quinta-feira, janeiro 06, 2005

As Canas e As Scuts: Copos De Água Na Tempestade Sócio-Económica

Não bastando os enésimos problemas e dilemas, e tudo o mais acabado em emas, com que o Governo de Coligação presenteou os portugueses nesta sua fastidiosa legislatura, matérias colaterais vieram estafar ainda mais a paciência de todos quantos vivem em Portugal.
Do Norte uma imensa população fez ecoar a sua voz ao reclamar a atribuição de um concelho a Canas de Senhorim ou perlimpim ou coisa que o valha. Seja tal benesse concedida a um povoado de três mil e quinhentos habitantes e arriscar-nos-emos a, num ápice, ver o país retalhado em municípios bairro sim, quarteirão não, porquanto a população de Canas de perlimpim ou Senhorim ou coisa que o valha poderia bem, de sempre que desce a Lisboa com o intuito de se manifestar diante do Palácio de Belém, ficar hospedada em duas ou três estâncias hoteleiras da capital. Bem entendido, sendo legítima a indignação face a desigualdades e deficientes condições de vida, já a criação avulsa de concelhos com vista à resolução de tais problemas (fosse essa a caixa de pandora capaz de os solucionar) não será em nada exequível.
Convém recordar ter a promessa de subida de Canas a concelho partido do PSD, na ânsia da caça ao voto nas últimas Legislativas (aquelas que elegeram o José Barroso entretanto emigrado). Ou seja, soubemos desde então ser critério de elevação a município, para este partido, a oportunidade de serem cativados votos, e não a dimensão demográfica, disponibilização de serviços e demais infra-estruturas ou relevância de dada localidade no panorama industrial, cultural, económico ou outro em Portugal. Com maior imaginação, poderiam antes Barroso e seus pares ter gasto uns cobres em electrodomésticos e afins, como fez o major Valentim.
Canas à parte, outro pé de vento se levantou no respeitante ao fim das scuts por proposta da (adivinhar-se-à?) Direita. Mais que defender ou contestar a existência das mesmas, urgirá realçar aqui a necessidade (não respeitada) de ser observado o princípio da solidariedade, coesão e unidade nacionais que justificariam que qualquer cidadão deste país suportasse a edificação de um novo hospital em Carrazeda de Ansiães, por muito que resida em Castro Marim. Ou seja, no referente à questão das scuts (assim como a outras matérias) deverá imperar uma lógica de unidade e igualdade que instinga o país, no seu todo, a arcar em idêntica proporção com despesas de construção e manutenção de tais obras públicas, quer se situem no Minho ou Sudeste Alentejano. Algo que não sucede, se se considerar um mero exemplo entre demais: no Algarve, Cavaco (na posse da isenção que lhe é conferida por ser natural da Fonte que outrora foi Poço de Boliqueime) divulgou a tese de não poderem ser colocadas portagens na A22 (a via nacional mais utilizada por turistas), por não subsistirem alternativas; em Lisboa, a A9-CREL, pese a agravante de ser a única circular exterior da cidade e ter o propósito de retirar trânsito à mesma, é portajada, sobejando enquanto alternativa a via mais congestionada de Portugal e arredores, a 2.ª Circular. Critérios...

A Mala Já Não Será De Cartão, Mas a Hora Da Fuga Faz-se Anunciar

Muitos de nós, nascidos no Portugal da pré-Comunidade Económica Europeia, recordarão a longínqua época em que não poucos portugueses saltavam a fronteira com o intuito de trazer no regresso os célebres chocolates e caramelos de nuestros hermanos. No fundo, tais jornadas transfronteiriças serviam um só propósito, o de fazer render um saudoso escudo à época mais forte que a também defunta peseta. Hoje, sabemo-lo, assim já não sucede.
Com efeito, o sentido das deslocações alterou-se significativamente, tendo dois decénios medidos a olho bastado para que sejam agora os nossos vizinhos quem à lusitana nação acorre com o objectivo de nas esplanadas da Expo – ou nas suas zaras e bershkas estendidas da Augusto Aguiar a tudo quanto é Colombo – espraiar um nível de vida em tudo superior. Envoltos neste cenário, uma pergunta sobeja: a que iluminadas almas da política nacional poder-se-ão açicatar responsabilidades pela incessante queda económica e (por inerência) social que de forma paulatina tem arrastado o país para a cauda da Europa?
Será inegável o facto de a adesão de Portugal à actual União Europeia ter trazido vantagens doutro modo inatingíveis. Por outro lado, a era salazarenta cultivadora de uma pobreza franciscana que durante décadas estagnou no espaço e no tempo um Portugal orgulhosamente isolado (preso no Fado, futebol e Fátima) somente poderá alimentar saudades a uma ou outra cinha cá do burgo. Todavia, sendo por demais evidente o progresso sentido desde que nos Jerónimos foi celebrado o casamento do país com a Europa, a verdade é que o ritmo de crescimento tão pouco a espaços acompanhou aquele vivido do outro lado do Minho e Guadiana. Procuram-se motivos...
Hoje, o mais que o português comum pode comprar em Espanha são mesmo caramelos. E, ainda assim, urge acautelar-se, não vão estes danificar a placa e lá terá a família de economizar um semestre para o pai poder ir ao mais barato dentista brasileiro da freguesia.
Eis-nos, tantos anos volvidos, condenados a lutar com os recém-europeus países de Leste, agora que também a Grécia ganha terreno. O português não vive, aprendeu a sobreviver, ajudado por um Governo de Direita que agora é de gestão e que sempre pactuou com entidades patronais (esfumaram-se direitos adquiridos no pós-25 de Abril com o código do trabalho, em relação ao qual abdicarei de explorar rimas fáceis), lobbies de proprietários (a lei do arrendamento da Direita paira como um fantasma à espera de melhor oportunidade para ressurgir) e grandes grupos empresariais que viram ser viabilizados os seus oligopólios travestidos de falsas liberalizações de mercado (as gasolineiras praticam preços exorbitantes, arrogando-se a lusa Galp ao direito de vender por cá a preços consideravelmente mais altos que aqueles praticados para lá da fronteira).
No país onde a população menos aufere é ainda praticada uma das cinco facturas de electricidade mais altas do velho continente. Alguém já disse que a História se repete. Numa era do turismo, não estranhemos poder – nos tempos próximos – ver os portugueses transpôr as fronteiras, não enquanto turistas, mas novamente sob o estigma da emigração.

Bem-vindos a Portugal; Welcome To Portugal; Bienvenus Au Portugal.

O Estado somos nós, mas também as entidades e instituições que, com recurso ao herário público, nos servem e o representam. Ora, o estado do Estado, visto por este ou qualquer outro prisma, nunca foi famoso. Já todos nos resignámos.
O Estado nunca se assumiu enquanto exemplo em inúmeras áreas, mormente no respeito das regras e leis que lhe dão forma. Não cumpre, mas exige que se cumpra; presta maus serviços, é mau pagador e preza pela morosidade das suas acções, excepto no respeitante a assuntos de indesmentível carácter urgente, como o são a premência de atribuição de diluvianas reformas a quem por oito largos anos se passeou pelos passos perdidos da Assembleia ou por menos tempo aqueceu a poltrona do gabinete de chefia da Caixa Geral.
Vivemos num país do só cá vim ver a bola e do vai andando que já lá vou ter, onde o lascismo, as conivências, a arte da falcatrua e rasteira ao próximo criam jurisprudência. Tudo conta numa terra do faz de conta onde só a indústria da tanoaria parece encontrar mercado por onde se expandir. Inclusive na hora de encontrar emprego, mais que a licenciatura conseguida na escola superior de não-sei-quantos ou o mestrado adquirido na universidade do não-sei-que-mais, o que verdadeiramente possui relevância é ser-se parente de tal fulano que, por acaso, até possui posição de relevo no pelouro de coisa nenhuma da autarquia de Montes de Cima [Nota: não será igualmente de descurar a amizade dos amigos dessoutros amigos que por seu turno conhecem aqueloutros amigos do actual companheiro da directora de recursos humanos do Instituto da Carica de Abertura Fácil, que também desempenha funções na Associação Regional de Produtores de Couve Lombarda e que aos fins-de-semana ainda aufere ordenado-extra com a acumulação de tarefas de secretariado e organização de eventos na Federação Nacional de Carrinhos de Rolamentos].
Os focos de corrupção e favorecimento pessoal crescem em consonância com a proximidade entre populações e quem exerce funções públicas, mas organismos de assinalável dimensão nesta lusolândia admitem nos seus quadros funcionários seleccionados por intermédio de anúncios de admissão de pessoal e concursos públicos de camuflada transparência. Teatralizo? Talvez, mas ainda o mês passado respondi a dado anúncio publicado por determinado organismo da área metropolitana de Lisboa, procurando técnicos em dada área profissional. A entrevista, que nunca aconteceu, seria critério de selecção. Como foi, então, aplicado o mesmo? Terá pretendido o anúncio em causa simular um falso cumprimento da lei que obriga à sua publicação, mesmo sabendo os seus autores e mais sabe-se lá quem que já havia sido definido quem iria ocupar o lugar vago? Não, eu próprio refuto tal conjectura, num país de gente tão séria.
Noutro organismo de Lisboa houve quem visse declinada a sua candidatura espontânea de emprego. Como compensação, conseguiu um almejado lugar quem possuía pior média académica, nunca havia desenvolvido estágio em tal organismo e, coisa de somenos relevância, tinha residência de origem situada a bem mais de duas centenas e meia de quilómetros da capital. Pormaiores...

terça-feira, janeiro 04, 2005

Para Que, De Uma Vez Por Todas, Não Mudem Somente As Moscas

Sejamos realistas, com as Legislativas à porta (bata-se na madeira, que ninguém falou em Portas), o espectro político-partidário português somente pode oferecer ao país um de dois cenários: ou o PS se apresenta enquanto verdadeira alternativa a todo o desgoverno e cinzentismo em que a Direita afundou Portugal ou, num remake do pior que o pior da era Guterres conseguiu produzir, os socialistas limitam-se a constituir uma mera solução de alternância do poder, mudando neste os políticos, mas não – para mal de todos – as políticas.
De nada adiantará ao país chutar para canto a companhia Santana e Portas, Ld.ª caso a Esquerda não corrija a trajectória que tomou nos meses finais do seu último mandato. O país, neste momento, precisa de uma alternativa forte àquilo que foi o império da tanga inaugurado por Durão e a novela romancesca da verdade de hoje que é a mentira de amanhã continuada por Santana Lopes. A assim não suceder, será a própria fé depositada na democracia e as résteas de credibilidade ostentada pelos políticos em Portugal que estarão, em muito, comprometidas, porquanto não existirá muito mais margem de manobra no que respeita às cedências que o povo – cansado de apagar fogos que outros ateiam – estará disposto a fazer.
O PS (aqui referido por não se reconhecer a quaisquer outras forças partidárias condições para constituir alternativa de poder à nefasta Coligação que ainda hoje se arrasta, em regime de auto-suspensão, pelas esquinas do mundo político) dispõe de uma oportunidade singular para construir e cimentar junto dos portugueses a sua posição de consistente e fiável solução governativa, tornando-se para tal premente engrenar a marcha-atrás o mais cedo possível, por forma a seguir um diferente rumo no tocante a importantes políticas que o anterior (e actual, ainda que em gestão) executivo adoptou.
Repetir-me-ei em relação a algum post aqui anteriormente colocado, o que derivará do facto de o essencial dos problemas que assolam os portugueses não se alterar do dia para a noite, como seria desejável. Por isso, vem sempre à tona, desde logo, a da urgente adopção de políticas capazes de inverter a tendência das taxas de desemprego e, também, a necessária reformulação do polémico dossier das propinas, cujo agravante aumento na legislatura em fecho para excusável balanço contribuiu de sobremaneira para a elitização do sistema público de ensino, fechando as universidades estatais a toda uma classe média não abastada o suficiente para suportar tamanhos encargos e, por outro lado, não miserável o bastante para usufruir de bolsas de incentivo ao estudo que rareiam mais que água no deserto.
No respeitante à questão do sistema nacional de saúde, tornou-se surrealista o mero propósito demonstrado pela Direita em queda de pretender obrigar a classe média/baixa que ao mesmo recorre (a medicina privada cá está para servir outros de mais folgada bolsa) a pagar, por intermédio do artifício das taxas moderadoras, pelo acesso a um sistema para o qual já contribui nos seus impostos. Que o novo inquilino das traseiras de S. Bento não corrobore tais intenções.

Manifesto Pró-independência Para o Pomar do Sr. Alberto João

Aquando da derradeira deslocação da nação tripanária a solo madeirense (falo de futebol, ou daquilo que em Portugal mais se assemelha ao mesmo, bem se vê), João Jardim enfatizou o facto de o país precisar de mais pintos da costa (e eu que julgava estar há muito ultrapassado a já de si débil capacidade de resposta dos tribunais); numa troca de galhardetes própria do ambiente bajulativo em que se movimentam as individualidades mediáticas deste país, o actual companheiro da senhora que em Outubro desceu à capital para publicitar outras orelhas que não as suas frisou, por seu turno, apresentar-se o eterno líder do laranjal do Atlântico enquanto excelente futuro presidente de todos nós, pobres continentais incluídos. Ou seja, não bastando, enquanto propaganda de indesmentível eficácia, a incessante quebra do poder de compra e nível de vida a que estão sujeitos os portugueses, ficámos a saber estarmos todos nós perante a incumbência de nos tempos futuros assistir a novos e igualmente letais incentivos à emigração.
Sempre me opus aos que, no recontro com as dificuldades, não hesitam em revelar o desejo de Portugal ser mais uma província espanhola. Santanas depostos, não venham agora pintos da costa de tão discutível idoneidade querer importar do panorama insular a mais fiel das espécimes salazarentas da contemporaneidade, no quinto ano do terceiro milénio d.C., forçando-me a inverter o sentido daquela que, por honra e respeito aos valores da nacionalidade, sempre adoptei como posição ideológica.
Todos nós, enquanto cidadãos, pagamos o progresso da Madeira, recebendo em troca as inusitadas críticas do Sr. Alberto João Jardim (as quais, parafraseando um Freitas do Amaral em diferente contexto, dariam vontade de rir se não dessem vontade para chorar). Esse mesmo Alberto João que, cuspindo na mão que alimenta o seu reinado, jamais se cansou de alimentar provincianos sentimentos de separatismo ou coisa que o valha. Ora, porque não cumprir esta sua vontade? O que ganha o país ao ter a Madeira enquanto seu território? Bem menos, por certo, do que os milhões que anualmente para a mesma envia, ao mesmo tempo que a quem por cá habita se suplicam sacrifícios. Jardim recusa pagar as crises que em Portugal políticos da sua mesma classe tudo fazem por agudizar; mas o contribuinte continental, com um complacente sorriso nos lábios, em todos os orçamentos de Estado sente o peso da tarefa de pagar as obras de que para si, em exclusivo, Jardim retira os louros.
Quão descabida será a implantação da independência na Madeira? Na verdade, no cumprimento do défice e do pacto de estabilidade, a mesma constituiria inclusive uma receita extraordinária de inevitáveis consequências no desafogo económico do país a ML prazo. Para mais, tal cenário jamais promoveria a desagregação da nossa nacionalidade, porquanto a Madeira sempre foi, tão ou mais que a Galiza, uma realidade distante do país continental, não sendo pela sua independência que os portugueses do lado de cá deixariam de poder ir ao pomar do Sr. Jardim assistir ao Carnaval ou aos fogos-de-artifício da passagem de ano.

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