sexta-feira, dezembro 31, 2004

Todos Nadamos Nela, Só o Dr. Lux Ainda Não Viu A Porcaria Que Fez

Com a ansiada dissolução da Assembleia da República e agendamento das Legislativas para finais de Fevereiro do ano vindouro (não muito distante do Entrudo, de modo viabilizar o óbvio termo de comparação entre os políticos deste país e as alegorias próprias da folia carnavalesca), já antes aqui no MnE houve oportunidade de referir o facto de a Direita derrotada ter encerrado o triste espectáculo da (des)governação para, desta feita, dar início aos não menos deploráveis ensaios da previsível tese da vitimização. Originalidades...
Não desenvolverei novamente este assunto. Abordei-o num dos posts aqui lançados a 27 de Dezembro último e, para mais, também já vi circo que chegue neste Natal, sendo altura de a caravana desmontar a tenda. Ainda assim, o que li no CM de 29-12 obriga-me a fazer aqui uma (espero) derradeira referência à matéria em apreço. Numa frase, Santana comunicou aos militantes do seu PPD, que também é PSD (Portas lá tem o seu CDS/PP, que já foi PP e antes foi só CDS), não ter – frisava eu – encontrado fundamentos suficientemente capazes de explicar a dissolução da AR. Bastava ter olhado para o país que se estende para lá do jardim da sua residência oficial de S. Bento, Dr. Santana, ou, caso não o pretenda fazer, solicitar a alguém que envie ao cuidado da auto-suspensa Coligação os enésimos fascículos onde consta toda a porcaria guinnessiana feita em quatro meses de desgovernação do país. Neste blogue, reconheça-se, não me sobejaria espaço para a inclusão de tal listagem.
Virando a página, para algo não completamente diferente: consta que Filipe Menezes concorrerá às próximas Legislativas pelo círculo eleitoral de Braga, para logo após conhecidos os resultados do escrutínio retomar funções em Gaia. Não é prática nova esta de os políticos caírem de pára-quedas em determinado distrito com o único propósito de reservar lugar no parlamento. Portas fê-lo em Aveiro, Maria Elisa fê-lo em Castelo Branco, muitos outros fizeram-no e continuam a fazê-lo um pouco por todo o país, sem distinção de cores partidárias. Questiono-me, como tantos portugueses fartos de tais atentados à sua inteligência, até quando continuarão a suceder estas actuações de tão profundamente desacreditam a política nacional, quem nela se movimenta e, em última instância, o nosso próprio sistema democrático. Muito provavelmente até quando o povo quiser.
Ora, o pior é que o povo até quer, já que raramente utiliza bem a arma do voto. No momento certo vinga a conivência com quem tudo faz para na política se servir e auto-promover. Vencem os mesmos santanas e os papagaios sarmentos, os portas mais as cinhas que os apoiam; perde o país e todos quantos somente a posteriori se lembram de reclamar de quem ao colo colocaram no poder, mais das scuts e do centralismo da capital, como se não tivessem eles próprios, mais que outros, ajudado a abrir a porta do parlamento a deputados de duvidosa competência e boa-fé que deviam defender interesses e anseios das populações por cujo distrito foram eleitos, mas que verdadeiramente perseguem interesses bem menos comunitários
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terça-feira, dezembro 28, 2004

Não Se Limpem As Espingardas. O Monstro Ainda Respira...

Com a deposição do monstro bicéfalo formado (à revelia da avaliação popular) por uma Direita unida no intento do assalto ao poder, julgar-se-à ter-se salvo o país dos ininterruptos ataques cirurgicamente dirigidos por tal aberração governativa ao que sobeja da classe média. Não se deponham, no entanto, as armas. O monstro, ferido no âmago, ainda esbraceja.
Dinasticamente escolhido para dirigir os destinos de Portugal por um refugiado político em Bruxelas cujo nome a História de Portugal desejaria esquecer, o Santanismo (não, mesmo tendo contribuído para tornar a vida dos portugueses num purgatório, não se trata de nenhuma seita pregadora dos princípios de Belzebú) marcou irremediavelmente este annus horribilis. Não satisfeitos, pretendem Santana e amigos (sabe-se bem quantos sapos a maioria dos mesmos é forçada a engolir) continuar a assombrar o país após Fevereiro de 2005. E na senda de tal ensejo, a exemplo do que sucedeu nos últimos anos, continua a Direita laranja a contar com um ex-defensor dos idosos e oprimidos que, jogando qual Frota na Quinta das Alarvidades, o só foi enquanto a sede de poder exigia.
A Direita coligada suspendeu o casamento de conveniência por forma a, nada mais que isso, maximizar votos nas próximas legislativas. Provavelmente Portas revisitará praças e feiras deste país, podendo mesmo atracar os seus submarinos por perto, assim a proximidade costeira permita. Veremos também Santana surgir enquanto salvador dos desfavorecidos que os poderosos quiseram aniquilar. O povo deixar-se-à enganar, assim o queira.
A campanha despudorada começou. Santana, em vésperas de consoada, encheu o Centro de Congressos lisboeta com uma mão cheia de almas em maior grau atraídas pela ceia gratuita do que pelos seus dotes de orador e sedutor de massas. Aliás (e numa deserção a lembrar um Barroso em home edition), mesmo tendo abandonado a Câmara alfacinha há meses (onde, de outro modo, também cultivou buracos), Santana não se coibiu de utilizar meios da edilidade (leia-se, dos lisbonenses) para endereçar aos funcionários camarários convites para tal jantar. Estamos, pois, em presença de um senhor de valores éticos dificilmente categorizáveis.
Ainda no dito jantar, Santana e o seu PPD receberam um honroso apoio do PPM para as legislativas. Alguém recorda este partido? Auxílio de memória: é o mesmo que aquando das Europeias de 2004 lançou o comunicado mais conspurcativo da democracia e classe política lusitanas, versando o falecimento de Sousa Franco. Sejam conferidos, no entanto, dois méritos a tal missiva: não só qualificou as hostes do inexpressivo partido que o emitiu, como me relembrou o facto de viver num Estado laico (permissa que me livra de ideais ortodoxos contaminados pelo fanatismo da intolerância religiosa) onde a república vigente ainda me vai concedendo o poder de regular e livremente punir ou premiar quem ocupa cargos políticos. Mais: fez-me regozijar pelo facto de os membros do PPM (o comunicado da altura assim faz crer) com afinco vigiarem a sua saúde, na certeza de que assim poderão os saudosos da monarquia por bons anos admirar este orgulhoso Estado laico e Republicano de garboso nome Portugal.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Porque Foi Dissolvida a Assembleia? A Direita Não Sabe. Uma Ajuda...

Bastaram parcos dias após o conhecimento público da dissolução da Assembleia da República para Santana e Portas – secundados pelas suas marionetas – montarem a estafada tese da cabala, surgindo enquanto vítimas nucleares de um PR apostado em ajudar a Esquerda de Sócrates. Antes fossem Santana e Portas as maiores e únicas vítimas da crise sócio-económica em curso, e não, para mal deste pequeno rectângulo, os milhares de cidadãos que assistem à deterioração do seu nível de vida. As verdadeiras vítimas estão longe de se cingir à circense dupla Santana e Portas copiada dos velhos jarretas do Muppet Show (e tão bem os imitaram na conferência de imprensa onde foi anunciada uma separação de listas por mera conveniência eleitoral).
Santana, que sublinhou respeitar a decisão do PR para posteriormente a criticar veementemente (chegando a fazer lembrar um petiz a quem alguém surrupiou o Chupa-Chups), surgiu perante a nação estupefacto face à dissolução da AR, referindo não encontrar razões para tal. Pois bem, Dr. Santana, não me causará transtorno auxiliá-lo na listagem dos motivos que conduziram a tal dissolução, sendo que – como compreenderá – aflorar todos tornaria este texto fastidioso em demasia.
No respeitante ao ensino, à perene perda de qualidade humana e material contrapôs-se uma imposição de propinas insustentável para quem não responda pelo apelido de Jardim ou Espírito Santo. Na gaveta, em prejuízo do desenvolvimento do país, fica toda uma obediência a parâmetros de meritocracia que deveria existir por forma a ser assegurada a gratuidade do ensino a quem trabalhe pelo direito à mesma.
Na saúde, o propósito da criação de taxas moderadoras poderia constar dos melhores sketchs do Prédio do Vasco. Santana argumenta que quem mais tem mais deve pagar; não frisa, contudo, que quem mais tem não recorre ao serviço nacional de saúde, sendo que quem acaba por subsidiá-lo duas vezes é, como regra, a classe média/baixa.
A governação de Santana ficou ainda marcada pelas constantes pressões exercidas junto dos media. O caso TVI/Marcelo tornou-se anedótico: primeiro, o líder parlamentar do PSD veio a público defender a não convocação à AR de Rebelo de Sousa, dado constituir uma desautorização da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Mudou repentinamente de opinião o mesmo líder «para lamentar», colocando em causa a idoneidade e independência da AACS mal soube confirmar as pressões exercidas o relatório por esta produzido.
Toda a legislatura cessante – povoada de imbróglios, contradições e demissões – se inspirou no pior de Barroso (cuja fuga somente será distinguível da de Guterres no que concerne ao bom alibi que não caíu no colo deste último). Manteve-se o constante ataque a uma classe média condenada a pagar crises sócio-económicas por outros agudizadas. Mais uns ténues anos da Direita no poder e a realidade testemunharia a já de si notória transformação do país numa América latina da pior estirpe onde a classe abastada viverá rodeada de mordomias em condomínios fechados e mansões inseridas em bairros de acesso reservado, com videovigilância e arame farpado. Cá fora, escondido pelos muros que desviam o olhar, adivinha-se o mundo-cão.

A Decadência Político-democrática em Portugal (Memória Recente II)

Ainda na grelha de partida, e num fogo-de-artifício mediático ao seu jeito, deu Santana Lopes um sinal revelador do quão desbragadamente populista seria o seu reinado, ao defender uma folclórica descentralização ministerial que o levou, como sucede quando aflora as inúmeras matérias que ignora, a experimentar o senso do ridículo. Ensaiou-o, e tome-se este exemplo entre enésimos outros que a premência de concisão não permite denunciar, ao estranhar porque tinha sede em Lisboa a Secretaria de Estado do Turismo. Aceite hoje (embora tarde), Dr. Santana, esta singela lição de um modesto cidadão português licenciado na área em ênfase.
Saiba que, se o Algarve lidera o turismo balnear em Portugal, dirigiu o senhor a edilidade que encabeça o turismo nacional em segmentos de crescente importância: de cruzeiros, de negócios (integrando o top ten mundial no nicho de congressos/eventos) e, com assinalável destaque, cultural. Por acréscimo, Lisboa ocupa uma posição geográfica única, na confluência de alguns dos mais importantes destinos portugueses, o que permite pernoitar na capital com deslocações a Cascais e Sintra, Mafra e Óbidos, Alcobaça, Tomar e Santarém, Batalha, Leiria e Fátima, Évora e Nordeste Alentejano, Arrábida e península de Setúbal. Mais: Lisboa foi já em 2004 a região que mais receitas turísticas gerou, tendo ultrapassado o Algarve na época alta, e não só (como já o fazia) fora da época de veraneio.
Entre outros tantos motivos, qualquer discente de turismo (ciência social que o cessante Ministro do Turismo jamais cursou) sabe não dever recair o desenvolvimento de Portugal num frágil e saturado turismo algarvio que privilegia a maximização de receitas resultantes de densos fluxos turísticos fomentadores de impactos negativos, seja no plano ambiental ou da aculturação, mas sim no denominado turismo pós-moderno que, para além de não hipotecar receitas de ML prazo (dado prolongar o ciclo de vida do produto turístico ao respeitar a premência da sustentabilidade desta actividade por intermédio de uma comercialização racional de recursos e potencialidades), responde às expectativas do novo arquétipo de turista que anseia pela diversificação da oferta e usufruto de ambientes natural e culturalmente singulares, saudáveis e não adulterados.
Ora, este novo turismo pós-fordista, vantajoso por ser menos vulnerável à sazonalidade própria de destinos balneares que potencia a instabilidade sócio-económica, floresce em destinos de património cultural e natural relevantes, destacando-se na primeira das realidades Lisboa em Portugal. Percebeu, Dr. Santana, porque não estava deslocada a localização de uma SET na capital? Deveria o senhor ter-se antes preocupado, no seu mandato, com incongruências mais reais da sua política, começando pelos descarados favorecimentos pessoais e tráficos de influências que pautaram tal legislatura. Nunca abandonando o sector do turismo, atente-se nesta maravilhosa pérola: a quem augure ser funcionário de um organismo público como a Direcção-Geral do Turismo, Instituto do Turismo de Portugal ou órgãos de administração regional e local exige-se a aprovação num concurso público onde licenciatura e experiência laboral em turismo não garantem automaticamente tal ensejo; ao Ministro do Turismo agora cessante ser militante de proa do CDS/PP assegurou-lhe, por nomeação directa, tal cargo. Santanócracias...

A Decadência Político-democrática em Portugal (Memória Recente I)

Haveria Portugal de testemunhar, no ano que finda, a recondução de um governo e Primeiro-Ministro não eleitos. Assim se viveu, em 9 de Julho, o mais triste dia da luso-pseudo-democracia. Até então poderia o povo português orgulhar-se de viver num país que permitia julgar quem ocupa cargos políticos em eleições universais, regulares e livres. Por usufruir desse direito, que não um privilégio, a mim próprio enquanto cidadão sempre me obriguei a do mesmo dispor. Contudo, tendo o Presidente da República – na data em epígrafe – reempossado um governo manco de um PM desertor, ponderei de forma séria prescindir do direito de votar, cansado de assistir à desvalorização da importância de o povo eleger os seus representantes (atentado supremo à democracia!), bem como por concluir ter então entrado em vigor em Portugal um novo arquétipo de sucessão governativa dinástica por si só susceptível de tornar irrelevante quaisquer eleições e, por inerência, o meu voto.
O primeiro golpe na democracia em Portugal havia já sido dado nas legislativas de 2002, com a formação de um governo eticamente ilegítimo, resultante de um conluio PSD/CDS pós-eleitoral (leia-se, não sufragado pelo povo) que colocou no poder um partido que tão pouco prefaz 10% do eleitorado. No mês de Julho de 2004, novo golpe foi dado, tão grave ao ponto de se não poder aferir se o mesmo terá desacreditado de forma irremediável e por muitos bons anos a classe política ou, ao invés, o regime democrático português na sua essência.
Aquando da célebre tomada de decisão de Julho de 2004, francamente confrangedora para Portugal enquanto Estado democrático que ainda é, fez Sampaio obedecer a sua deliberação ao argumento de dever ser concedida à estabilidade maior ênfase que à legitimidade política. Esqueceu-se a figura máxima do nosso país de que numa real democracia nenhuma destas permissas deve irrelevar a outra e que, erro maior, estabilidade e Santana Lopes sempre se constituiram enquanto realidades antagónicas. Este singelo erro de avaliação do Presidente de todos nós (perfeitamente evitável porque, desde logo, previsível) custou para si a obrigatoriedade de ceder a mão à palmatória e, mais grave, condenou o país a um longo hiato de definhamento socio-económico.
Em suma, conheceram este ano os portugueses o lado mais putrefacto do mundo político. A um PR no momento-chave incapaz de defender o sistema democrático somou-se: um presidente da Comissão Europeia português que considera mais honroso desfilar e fazer carreira na Europa do que ter cumprido o mandato de chefe de governo confiado pelo seu povo (oportuno alibi de fuga este, face ao afundamento da Direita que hoje se confirma); uma Coligação jamais eleita enquanto tal e que – obcecada pelo poder – festejou até há bem pouco tempo o seu não julgamento por um povo que quase desde o início desesperou pelo seu funeral; e um PM agora cessante jamais votado pelos portugueses. Dito e resumido, porque não propor a premiação da classe política portuguesa com um voto de louvor pelo esforço e mérito depositados na celebração dos trinta anos da Revolução dos Cravos?

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