim, pode a China produzir em piloto automático as camisolas, as alcinhas transparentes para o soutien, os cachecóis da moda, os carrinhos telecomandados, os chapéus para a chuva, os mini-rádios para a bola e tudo o mais que a memória aqui consiga listar, à conta da escravização laboral e da exploração do trabalho infantil; pode a China mandar avançar sobre a praça os tanques de guerra e combater de forma viril e ímpia quem ouse desafiar o sistema político instalado ou se atreva a estruturar as suas ideias e pensamentos de modo distinto; podem repetir-se as Tienamen e, ao mesmo tempo, manter-se a encenação da abertura de regime para o Ocidente ver. Por cá, os olhos nem pestanejarão. Por lá, ainda menos.
Algures no Oriente longínquo, lá onde o Sol nasce, uma grande multinacional Norte-americana (empregadora de crianças que, horas a fio e a troco de meio grão de arroz, cozem bolas para os figos, zidanes e ronaldinhos pontapearem) pendurou nas paredes da sua fábrica um cartaz onde se inscreve uma frase que é, simultaneamente, o slogan publicitário utilizado nas suas campanhas, e que reza assim: “Just do it”. Não será preciso ser-se doutorado em estudos anglo-saxónicos com especialização na língua de Shakespeare para compreender o dúbio sentido que esta frase encerra. Ora, foi esta mina de ouro que agora deixou os empresários portugueses de olhos em bico, a pensar com uma mão no bolso e outra na máquina de calcular. Na óptica de qualquer Tio Patinhas, reconheça-se, é todo um éden que se abre de par em par.

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