quinta-feira, janeiro 13, 2005

Perdoe-lhe, Senhor, Que Ele Não Sabe o Que Diz (Tão Pouco o Que Faz)

Num almoço-campanha do CDS-PP realizado em Santa Maria da Feira, Portas conseguiu reunir cerca de cinco mil militantes, o que – virá a propósito o facto de estarmos perante um partido de valores cristãos bem vincados – aludirá ao milagre da multiplicação dos pães. Assim se explica como num só evento se juntaram mais almas democratas-cristãs do que aquelas que existem em toda a comunidade lusófona.
Obviamente contagiado pela emoção de sentir em seu redor tanta assistência quanto a que costuma assistir aos jogos da Superliga, Portas aproveitou o balanço para apelar ao voto no seu partido – já agora, será conveniente não abusar do dito balanço, não vá Cinha (alguém a avistou?) ter de chorar mais uma queda da cadeira ou do púlpito ou coisa que se assemelhe. E, retomando o raciocínio, Portas referiu, nomeadamente, ser o CDS-PP um dique contra crises. Com toda a certeza uma afirmação que terá deixado o país intrigado, sabendo-se que ao partido em questão não é legítima a lavagem de mãos como Pilatos, isto é, a demarcação em relação ao facto de ter picado o ponto no Governo de Coligação que, nestes últimos anos (e ao contrário do que é suposto suceder com os diques), não só meteu água a rodos como, encontrando-se o país a nadar numa crise sócio-económica, se encarregou de lhe proporcionar um mergulho, não nas águas cálidas de S. Tomé e Príncipe (como o fez Sarmento), mas rumo a um afogamento assistido.
Portas insurgiu-se, ainda, contra a falta de humildade e arrogância da Esquerda. Simultaneamente, mostrou-se convicto de que o CDS-PP vai atingir, nas próximas Legislativas, a fasquia mítica dos 10 por cento. Isto sim, não será arrogância democrata-cristã; é fé, pura fé no poder das forças divinas, na capacidade dos deuses do Olimpo e de tudo o mais que se possa evocar. Só que a fé, enquanto fé, é povoada de inexplicações tão inexplicáveis quanto o facto de Portas querer afirmar o seu partido como um poder moderador, muito embora se saiba que o mesmo não hesita em formar alianças com quem na Direita angaria mais votos, no estrito interesse narcisista de experimentar a acção governativa e não mais que isso.
Nas Legislativas que se aproximam, serão menos os méritos de Portas e mais os deméritos da Esquerda e do PSD a tábua de salvação que poderá evitar o naufrágio do CDS-PP, em conjunto com a Direita. E os resultados somente não serão mais graves porque do outro lado continua a existir um Partido Comunista ortodoxo e fechado sobre si mesmo que insiste em morder a própria cauda, um Bloco de Esquerda cuja excessiva rebeldia na defesa das suas posições não ajuda à construção de uma imagem séria o bastante para motivar o reconhecimento da maturidade necessária para arcar com a responsabilidade da governação do país, e um PS onde – mais com Sócrates do que seria com Manuel Alegre ou João Soares – ainda paira o fantasma de Guterres e do pântano em que se transformaram os seus últimos tempos de governação.

Breve Incursão No Conceito De Democracia Praticado Pela Direita

Alberto Jardim considerou Sampaio uma figura inefável da República Portuguesa, por este se ter decidido pela dissolução do Parlamento. Face a tal consideração, e (sobretudo) tendo por bitola o termo e o contexto em que o mesmo foi empregue para qualificar a figura máxima do Estado, nenhum de nós poderá sequer possuir a veleidade de imaginar, na eventualidade de ser estabelecida uma escala de critérios ordenados de forma lógica, o quão impronunciável seria a adjectivação com que se teria de brindar o Presidente da República à data da sua incongruente decisão de dar posse a Santana Lopes. Ainda assim, acrescente-se, não deixa de ser compreensível a atitude do líder madeirense. E não somente pelo facto de ser quem é, não provocando a afirmação de todo o género de barbaridades qualquer espécie de estupefacção, mas igualmente por o sistema político instituído na pérola do Atlântico não permitir a Jardim perceber que para lá da sua coutada de metro e meio quadrado, cá pelo país não-insular, a noção de democracia difere em muito daquela outra democracia de fachada que no seu quintal soube plantar. Ora, não o satisfazendo esta realidade, a quem tantos sentimentos separatistas nutre sobram duas soluções: ou investe nos alka-seltzers ou proclama de forma unilateral a independência do arquipélago da Madeira. Neste último caso, os bolsos dos portugueses continentais ficar-lhe-iam gratos.
Também cá pelo continente o Governo de Coligação tentou, junto da comunicação social, afinar pelo diapasão de Alberto Jardim no seu pedaço de terra. Saiu-se pior, como seria de esperar. Ainda assim, se Jardim controla os media do burgo madeirense, por cá os sociais-democratas também exercem controlo q.b. sobre inúmeros órgãos de comunicação social, desde logo a direcção de informação da RTP (que, camuflada de serviço público, vai prestando subserviência ao aparelho de Estado – leia-se, a quem a dado instante desenvolve funções governativas), a TVI (refém da PT no respeitante a parcerias com a TV Cabo, como sejam a ânsia de lhe ser disponibilizado um canal de temática económica), o Expresso e a SIC (empresas onde Balsemão, eterno dinossauro do PSD, detém poder inviolável), e o Diário de Notícias (jornal onde os castradores actos censórios internos exercidos sobre a redacção têm originado conflitos que há muito chegaram ao conhecimento público). Mais que o Governo de Direita que Santana não se cansa de afirmar ter sido atacado ainda na incubadora, todas estas evidências parecem fazer crer que é o próprio 25 de Abril que ainda de lá não saiu.
Mas tudo vai bem na república das bananas (não, não é mais uma referência à Madeira). Ou, melhor dizendo, quase tudo. Cavaco não gostou de se ver retratado ao lado de Santana Lopes num cartaz de pré-campanha eleitoral. Somente mais um pretexto para este último aprofundar a sua tese da vitimização, encarnando o papel do Cristo traído, não por um, mas por mil e um Judas sentados à mesa do próprio PSD. Contra ventos e marés, frisa Santana no seu novo cartaz. Principalmente contra os portugueses, permita-se a adenda...

O Habitual Fungágá Da Bicharada, Em Versão Caseira e Internacional

Sarmento deslocou-se a S. Tomé e Príncipe com o objectivo de assistir à assinatura de um protocolo de cooperação entre a RTP e a televisão e Rádio Nacional daquele país. Bom mesmo, para o próprio e sua delegação, foi o aproveitamento da viagem para serem gozadas, no ilhéu de Bom-Bom, umas (assim apelidadas pelos políticos locais) mini-férias de luxo. Tão de luxo como o facto de a viagem a S. Tomé ter sido efectuada numa aeronave Falcon fretada a uma empresa privada, quando se sabe efectuarem deslocações a S. Tomé duas vezes por semana a TAP e a Air Luxor. Sarmento praticou mergulho e deixou-se encantar pela beleza natural das praias de – quão apropriado – Banana e Macaco. Praticou também o esquecimento de tudo quanto o Governo de que é Ministro da Presidência do Conselho de Ministros andou a propagandear nestes últimos meses: a necessidade de se obedecer a uma rígida contenção de despesas no aparelho de Estado. É o vingar da velha máxima do faz o que eu digo e não o que eu faço, já que a crise quando nasce não é para todos.
Sampaio (o presidente de todos nós que demorou quatro meses a corrigir o erro de entregar o país a Santana) veio a público defender a reforma da lei eleitoral, facilitando-se a obtenção de maiorias absolutas na Assembleia da República susceptíveis de – segundo o critério de Sampaio – garantir a estabilidade na acção governativa. Pois, mas permita-se aqui, a este propósito, a inclusão de três breves notas: primeiro, a lei eleitoral existente sempre conferiu ao povo a liberdade de conceder as tais maiorias absolutas, assim o povo, e ninguém em seu nome, entenda existir força partidária capaz de a merecer; segundo, as maiorias absolutas não propiciam somente estabilidade (o Governo de Coligação, com maioria, conseguiu-a?), mas também a existência de autoritarismo e inflexões de estrito carácter político no desempenho das funções próprias da governação do país, estando a tomada de decisões em muito menor grau sujeita ao controlo das oposições partidárias; por fim, todos já tivemos oportunidade de sentir na pele a noção de estabilidade própria de Sampaio, a mesma que o levou a empossar Santana Lopes como Primeiro-Ministro.
Mudando de tema, para lá das fronteiras o panorama, por vezes, também fede. No hemisfério Sul, o drama de quem sobreviveu à fúria do maremoto no Índico está para continuar. Muito tem sido divulgada a premência de a ajuda internacional chegar com celeridade às populações necessitadas. Para isso, são fundamentais a existência de corredores aéreos e infra-estruturas nos territórios calamitados disponíveis para receber os aviões carregados de mantimentos e outros bens. É face a esta evidência que se torna confrangedor e indignante tomar conhecimento de que a entrega de boa parte do apoio humanitário oferecido pelo Ocidente sofreu diversos atrasos provocados pelo facto de os aeroportos nos territórios afligidos estarem a ser utilizados para receber aviões que transportam individualidades da política internacional, entre elas o líder máximo das Nações Unidas. A fotografia não poderia ser tirada mais tarde?

terça-feira, janeiro 11, 2005

Todos Contra Santana e a Democracia Representativa Que Temos

Vem do próprio PSD a desacreditação em Santana Lopes. E não de um qualquer rol de militantes de base. Vem do topo, da nata social-democrata habitada por Cavaco, Pacheco Pereira, Marques Mendes, entre outros. Assim, se no seio dos laranjas o défice de confiança nas capacidades e competências de Santana é evidente, de que modo poderá ser aos portugueses solicitado tal voto de crédito, para mais depois de tudo quanto sucedeu nos últimos meses de Governo de Coligação? Neste cenário, proporcionar a reinstalação de Santana na residência oficial de S. Bento parece tarefa somente ao alcance de um Indiana jones ou James Bond, facto que até começará por agradar a uma larga franja do próprio PSD, a mesma onde se movem os tais cavacos e marques mendes e que há muito manifestou intenção de escurraçar Santana da liderança do partido no minuto seguinte às Legislativas, logo na noite em que forem analisados os resultados que, por certo, o forçarão a jogar a toalha ao chão.
Sociais-democratas incluídos, embora – desta feita – partilhando tal mérito com as restantes forças do espectro partidário lusitano, a elaboração das diferentes listas para as eleições que se avizinham deu azo, uma vez mais, ao desvirtuamento do real propósito do sistema democrático português. Algo que não constitui novidade e a que esta classe política há muito nos habituou. A existência de distintos círculos eleitorais, os tais que deveriam servir para assegurar a todo o país a representação no Parlamento, é habilmente contornada perante uma generalizada passividade. E assim está o país eternamente condenado a, nesta altura, assistir ao corropio das mais jurássicas personalidades dos diferentes partidos numa estafante distribuição de lugares de Norte a Sul, ocupando listas e posições em distritos cuja realidade pouco ou nada conhecem, mas que se sabe garantirem o almejado cargo de deputado.
Todo este lamentável cenário seria evitável, assim houvesse interesse, bastando que se impusesse a quem ocupa listas eleitorais a obrigação de ser natural do distrito por que concorre ou nele tivesse fixado residência por um período de tempo nunca inferior a três, cinco ou dez anos. Assim não sucedendo, se em toda esta desprestigiante actuação dos políticos da nação nenhuma cor partidária pode declarar inocência (da Esquerda à Direita), numa última instância a culpa pela continuidade da situação descrita deverá recaír sobre quem não faz uso da arma do voto (ou da liberdade do não-voto a que Saramago um dia aludiu) para punir tais subversões de uma democracia que, ao não estarem representadas no Parlamento as diferentes regiões do país, pouco terá de – precisamente – representativa (seja da realidade nacional ou doutra qualquer).
Mas mude-se de assunto, sem nunca abandonar o tema das próximas eleições. O PS tem sido apontado como estando próximo do desiderato da maioria absoluta. A esta distância das Legislativas, resta saber se poderá ser considerada positiva a antecipação de tais resultados, ou se não terá Sócrates de, na sua campanha, combater Santana, Portas e o fantasma de uma abstenção impulsionada pela convicção da vitória alargada dos socialistas.

O País à Imagem De Uma Juke Box Onde Vira o Disco e Toca o Mesmo

Vêm aí as Legislativas e, com elas, a campanha eleitoral onde voltarão a desfilar políticos a rodos, distribuindo panfletos e abraços a um zé-povinho que durante o resto do ano é tratado a pontapé. Deixar-se-à indrominar quem tiver gasto os últimos anos em longa hibernação (opção que tão pouco será criticável) ou encontrar prazer masoquista no acto de ser continuamente indrominado.
Nos partidos de maior expressão popular (que ainda os há) a distribuição de lugares pelas listas dos diferentes círculos eleitorais foi já dada por encerrada, sendo que a procura dos habituais tachos (produzidos a partir do melhor aço inoxidável, tal a forma como tudo no país vai mudando enquanto estes perduram) originou a tradicional distribuição dos mesmos rostos por tudo quanto é canto, de modo a serem reservadas para os mesmos de sempre as cadeiras do Parlamento. De tal forma assim é que até nem ficaria mal – seguindo a moda do que acontece com os lugares cativos nos novos estádios da era Euro 2004 – as ditas cadeiras serem personalizadas, querendo isto dizer que será, uma vez mais, guardada para melhor oportunidade a limpeza de balneário de toda uma classe política que nas últimas legislaturas tem conduzido Portugal para uma segunda divisão da Europa onde se joga o campeonato da regressão social e económica. O desenvolvimento da nação pode, por ora, esperar. Valores mais altos se levantam...
Em algumas forças partidárias (estarei a referir-me ao PPD do PSL?), a distribuição dos ditos tachos espalhados pelas listas dos diferentes distritos originou, mesmo, o estalar do verniz entre acesas discussões e não menos estrondosas ameaças de bater com a porta. Manifestou essa intenção o líder da Juventude Social-Democrata, que se viu colocado num lugar aparentemente não elegível pelas listas de Lisboa. Lá se esfumou mais um ordenado que estaria garantido e, com um pouco mais de sorte, uma reforma jeitosa ao fim de uns anitos a fazer figura de corpo presente, mais nos corredores do que no hemiciclo do Palácio de S. Bento.
Pode afirmar-se que, no que respeita aos políticos deste ilustre país, a música soa a um estafante dejà vu, parecendo que se está a escutar a poeirenta playlist difundida pela defunta Rádio Nostalgia em moldes de toma lá do mesmo. Ora, se as músicas fossem boas até nem seria mau de todo. O problema é que os políticos deste país tocam mal e conseguem cantar pior. Ainda assim, e porque vale sempre a pena acreditar no Pai Natal, a salvação da pátria parece recaír, desta feita, nos socialistas de Sócrates. Espera-se, contudo, que este não possua sentimentos revivalistas suceptíveis de o motivarem a fazer regressar o país à fase mais nebulosa da era Guterres, onde pontificou o orçamento do queijo limiano. E espera-se, a bem da credibilidade depositada no sistema democrático português, que a Esquerda saiba, desta vez, assumir-se perante os portugueses enquanto verdadeira alternativa de poder, algo que significa bem mais do que a película de quinta categoria já por tantas vezes vista da mera alternância de poder.

O Ministério da (Des)Educação e As Ricas Férias Do Sr. Embaixador

Parece obsessão o facto de ser sempre trazida à colacção nos textos aqui publicados a imagem metafórica do circo. Contudo, a vida política do país e, bem assim, as acções, inacções, alhadas e trapalhadas da Coligação ainda no poder, não permitem alternativa. E, por muito feio que pareça, esta é somente mais uma daquelas situações em que faz todo o sentido continuar a bater no ceguinho.
Todos temos conhecimento do imbróglio tsunamiano em que se afundou o Ministério da Educação nos últimos concursos para colocação de professores. Ora, passados estes meses foi publicada a auditoria da Direcção-Geral das Finanças ao processo de tal concurso. As conclusões são, passe a redundância, conclusivas: dispêndio de 1,8 milhões de Euros com o novo sistema informático de selecção das candidaturas apresentadas. Bem mais do que os 600 mil Euros que o Ministério da Educação afirmou deverem ser gastos em tal processo. Perante isto, vem de cima o exemplo-mor do motivo por que a cadeira de Matemática sempre foi e será aquela na qual os alunos portugueses piores notas ostentam.
A Ministra da (des)Educação entendeu não ser interessante (palavras suas!) ir à Assembleia da República, sede máxima da democracia representativa parlamentar instituída em Portugal, explicar os motivos de tal derrapagem num estafado processo de colocação de docentes que, todos nos recordamos, ultrapassou – pela incompetência de quem nele interveio – os limites do ridículo e aceitável. Compreende-se a posição de Maria do Carmo Seabra, já que 1,8 milhões de Euros será coisa de somenos relevância. E, como sempre sucede por cá, os responsáveis (políticos ou não políticos) também neste caso, como noutros, não terão rosto nem pagarão pelos erros e irresponsabilidades cometidas. A factura será, para não variar, servida em bandeja de prata ao povo, que verá o buraco remendado com mais uns corte nas pensões, umas restrições nos abonos ou uma vigilância mais apertada aos descontos de quem labora por conta de outrém e, portanto, não pode fugir a pagar os seus impostos e os daqueles que, exercendo profissões liberais, se podem conceder ao luxo de declarar prover o sustento dos seus Mercedes Classe C com o ordenado mínimo que auferem.
Mas viremos a página. Tempestades intra-fronteiras, tragédias no outro lado do planeta. Só que nem aí o nosso país poderia deixar de estar representado ao melhor nível. Um embaixador desta nação encontrava-se na pátria-mãe em pleno gozo de férias de Natal quando se deu o maremoto no Sudeste Asiático. Até aqui, nada de estranho, sendo perfeitamente compreensível o direito ao ócio a que deverá ter acesso todo o ser humano, desde o trolha ao Papa, passando pelo embaixador. Com maior dificuldade se compreenderá, todavia, o sucedido a posteriori. Milhares de vítimas, quase uma dezena de portugueses desaparecidos, outros tantos necessitados de auxílio, e a dita personalidade concluiu não ser tal situação gravosa o suficiente para motivar, não o encurtamento ou cancelamento das suas férias natalícias, mas tão somente uma mera interrupção momentânea das mesmas. Que bons diplomatas tem Portugal a representá-lo por este mundo fora...

segunda-feira, janeiro 10, 2005

Um Retrato Mais De Uma Direita Que Jamais Se Endireita

Confesso ter saudades do sado-maso dueto Santana e Portas que, qual Pirolito e Esparguete, tanto proporcionaram espectáculos dignos de figurarem no Festival de Circo de Monte Carlo. Quer dizer,... se bem penso, saudades não será o termo correcto. E, ainda que fosse, teria ocasião de as afogar na campanha eleitoral que está no prelo e na qual por certo verei tal dupla – ainda que estrategicamente separada – actuar por todo o país, onde quer que existam feiras, polulem desfavorecidos ou se acotovelem lares da terceira idade. Mas, adiante...
Santana condecorou com a medalha de mérito desportivo, há bem pouco tempo, o clube do Pinto da Costa que antes militava no negócio das viagens ao Brasil e agora desfila entre apitos em tons de dourado. Contudo, terá a condecoração em causa sido atribuída aos azuis e brancos na sequência das inúmeras vitórias internacionais alcançadas? Poderia sê-lo, mas o propósito de Santana é bem mais guiado por egocêntricos interesses político-partidários. No fundo, a mesma distinção outro intento não terá tido que o de aproximar do PSD os portuenses simultaneamente portistas e que, enquanto tal, jamais digeriram o facto de Rui Rio não se vergar perante o clube que idolatram e, em maior grau, não prestar vassalagem a um Pinto da Costa que não foi habituado a ver vivalma resistir à ditadura das suas vontades. Foi, aliás, com esta mesma intenção de promover o acenar da bandeira branca entre portistas e PSD que Santana convidou Pôncio para integrar as listas dos sociais-democratas pelo Porto às próximas Legislativas. Convidou e desconvidou, porque na sua enorme cabeça pensante Santana não se recordou de que Pôncio e Rio estão como o fósforo para a gasolina, seja ela de 95 ou 98 octanas.
Seja como for, ao menos isso, serviu toda esta novela do convida e desconvida – típica do perturbado e conturbado mundo político em que se movimenta Santana – para o país conhecer com que armas o PSD se prepara para batalhar nas próximas eleições, não sendo preocupante para os laranjas que o futebol (e, pior, as mais polémicas e dúbias individualidades que neste vegetam) se imiscua na política e vice-versa, desde que isso sirva para assegurar votos indispensáveis para o partido da Lapa como de pão para a boca.
Nas próximas eleições andará toda a Esquerda a ver se a Direita perde, e mais de meia Direita a ver se Santana não ganha. Cavaco, Pacheco Pereira, Ferreira Leite, Marques Mendes, entre uma multidão, rezam para que o final de Fevereiro traga com ele – no que à política respeita, entenda-se – as tão ansiadas exéquias de Santana Lopes. São as facadas nas costas de que se queixava, há semanas atrás, o ainda Primeiro-Ministro. Mas, valha a verdade, quantas facadas desferidas por esta Direita jamais endireitada não levaram os portugueses nestes últimos meses? A última viu agora a luz do dia, e atinge (invariavelmente) a classe média/baixa, dado terem sido anunciados cortes imediatos na atribuição de abonos a famílias que dispunham desse magro recurso para enfrentar necessidades de primeira ordem.

Afinal, o Circo Ainda Não Abandonou a Cidade...

Há muito sabíamos ser Santana capaz das mais despudoradas acções tendentes a impulsionar a sua carreira aos mais altos pícaros do limitado e decadente meio político nacional. Nisso, faz-se acompanhar de perto por um punhado de bobbies que se estendem do seu partido (e em tempo algum anterior à era santanista fez tanto sentido a inclusão deste termo na sigla dos sociais-democratas) à orla Centro-Direita de Portas.
Desde o início, Santana delineou a sua trajectória de molde a, em primeiro lugar, se afirmar internamente ao subir na hierarquia do seu partido e, posteriormente, marcar posição na vida política nacional pela representação de importantes cargos públicos. Não conseguiu, contudo, fazê-lo por esta ordem. A derrota em congresso no PSD obrigou-o a entrar de quarentena na Figueira da Foz. Nada que pudesse hipotecar a sua obsessiva aspiração de subida no mundo político, a qual o trouxe a Lisboa, não fosse este um ponto de passagem quase imprescindível para quem pretende um dia ser nomeado Primeiro-Ministro ou, mesmo, ser eleito primeira figura de Estado da República Portuguesa.
Mas eis que Santana chegou – má fortuna a de todos nós – a chefe de Governo, só não se afirmando primeiramente fora do seu partido e posteriormente dentro do mesmo pelo facto de, na verdade, nunca ter sido detentor da legitimidade democrática que deve ser inerente à ocupação de tal cargo e que somente lhe poderia ser conferida pela força de uma votação popular a que jamais se expôs. Foi Saddam Barroso que o lá colocou, foi Sampaio e – motivo primordial – a confrangedora incompetência do próprio (na primeira pessoa), bem como de todos os que o rodeiam, que de lá o justamente tiraram.
Assembleia dissolvida e, consequência lógica quando se fala de Santana, é gizada a estratégia de novo assalto ao poder. Dado que (desta feita) do julgamento popular nenhum hilariante argumento de favorecimento da estabilidade o livrará, vêem-se os santanistas forçados a apresentar outras mais-valias. Mas, num sahara de ideias e soluções, onde encontrá-las?...
A resposta imediata chegou do Norte, sendo reveladora dos rígidos critérios utilizados por Santana na selecção dos candidatos pelo seu PPD ao lugar de honrosos deputados da nação. Quais? A competência e responsabilidade para assumir tão dignificante e exigente função? Não. Um mais relevante: a amizade pessoal. E assim escolheu Santana, para concorrer nas listas laranjas pelo círculo do Porto às próximas Legislativas, Pôncio Monteiro. A estratégia não enganaria o mais ingénuo entre nós, consistindo numa tentativa gorada de congregar no PSD o maior número de votos na cidade invicta, já que quem defendesse a clara separação de águas entre futebol e política votaria nos sociais-democratas representados por Rui Rio, e quem, ao invés, manifestasse ódio a Rio pelo braço-de-ferro travado com Pinto da Costa, poderia votar igualmente no PSD por neste se encontrar um dos mais acérrimos e irracionais defensores do clube azul. É o querer agradar a gregos e troianos. Só que lá por cima zangaram-se as comadres, e aí foi uma venda de peixe de fazer concorrência ao Bolhão.

29 De Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais! (e Um Outro Fait-Divers)

Bagão, no seu código do trabalho (designação que, junto de um bom marketeer, poderia dar corpo a bem imaginativos slogans publicitários), preocupou-se com os dias de descanso de que desfrutam as classes trabalhadoras em Portugal. La noublesse oblige. E foi embruído nesse espírito que, no sentido de atenuar tais benesses (que não direitos, no entender dos intelectuais e sobredotados lobbies dirigentes e patronais deste país), engendrou o mais habilidoso esquema que o século XXI viu nascer e que possibilita a deslocação do gozo de feriados que recaiam às terças ou quintas. Elementar, meu caro Watson.
Desta forma, pretendeu Félix (não o gato, mas o Bagão) evitar habilidosas vocações de engenharia respeitantes à construção de pontes aqui e ali sempre que tais feriados a isso se ajeitam. Mas, a assim ser, duas questões de pertinente impertinência poderão ser colocadas: em primeiro lugar, sempre que os feriados tenham lugar ao Sábado ou Domingo, serão os mesmos de igual modo deslocados para as segundas? E, num segundo patamar lançado em moldes de sugestão, não seria bem mais exequível a publicação de um Decreto-Lei susceptível de proíbir a proliferação das tãos temíveis pontes para os belmiros e champalimauds deste país (os mesmos que reparam na hora de entrada, mas não de saída, dos seus subalternos), evitando-se o caricato de um dia se poder assistir à comemoração da Revolução dos Cravos a 29 de Abril ou à celebração do dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas a 14 de Junho? Bem sei que o código do trabalho, tendo sido assinado por uma mente de tão imaculada genialidade, deverá prever situações como as acima descritas, inviabilizando o adiamento de feriados de tamanha relevância no contexto nacional. Estarei, portanto, a exagerar. Tanto mais que o trabalho sempre deu saúde. Viva, pois, o trabalho, e quem trabalha, e o 1º de Maio,... ou o... 5 de Maio, ou o... qualquer coisa de Maio.
Mas mudemos de assunto, que vai sendo tempo, de modo a serem abordadas matérias bem mais importantes do ponto de vista doméstico, isto é, intranacional. Nos posts aqui publicados até à data jamais se falou de desporto. Este texto confirmaria a regra (e dela não fugirá em muito), não fosse pelo facto de ter vindo a público, passado largos meses desde o seu anúncio, o motivo pelo qual o Estádio da Luz foi preterido no âmbito da realização da final da taça UEFA do ano que agora principia. Na verdade, numa obra moderna onde tiveram lugar cinco jogos do Euro 2004 (incluíndo o jogo final do nosso descontentamento), será de bradar aos céus o facto de no caderno de encargos um requisito ter ficado por cumprir, já que o comité do órgão máximo europeu que regula a indústria do futebol constatou situarem-se os lavabos (e respectivas complementaridades) do estádio dos encarnados a uma distância das bancadas reservadas à assistência em tudo superior à permitida, isto é, a nada menos que cerca de três quilómetros para Nordeste. É o já denominado estilo arquitectónico luso-racionalista.

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